terça-feira, 12 de outubro de 2010

O CAPITALISMO NO FUNCIONAMENTO DO ESTADO

Influências do capitalismo contemporâneo na dinâmica de funcionamento do Estado: para compreender o Estado neoliberal e não querê-lo fortalecido.



Teresa Cristina Coelho Matos
Assistente Social, Especialista em Gestão de Organizações Públicas e Sociais pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI, Mestra em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Piauí – UFPI. E-mail: teresacmatos@uol.com.br

NÃO VOTE EM SERRA!



INTRODUÇÃO

A sociedade contemporânea tem como marca relevante o fenômeno da globalização, que alterou, e continua alterando, os modos de produção, as fontes de riquezas, os valores e os sistemas de poder. Nesse contexto, muitos Estados foram impelidos a empreender reformulações em sua estrutura para se tornarem compatíveis com essa nova ordem econômica e social caracterizada pelo capitalismo global que ampliou, em grande medida, as desigualdades sociais.
Investigar essa tese requer uma incursão pela história destacando-se os eventos mais significativos no processo de transformação da sociedade, que influenciaram na modelagem do sistema capitalista ao longo do tempo e na estrutura de funcionamento do Estado, para, em seguida, incorrer sobre o movimento global de reforma do Estado, desencadeado na década de 1980 e ampliado na década de 1990, desencadeado no Brasil pelo Governo de Fernando Collor de Mello e consolidado pelo Governo de Fernando Henrique Cardoso.
Recorrendo a estudos produzidos sobre o tema, buscou-se destacar a interferência do capitalismo contemporâneo na definição e implementação das estratégias de governo voltadas para realizar esse projeto reformista que, em tese, propunha-se a promover a estabilização econômica, a reinserção internacional e a institucionalização da democracia, mas de resultados desastrosos no vivido social.

1. OS CAMINHOS TRILHADOS

A fase atual da sociedade foi moldada por mudanças significativas no seu sistema de valores, por significativas alterações nas relações de produção e no seu aparato institucional, e foram muitos os eventos humanos e os fatos que tiveram importância na formação desse modelo de sociedade caracterizado pelo capitalismo global, dominado pela revolução das tecnologias e pelo poder do conhecimento e da informação.
A Revolução Industrial, ocorrida entre os séculos XVIII e XIX está entre os acontecimentos de grande significado na modelagem da sociedade atual, pois marcou a substituição dos processos manuais de produção pelos processos industriais mecanizados e estabeleceu o desenvolvimento do capitalismo industrial (CANTANHEDE,1983, p.83).
Seguindo o curso da história, no período que se segue à Segunda Guerra Mundial ocorrem novas mudanças no cenário da sociedade. As premissas de Marx sobre a reprodução do sistema capitalista são materializadas: a ciência passa a ser utilizada como fator de produção, os instrumentos de trabalho são aperfeiçoados, os meios de comunicação e de transporte se modernizam, surgem os grandes centros urbanos e a centralização dos meios de produção em grandes corporações.
A partir daí as forças produtivas do sistema capitalista foram reforçadas e o capitalismo da economia mundial de hoje começa a tomar formato, sobretudo com a modernização dos transportes e com a utilização da ciência na produção.
É nesse período que se inicia a liberação de fluxos comerciais internacionais, estimulada pelos Estados Unidos, que saem fortalecidos da Segunda Guerra Mundial, com status de nação hegemônica, e nessa posição, com o argumento da racionalidade econômica, passam a estimular a interligação das economias, com o interesse de defender a sua posição de vanguarda nos setores industriais mais atuantes e de controle dos principais circuitos financeiros e comerciais (FURTADO,1992).
É nesse período, também, que o cenário socioeconômico de vários países passou a ser fortemente influenciado pela ideologia socialista de defesa da propriedade social dos meios de produção e da distribuição igual das riquezas, para combater a ideologia capitalista de produção social e da propriedade privada, de estímulo ao lucro crescente do capital e os seus efeitos na sociedade: desigualdades, desemprego e exclusões.
Pelos estudos feitos por Lester Thurow (1997), essa tendência de domínio do socialismo sobre o capitalismo forçou as economias capitalistas a adotarem uma mentalidade defensiva global, iniciada pela ajuda externa que os Estados Unidos deram aos países do terceiro mundo, com o objetivo de garantir parceiros fortes para combater o comunismo que se expandia.
Esse período, compreendido entre o término da Segunda Guerra Mundial e o início dos anos de 1970, é conhecido como a “era de ouro do capitalismo”. O Estado, nesse período, estava estruturado para exercer a função relevante de controle e de ordenação das atividades econômicas, dentro de uma visão desenvolvimentista de expansão dos mercados internos.
A partir de 1973, conforme afirma Fiori (1996), a estrutura econômica da sociedade passa por um desajuste que compromete a sua estabilidade. Inicia-se a crise das políticas econômicas nos países centrais, das políticas de proteção social dos “Estados de bem estar” e das políticas de industrialização dos países subdesenvolvidos. Europa e Estados Unidos passam a enfrentar altos níveis de desemprego e os paises da América Latina, como o Brasil, passam a enfrentar o endividamento interno e externo, déficit público, hiperinflação e desaceleração da economia (THUROW, 1997).
Os fundamentos do capitalismo: estabilidade financeira, pleno emprego, salário em ascensão e crescimento, foram abalados, não estavam sendo vivenciados no cotidiano da sociedade. A realidade passou a apresentar-se sob a forma de recessão, demissões, desempregos e queda de salários reais, provocando uma queda no padrão de vida e proporcionando o crescimento da desigualdade social.
Diante desse cenário, em todo o mundo, Estados reformulam seus aparelhos e redefinem o seu papel para se adequarem a essa nova etapa da vida social, marcada pelos imperativos da globalização e da reestruturação capitalista, tornando-se forçoso a reformulação de sua estrutura organizacional para garantir a produtividade e a competitividade da economia, preservar os interesses gerais do capitalismo global e responder às grandes demandas sociais surgidas ao longo do processo de transformação da sociedade.

3. O MOVIMENTO GLOBAL DE REFORMA DO ESTADO

O movimento de reforma do Estado na sociedade contemporânea evidencia a concepção de Claus Off de que o Estado capitalista é “uma forma institucional do poder público em relação com a produção material” (1984, p.123). Assim, em 1989, os sete países mais ricos do mundo (Estados Unidos, Alemanha, Canadá, Japão, Inglaterra, França e Itália) selaram um acordo estabelecendo diversas políticas voltadas para a implantação de um novo modelo de Estado, fundado sob as bases da concepção neoliberal, - (ref. Doutrina desenvolvida a partir da década de 1970, para adaptação do liberalismo clássico às exigências de restrição ao Estado interventor e assistencialista na economia, devendo exercer controle do funcionamento do mercado em grau mínimo e apenas em setores considerados imprescindíveis) -, tendo em vista atender aos interesses de acumulação do capitalismo global.
Nesse acordo, conhecido como Consenso de Washington, definiu-se um conjunto de estratégias para a formação desse novo Estado, quais sejam: a) ajuste fiscal, para diminuir os gastos do governo e reduzir o déficit público; b) redução do aparelho de Estado na provisão de bens e serviços públicos; c) privatização, através da transferência de empresas sob o controle do Estado para a iniciativa privada; c) criação de espaços políticos para a participação da sociedade na fiscalização dos gastos públicos.
Considerando que o Governo é o centro propulsor e unificador do Estado; a estrutura de comando que imprime as regras para que sejam cumpridas as orientações políticas do Estado (BOBBIO, 1999), na década de 1990 os governos de diversos paises do mundo, dentre os quais o Brasil, sob os comandos de Collor de Mello e de Fernando Henrique, empreenderam o movimento de reestruturação do Estado, centrando esforços para “modernizar” e “agilizar” sua base institucional de gestão, a Administração Pública.
Destaque-se que, a centralidade do movimento global de reforma do Estado foi o de dotar a administração pública de eficiência e eficácia pelo entendimento que a estrutura existente não atendia às necessidades dos governos e nem ao interesse público. Para isso os mecanismos utilizados pelos governos seguiram as estratégias definidas pelo Consenso Washington: a) limitações das dimensões do setor público; 2) privatizações; 3) comercialização ou corporização do setor público; 4) descentralização para governos subnacionais; 5) uso de mecanismos típicos de mercado; 6) novas atribuições aos órgãos da administração central, visando a “racionalização” (KETIL, 1998).
Os estudos de Donald Ketil apontam que o que levou cada país a definir os seus programas de reforma foi a natureza das suas forças políticas e das instituições de cada um deles e que, as diferenciações apresentadas nesses programas são influenciadas pela diferenciação dos cenários geográficos e culturais, das suas riquezas acumuladas e da importância dada à geração do conhecimento. Assim, em alguns países deu-se maior importância ao papel social do Estado e em outros ao fortalecimento do mercado.
Nos Países latino-americanos as reformas do Estado seguiram principalmente as tendências de revisão do seu tamanho e do seu papel, pela via das privatizações e da terceirização na provisão de bens e serviços públicos. Situação identificada no projeto reformista do Estado brasileiro, apesar de seus formuladores o apresentarem sob um discurso crítico ao neoliberalismo; defendendo uma reforma de base social-liberal, - (ref. corrente política de cunho reformista, por via democrática, originária da doutrina revolucionária socialista e marxista de 1917, mas que no contexto do Estado capitalista contemporâneo visa a melhoria das condições de vida dos trabalhadores sem comprometer os interesse do capitalismo global) -, apresentada, nas palavras de Bresser Pereira (1999), como a que melhor soube diagnosticar as crises estruturais enfrentadas pelo Estado brasileiro diante dos imperativos do mundo globalizado.
Porém, a concepção reformadora, na prática, estava fortemente concentrada na diminuição do Estado e na valorização do mercado, sendo veiculada para a sociedade como estratégia para preparar o país e ajustar sua economia para a nova competitividade internacional, tendo, para isso, que se livrar de uma herança de décadas anteriores na qual o Estado era gigantesco, ineficiente e perdulário (NOGUEIRA, 2005).
Nesse sentido, os formuladores dessa matriz do Estado brasileiro apontaram como práticas necessárias a transferência para a iniciativa privada das atividades que podem ser controladas pelo mercado (privatização das empresas estatais) e a descentralização para o setor público não-estatal de serviços que não envolvem o exercício do poder do Estado, mas devem ser subsidiados por ele, como educação e saúde.
Contudo, vale ressaltar que devido ao avanço da vida democrática na atualidade, emergem nesses países um movimento de conscientização de que mercado e Estado não são os únicos organizadores da vida social e que os movimentos organizados da sociedade são partes integrantes e peças fundamentais nessa tarefa.
Assim, além de empreender o ajuste estrutural da economia e a reforma do aparelho administrativo do Estado tornou-se necessários empreender um processo de democratização, com a adoção de uma variedade de medidas voltadas para assegurar a participação da sociedade civil na reconstrução do Estado e na delimitação do alcance regulador do mercado, incluídas no texto da constituição de 1988, que estabelece novas bases de relação entre Estado e sociedade no âmbito da gestão pública.
Nesse sentido, é ilustrativo, na realidade brasileira, a constituição e consolidação de conselhos gestores de diversas políticas e programas sociais, a prática do orçamento popular em várias cidades, bem como a realização de conferências para consulta popular, em nível nacional, estadual e municipal, para o planejamento das ações de saúde, educação, meio ambiente, assistência social, dentre outras, com a participação garantida de representantes da sociedade civil.
Vale ressaltar que para que o processo de democratização alcance seus resultados, além desses espaços de participação popular na gestão pública, é necessário, também, a adotar conduta dialógica na busca de articulação entre Estado, agentes econômicos e sociedade civil - {ref. compreendendo sociedade civil no sentido dado por Grmsci: “ sociedade civil não é um mero terreno de iniciativas ‘privadas’, mas tem [...] uma ‘função estatal’, na medida em que se põe como ‘hegemonia política e cultural de um grupo social sobre toda a sociedade, como conteúdo ético do Estado” ( NOGUEIRA, 2003, p. 187, apud GRAMSCI, 2000)} - e, assim, criar os meios políticos para a consolidação democrática e ampliação dos direitos e da justiça social.



4. CONCLUSÃO:

Nesse estudo pode-se perceber que as propostas de reforma do Estado empreendidas nas sociedades capitalistas da atualidade, apesar de se apoiarem num discurso de defesa dos interesses coletivos, tiveram como base a concepção neoliberal imposta pelos paises ricos e reforçam a tese de que foram implementadas, principalmente, com o propósito de atender aos interesses econômicos do capitalismo global.
Dentro de uma realidade complexa, que engloba interesses diversos e conflitantes, tanto no âmbito do Estado, dos setores econômicos, quanto da sociedade civil e entre estes, percebe-se que algumas questões, ainda hoje, continuam na pauta de discussão. Como realizar uma reforma de Estado que priorize a defesa dos interesses coletivos no contexto da sociedade capitalista contemporânea? É possível reverter as práticas focadas estritamente na defesa dos interesses das elites econômicas transnacionais, internacionais e nacionais?
Dentre os caminhos apontados está o de conceber a sociedade civil no sentido gramisciano, devendo ser vista com a “função estatal” de conteúdo ético do Estado, bem como de ampliar os espaços de participação da sociedade para além da arena das políticas públicas de cunho social, garantindo seu envolvimento no debate de questões referentes à racionalidade econômica e distribuição da riqueza e assim caminhar em direção da consolidação de um verdadeiro processo de democratização e promoção da justiça social.
Reconhecidamente, esses caminhos foram ampliados pelo governo popular democrático coordenado pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e precisamos tê-los consolidados. Nesse rumo, temos como única alternativa a candidata Dilma Rousseff à presidência da República.
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VOTE EM DILMA PARA O BRASIL SEGUIR MUDANDO!
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOBBIO, Norberto. Quem Governa? In: As ideologias e o poder em crise. 4ª ed. Trad. João Ferreira, Brasília: UnB, 1999.

BRASIL, Presidência da República, Plano Diretor De Reforma Do Estado. Brasília, Câmara da Reforma do Estado, Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado, 1995.

CATANHEDE, César. Administração e Gerência. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1983.

FIORI, José Luis. Os moedeiros falsos, “neoliberalismo e políticas públicas”, “globalização e democracia”, o novo papel do estado frente à globalização, mimeo, 1996.

FURTADO, Celso. Brasil: a reconstrução interrompida. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

KETIL, F. Donald. A Revolução Global: reforma da administração do setor público. In, Revista do Estado e Administração Pública Gerencial. Trad. Carolina Andrade – 2ª ed. – Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998.

NOGUEIRA, Marco Aurélio. Um Estado para a sociedade civil: temas éticos e políticos da gestão democrática. 2° ed., São Paulo: Cortez, 2005.

OFFE, Claus. Problemas estruturais do estado capitalista. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.

PEREIRA, Luiz Carlos Bresser, SPINK, Peter. Reforma do Estado e Administração Pública Gerencial. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1999.

THUROW, Lester C. O Futuro do Capitalismo: como as forças econômicas mudam o mundo de amanhã. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

domingo, 10 de outubro de 2010

O ASSUNTADOR - Assuntar - poema, poesia, filosofia

O ASSUNTADOR – poema, poesia e filosofia.


Áureo João. 43 anos. Teresina/PI, 2010.

1.

Assuntar assenta em assuntar-se, em conjugação reflexiva pura;

É assentar em si mesmo, sobre e dentro de suas entranhas visíveis e naquelas não visíveis,

Para captar as manifestações e expressões extravasadas e os discursos silenciados e os dissimulados;

É perceber o corpo físico, o vital, o emocional, o mental, o intelectual, o astral e o espiritual manifestos em seu universo particular, íntimo pessoal;

É caminhar em si até sentir medo da estranheza de si mesmo e irreconhecer lugares, virtudes e ausência destas, nunca antes observados, nem declarados de sua pertença própria.

2.

Assuntar é uma conspiração em si mesmo,

É penetrar nas dimensões da direita e do avesso, assuntando-se, auscultando-se;

É dissecar o amor que sente e o ódio que manifesta, seja na qualidade exposta para fora de si, seja naquela expressão reservada de sua interioridade exclusiva;

É percorrer em si mesmo até reconhecer porque ama e como ama; porque odeia e como odeia;

Inclui ancorar na dimensão de seu amor até então desconhecido, mas também comporta em penetrar e reconhecer as dimensões da indiferença e dissimulações sobre as manifestações de seu ódio;

3.

Assuntar comporta mergulhar no amor do outro, sem se deixar contagiar de sua manifestação particular dele;

É sentir como o outro sente o amor que é seu, por aquilo que lhe faz amar;

É reconhecer porque o outro ama e, especialmente, como ama e os fundamentos da expressão de seu amor;

Comporta cuidar do seu amor particular e universal, do outro, com o saber cuidar que é, também, de seu particular do outro;

Suporta cuidar do amor do outro, sob o fundamento do outro e o cuidado que lhe é singular; que é de sua identidade, sem fundir-se nem confundir-se com o outro.

4.

Assuntar é encostar-se no ódio do outro, sem nutri-lo nem amenizá-lo;

É compreender as vibrações que enraízam no ódio do outro e as dimensões em que se realizam;

É reconhecer a causa que ativa seu ódio dele e o torna irreconhecível à rasa racionalidade humana;

É reconhecer, sob o fundamento do outro, o que lhe conforta e lhe ameniza o ódio que lhe acomete;

É pensar, sentir e auscultar o ódio do outro como se fosse ele mesmo em atividade de assuntar-se assuntando-se, em pura conjugação reflexiva e empática.

5.

Assuntar é conhecer a si mesmo, pelo direito e pelo avesso;

Em sendo uma galinha, sabe-se galinha, em suas dimensões e manifestos autênticos e em suas dissimulações;

Em sendo uma águia, sabe a si mesma águia, quando verdadeira e verossímil, não mais nem menos que a galinha que conhece a si mesma inteira;

Em sendo sábio, conhece a si mesmo primeiro, ainda que inconcluso sempre, antes que lhe seja requerido conhecer uma galinha e uma águia tal como para si mesmas;

Fora desta conjugação de assuntar assuntando-se, o sábio ignorante, a galinha e a águia são apenas e igualmente bichos importantes, que comem, bebem, dormem, reproduzem, sem saber o fundamento de si nem o propósito primeiro e último do seu ser e do seu fazer no mundo;

6.

Assuntar é uma Bela Arte em movimento e exercício que se conjugam no artífice assuntador, que é assuntador de si mesmo, que é assuntador do outro, que é assuntador do mundo, há um tempo só;

Põe-se perante Deus e reconhece as faces de Deus, seus atributos e seus propósitos, se for mesmo Deus o ente à sua mira;

Mira os olhos do Diabo e capta o intuito de sua benevolência e sua malevolência, se lhe for apropriado o atributo e significados, ainda que não se apresente Diabo; reconhecerá seu criador, seus símbolos, seus poderes e suas funções no mundo concreto e no imaterial;

Dobra-se diante de si próprio e capta o ser que é mas não quer ser; o ser que quer ser mas não o é, e o ponto de encontro de seu movimento em si mesmo;

O assuntador não teme a Deus, nem ao Diabo, nem ao outro, nem a si mesmo, porque ausculta cada um destes, porque os distingue, porque não confunde seus atributos, suas evidências, seus propósitos, suas identidades, quando os têm e quando lhes faltam; e quando lhe convém.

7.

Assuntar implica perceber cada lugar em seu lugar, enlaçado a um tempo e a seus movimentos singulares;

Se o lugar é o mato, com os bichos e os entes da natureza, então assuntar comporta conhecer os astros, interagir com a terra firme e a lama, auscultar a direção dos ventos, compreender as forças das águas, respeitar o poder do fogo, sentir as vibrações das matas e a comunicação de seus regentes;

Se o lugar é entre os humanos e seus inventos, assuntar conjuga observar e compreender os fundamentos e as intenções de seus discursos objetivados e silenciados; discernir a elaboração de seus pensamentos; sentir seu coração; compreender a conduta de suas atitudes e o fim último de seus objetos e seus significados.

Se o lugar é seu lugar, assuntar se realiza em tomar a si mesmo, predicado nas suas relações intrapessoais puras e na conjugação das relações com o lugar-mundo de ninguém, com o lugar-do-outro e com o não-lugar, e não se perder de si mesmo entre os mais;

Se o lugar é o lugar do outro ou o outro próprio, assuntar se efetiva, profunda e sutilmente, em distinguir quem é e o que é cada ente e lugar singular, mas também suas interseções e exclusões;

8.

O assuntador não é, necessariamente, generoso ou algoz;

O assuntador é porque se fundamenta assuntador;

Conjuga-se atributo do vil algoz, se algoz;

Conjuga-se atributo do digno generoso, se o for;

O assuntador é o que sabe assuntar; assuntar-se e sabe-se assuntante, auscultante em processos dinâmicos, contínuos e permanentes; é um ente que come sua comida, bebe sua bebida, dorme ou deixa de dormir ao seu modo, reproduz e produz consciente das condições que o faz; sabe o fundamento de si e o propósito primeiro e último do seu ser e do seu fazer no mundo.


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Dedicatória a um Mestre.


Desde que fiquei sabendo da enfermidade ocorrida ao Professor Puscas, bem como de sua resistência à adversidade que lhe desafiou, fiquei emudecido sobre o assunto. Eu não tinha algo a lhe dizer, nem a lhe perguntar. Eu não tinha elogios a lhe fazer, em face do antigo corpo mais pesado, nem sobre o novo corpo mais leve, nem sobre o fumo, nem sobre a cachaça. Eu não sabia o que lhe dizer sobre sua militância na universidade, nem sobre seu momento de repouso pleno no leito do hospital e/ou em leito domiciliar, nem sobre seu retorno às lutas cotidianas. Eu apenas assuntei.!!! Assuntei sobre a grandeza de humanidade do Mestre Puscas; da sua capacidade de assuntar a si mesmo, de assuntar os outros e aos outros; de assuntar o mundo, sempre digno e generoso, sem temer a Deus, nem ao Diabo, nem aos outros e nem a si mesmo, porém sábio em distingui-los em suas identidades, em suas faces, em suas origens, em suas histórias e em seus propósitos no mundo.


É um grande assuntador. É um Mestre.


Dedico a meu Mestre Puscas um poema que acabo de “psicografar”: O ASSUNTADOR – poema, poesia e filosofia, como um gesto assuntado apreendido.


Em repouso e em movimento, que a leitura seja de bom grado ao Mestre.



Áureo João.

domingo, 19 de setembro de 2010

INFLAÇÃO DA PENA E SUPERAVIT DA INJUSTIÇA: APONTAMENTOS PARA A DISCUSSÃO DE VIOLÊNCIA EM TERESINA

INFLAÇÃO DA PENA E SUPERAVIT DA INJUSTIÇA: APONTAMENTOS PARA A DISCUSSÃO DE VIOLÊNCIA EM TERESINA



Marcondes Brito
Cientista Social, Mestrando em Políticas Publicas pela Universidade Federal do Piauí, pesquisa juventude, violência e tráfico de drogas.


Resumo :

Ultimamente tem sido cada vez mais comum, em Teresina, discursos midiáticos alarmantes sobre violência e seus filões representados em quase sua totalidade nesses discursos pelos pobres e, em contrapartida, o poder publico, através de suas agências de controle (e entre elas, uma das que tem mais visibilidade, a policia) tem surgido ações desenfreadas e sem muitos resultados práticos. Este pequeno texto pretende discutir um pouco como esse processo se constrói e por que essa ânsia de punir os pobres acaba sendo sempre uma forma de inflacionar a pena e as injustiças.

Os pobres e o crime : uma realidade ou preconceito institucional

Segundo Irene Rizzini (1997), em meados dos Séculos XIX e início do XX, no Brasil, uma nação em surgimento que buscava na Europa do Século XIX e EUA do Século XX modelos e fórmulas capazes de desencadear aqui um processo desenvolvimentista. Parte desses propósitos trazia também modelos e teorias para combater a degradação de sociedades modernas, como as teorias eugenistas, evolucionistas que tiveram em Darwin um boom de expansão por todo o mundo, tanto pela genética social quanto por uma validação por parte de um discurso de verdade científica, quanto às de cunho racistas e criminais de Paul Broca e Cesare Lombroso, que traziam em seu bojo a ideia de que a pobreza trazia o atraso das sociedades por serem seus vícios a degenerescência da sociedade. Nesse contexto, o papel dos intelectuais seria de contribuir com seu saber para a implementação de políticas de ação, resolvendo essa situação de degeneração social ocasionada pelo trinômio: pobreza- ociosidade-degradação social.

Tais premissas são realçadas e detalhadas por Cecília Coimbra (2003, p. 23.), quando ela afirma que a degradação moral era especialmente associada à pobreza e percebida como uma epidemia que se deveria tentar evitar. Ou seja, todas essas teorias estabelecem/fortalecem a relação entre vadiagem/ociosidade/indolência e pobreza, bem como a de pobreza e periculosidade/violência/criminalidade.

Desse ranço cultural em que se figura a ligação perversa da juventude pobre à criminalidade e que, tal como desenvolveu Foucault (1987), existe uma lógica da punição que ainda está em voga e com muita força permeando as subjetividades de quem julga com uma falsa ideia de que o ato de proteger passa pela premissa de encarcerar, vigiar e punir. Tal visão tem um impacto na constituição das subjetividades juvenis, em suas identidades, em que identidades e papeis essas instituições estão a atribuir a esses jovens.

Coimbra (2003, p.7) para esclarecer como estas ideias foram construídas e incorporadas silenciosamente em nossas ações e políticas de ação, nos diz que:

Tudo o que escapasse às formas de interiorização naturalizadas, era considerado perigoso, acompanhando as subjetividades vinculadas à Doutrina de Segurança Nacional então vigente. Como tal tudo isso deveria ser evitado e banido. Naquele momento, duas categorias de acusação sobre a juventude foram produzidas: a do subversivo e a do drogado. Ambas consideradas danosas, já que colocavam em análise a ênfase dada ao espaço privado, ao modelo de família sadia e estruturada e seus sonhos de ascensão social, à rua vista como lugar do perigo, à desqualificação e esvaziamento dos espaços públicos. Da mesma forma, as crenças na identidade, no homogêneo e no definitivo se fortaleciam nas práticas psi.

Ou seja, trocando por miúdos, no capitalismo a pobreza sempre será uma ameaça ao Estado, pois dela procedem as pessoas perigosas. E estas pessoas tidas como agentes de periculosidades são identificadas como aquelas que não foram corretamente educadas para obedecer, porque vieram de famílias desestruturadas, com baixo rendimento escolar, pouco discernimento de regras, etc e tal. São potenciais criminosos, não raramente doentes sociais a serem regenerados pelo bom e atencioso Estado, com suas prisões, internatos, hospícios, penas alternativas, escolas, políticas sociais e de direitos, e pela sociedade civil, com suas boas e atenciosas filantropias baseadas em organizações não-governamentais.

Ao resultado desse processo tem-se dado um tratamento diferenciado, baseado nas condições materiais de vida econômica e social, espraia-se pela sociedade, fomentando uma conflituosa situação de clivagem: do lado (do) direito assentam-se os cidadãos, pessoas que têm pleno acesso a seus direitos, comprando-os, se necessário; do lado esquerdo amontoam-se os não–cidadãos, aqueles que são incluídos no processo histórico em função dos deveres e de sua exclusão social.

Subsumir os indivíduos a uma das inumeráveis relações que possa travar em sua vida, por mais constantes ou socialmente importantes que sejam, representa dispensar um tratamento discricionário à subjetividade humana e à complexidade do processo histórico, ensejando um ambiente propício à ascensão e fortalecimento de concepções de mundo que propositadamente tipificam e estigmatizam o empírico, amoldando-o por contiguidade a uma determinada parcela da população.

Muita Conversa E Pouco Resultado : Como Inflacionar A Pena E Criar Um Superavit De Injustiça.

Gostaria de introduzir esse tópico com uma notícia de portal ocorrido no início do ano de 2010 e, a partir dessa noticia, que não é isolada, mas tem-se tornado cada vez mais frequente em nossos jornais impressos diários ou de acesso em meio digital, pensarmos um pouco sobre os efeitos dessa propagação excessiva de violências sem causas, mas apenas com culpados.

Analisando por esse viés, e garimpando notícias de jornais só este ano de 2010, de janeiro a março, foram mais de 20 ações da policia militar ou civil contra o tráfico de drogas em Teresina, com repercussão na mídia impressa ou on line, onde apenas uma dessas não se resumiu apenas à prisão de traficantes pobres, mas de alguns agentes que ocupam outras pontas, que se denominou “operação pretensão II”. Vemos, nesse sentido, a construção dessa lógica da criminalização da pobreza e dos pobres como os principais, se não os únicos, agentes do tráfico de drogas em Teresina e de sua violência por conseguinte. Como na notícia que segue, copiada de um portal de Teresina, de operação acontecida em janeiro desse ano:

Na operação desencadeada na tarde desta quarta-feira (18) com pelo menos cem homens da Polícia Militar, na ocupação da Vila Inferninho, zona Norte de Teresina, já foi apreendida 30 pedras de crack e mais de R$ 200 em dinheiro. De acordo com o capitão das Rondas Ostensivas de Natureza Especial- RONE, a operação se estende por toda noite e madrugada. “As pessoas que forem presas serão encaminhadas para a Central de Flagrantes. Vamos permanecer com a operação por toda noite e cumprir os mandados de prisão” disse o capitão. PM invade inferninho para prender traficantes e homicidas. Pelo menos cem homens da Polícia Militar, usando 75 viaturas, entre carros e motocicletas, iniciaram por volta das 15h30 desta quarta-feira, 18, a ocupação da Vila Inferninho, na zona Norte de Teresina. A intenção é combater o tráfico de drogas, o porte de armas e cumprir mandados de prisão contra assaltantes, traficantes e homicidas. A operação policial denominada Cascavel é coordenada pelo capitão PM, comandante do Ronda Ostensiva de Natureza Especial (RONE). “O trabalho da polícia não tem hora para terminar. Vamos ocupar toda área e prender os criminosos que atuam ou moram na região”, informou o militar. O comando aos homens foi repassado pessoalmente pelo comandante-geral da PM ."Nossa ideia é desarmar a população e botar bandidos e traficantes atrás das grades", disse. (PORTAL AZ, 18 janeiro de 2010).

Trocando por miúdos, ou melhor, na análise de tal notícia, assim como de muitas das demais, percebemos a intenção excessiva, que também pode ser entendida como forçosa, de tentar colocar a todo custo o tráfico de drogas para tentar justificar as ações militares ou mesmo a violência e quase todos os homicídios antes mesmo de serem investigados, pois, em uma operação militar com o intuito de apreensão de drogas em que o Estado, através de suas instancias de controle e retenção de violência, em que se mobilizam mais de cem homens da policia militar, 75 viaturas e tem como apreensão apenas 30 pedras crack e 200 reais em dinheiro não pode ser considerada como exitosa, ainda mais quando se faz uma análise mais acurada em que o apreendido não daria nem para custear o valor do combustível utilizado na operação, nota-se que a intenção é muito mais de demonstrar ação, do que demonstrar resultados e inibir o tráfico.

O estigma que os assola transcende a fronteira jurídica, estendendo-se por contiguidade aos jovens pobres, segmento majoritariamente composto por negros e/ou mulatos, que pelo simples fato de não ter livre acesso à propriedade privada estariam prontos a se utilizar de meios ilícitos para dela se apropriar.

Se faz importante essa caracterização da construção de uma população desviante, ou que o Estado assim a caracterizou, porque, para o imaginário das instituições públicas operadoras de políticas sociais e de justiça, esse estigma historicamente construído, ainda é reatualizado, ou melhor ritualizado na lógica do mito da periculosidade elencado por Foucault (1987), que vai julgar os pobres em situação de violência ou violação, ou mesmo trancafiá-los vendo neles apenas perigos e nunca potencialidades.

Conclusão ou apenas considerações em torno de pontos inquietantes

Depois dessa breve incursão pela historia e por a construção dessa lógica da periculosidade no imaginário das instituições de justiça (penais), cabe-nos muito mais uma inquietação do que uma conclusão propriamente dita, que seria nesse sentido, a compreensão de o por quê de quando vem à tona as notícias sobre violências e sua aparente resolução com a prisão em flagrante dos “desviantes” (em sua esmagadora e quase homogenia maioria, de pobres, pois os ricos são, em sua maioria, suspeitos e quase nunca culpados), não paramos para pensar na problemática, ou melhor, nas problemáticas que geram violência (em suas múltiplas instâncias, seja ela ocasionada pelo tráfico de drogas, pela violência física, dentre outras), encarcerar o culpado basta para nossa ingênua ânsia de punir os pobres para resolver o problema da violência, como se nessa ação não morasse uma parte perceptível e intensa de violência institucional.

Essa postura acaba por afastar ainda mais os pobres da justiça, levando a descrença nessa instância enquanto promotora e protetora da democracia, pois como nos lembra Peralva (2001), que enquanto as torturas e a violência institucional permanecerem ao lado das injustiças (chamamos aqui de injustiças, a quase não prisão ou condenação de pessoas com o poder aquisitivo, ocasionando uma descrença no sistema de justiça, ou a uma constatação que se torna cada vez mais comum no imaginário popular, de que “cadeia é para pobre”) e enquanto ainda virmos defesa dos direitos dos humanos como defesa de bandidos ainda estaremos mais do que distantes do que chamamos de democracia.

Referencias :
COIMBRA, Cecília M.B. & NASCIMENTO, Maria Lívia. Jovens pobres: o mito da periculosidade. In: FRAGA, Paulo César Pontes; LULIANELLI, Jorge Atílio Silva (orgs). Jovens em tempo real. Rio de Janeiro; DP&A, 2003.

FOCAULT, Michael. Vigiar e punir: a história da violência nas prisões. 8ª Ed. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis (RJ): Vozes, 1987.
RIZZINI, Irenne. O Século Perdido. Raízes históricas das políticas públicas para a infância no Brasil. Rio de Janeiro: Santa Úrsula/Amais,1997.
PERALVA, Angelina. Violência e democracia: o paradoxo brasileiro. 1ª Ed. Rio de Janeiro. Paz e Terra. 2001.

domingo, 22 de agosto de 2010

CONVERSANDO SÓ OU COM OS ASTROS - poema, poesia e divagações

O Sol da Noite (criado em 25/07/2007, às 02:00h e 10:00min)




Alguns seres gostam de olhar e admirar a Noite!
Outros seres se embriagam na sombra da Noite.


Existem aqueles outros seres que fazem poesias caminhando com a Noite,


Outros, ainda, não gostam de fazer nada com a Noite. E outros não podem fazer nada com a Noite, ainda que desejem!!!

Os piores casos são daqueles seres que a Noite não lhes quer fazer nada; não oferece sombra, nem embriaguês, nem inspiração poética, nem lhe acompanha em suas jornadas;

 
Mas o Sol e a Noite se encontram diferentes!

O Sol não só faz poesia na Noite, mas também faz poesia para a Noite e para seus frutos!!!

O Sol também faz algumas poesias com a Noite, na sombra dela, embriagado com ela e inspirado por ela, Noite Bela!!!






O mais importante é que o Sol entra na Noite, pois a Noite também entra no Sol.

O ponto mágico acontece quando o Sol entra na Noite e a Noite entra no Sol, de tal modo que o Sol da Noite e a Noite do Sol se misturam e se fundem em algo que não é só Sol, nem só Noite!!!
E se pensam:

Ao pino do Sol, pensa-se a Noite,

Ao silêncio inquieto e movimento da Noite, pensa-se o calor do Sol.




É para você que o Sol e a Noite estão em órbitas!!!!




Áureo João.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

ACADÊMICOS AMESTRADOS - Opinião, Crítica, desconstrução de um discurso

Acadêmicos amestrados
Por Idelber Avelar [Terça-Feira, 1 de Dezembro de 2009 às 15:31hs]




Se um marciano aterrisasse hoje no Brasil e se informasse pela Rede Globo e pelos três jornalões, seria difícil que nosso extra-terrestre escapasse da conclusão de que o maior filósofo brasileiro se chama Roberto Romano; que nosso grande cientista político é Bolívar Lamounier; que Marco Antonio Villa é o cume da historiografia nacional; que nossa maior antropóloga é Yvonne Maggie, e que o maior especialista em relações raciais é Demétrio Magnoli. Trata-se de outro monólogo que a mídia nos impõe com graus inauditos de desfaçatez: a mitologia do especialista convocado para validar as posições da própria mídia. Curiosamente, são sempre os mesmos.

Se você for acadêmico e quiser espaço na mídia brasileira, o processo é simples. Basta lançar-se numa cruzada contra as cotas raciais, escrever platitudes demonstrando que o racismo no Brasil não existe, construir sofismas que concluam que a política externa do Itamaraty é um desastre, armar gráficos pseudocientíficos provando que o Bolsa Família inibe a geração de empregos. Estará garantido o espaço, ainda que, como acadêmico, o seu histórico na disciplina seja bastante modesto.

Mesmo pessoas bem informadas pensaram, durante os anos 90, que o elogio ao neoliberalismo, à contenção do gasto público e à sanha privatizadora era uma unanimidade entre os economistas. Na economia, ao contrário das outras disciplinas, a mídia possuía um leque mais amplo de especialistas para avalizar sua ideologia. A força da voz dos especialistas foi considerável e criou um efeito de manada. Eles falavam em nome da racionalidade, da verdade científica, da inexorável matemática. A verdade, evidentemente, é que essa unanimidade jamais existiu. De Maria da Conceição Tavares a Joseph Stiglitz, uma série de economistas com obra reconhecida no mundo apontou o beco sem saída das políticas de liquidação do patrimônio público. Chris Harman, economista britânico de formação marxista, previu o atual colapso do mercado financeiro na época em que os especialistas da mídia repetiam a mesma fórmula neoliberal e pontificavam sobre a “morte de Marx”. Foi ridicularizado como dinossauro e até hoje não ouviu qualquer pedido de desculpas dos papagaios da cantilena do FMI.

Há uma razão pela qual não uso aspas na palavra especialistas ou nos títulos dos acadêmicos amestrados da mídia. Villa é historiador mesmo, Maggie é antropóloga de verdade, o título de filósofo de Roberto Romano foi conquistado com méritos. Não acho válido usar com eles a desqualificação que eles usam com os demais. No entanto, o fato indiscutível é que eles não são, nem de longe, os cumes das suas respectivas disciplinas no Brasil. Sua visibilidade foi conquistada a partir da própria mídia. Não é um reflexo de reconhecimento conquistado antes na universidade, a partir do qual os meios de comunicação os teriam buscado para opinar como autoridades. É um uso desonesto, feito pela mídia, da autoridade do diploma, convocado para validar uma opinião definida a priori. É lamentável que um acadêmico, cujo primeiro compromisso deveria ser com a busca da verdade, se preste a esse jogo. O prêmio é a visibilidade que a mídia pode emprestar – cada vez menor, diga-se de passagem. O preço é altíssimo: a perda da credibilidade.

O Brasil possui filósofos reconhecidos mundialmente, mas Roberto Romano não é um deles. Visite, em qualquer país, um colóquio sobre a obra de Espinosa, pensador singular do século XVII. É impensável que alguém ali não conheça Marilena Chauí, saudada nos quatro cantos do planeta pelo seu A Nervura do Real, obra de 941 páginas, acompanhada de outras 240 páginas de notas, que revoluciona a compreensão de Espinosa como filósofo da potência e da liberdade. Uma vez, num congresso, apresentei a um filósofo holandês uma seleção das coisas ditas sobre Marilena na mídia brasileira, especialmente na revista Veja. Tive que mostrar arquivos pdf para que o colega não me acusasse de mentiroso. Ele não conseguia entender como uma especialista desse quilate, admirada em todo o mundo, pudesse ser chamada de “vagabunda” pela revista semanal de maior circulação no seu próprio país.

Enquanto isso, Roberto Romano é apresentado como “o filósofo” pelo jornal O Globo, ao qual dá entrevistas em que acusa o blog da Petrobras de “terrorismo de Estado”. Terrorismo de Estado! Um blog! Está lá: O Globo, 10 de junho de 2009. Na época, matutei cá com meus botões: o que pensará uma vítima de terrorismo de Estado real – por exemplo, uma família palestina expulsa de seu lar, com o filho espancado por soldados israelenses – se lhe disséssemos que um filósofo qualifica como “terrorismo de Estado” a inauguração de um blog em que uma empresa pública reproduz as entrevistas com ela feitas pela mídia? É a esse triste papel que se prestam os acadêmicos amestrados, em troca de algumas migalhas de visibilidade.

A lambança mais patética aconteceu recentemente. Em artigo na Folha de São Paulo, Marco Antonio Villa qualificava a política externa do Itamaraty de “trapalhadas” e chamava Celso Amorim de “líder estudantil” e “cavalo de troia de bufões latino-americanos”. Poucos dias depois, a respeitadíssima revista Foreign Policy – que não tem nada de esquerdista – apresentava o que era, segundo ela, a chave do sucesso da política externa do governo Lula: Celso Amorim, o “melhor chanceler do mundo”, nas palavras da própria revista. Nenhum contraponto a Villa jamais foi publicado pela Folha.

Poucos países possuem um acervo acadêmico tão qualificado sobre relações raciais como o Brasil. Na mídia, os “especialistas” sobre isso – agora sim, com aspas – são Yvonne Maggie, antropóloga que depois de um único livro decidiu fazer uma carreira baseada exclusivamente no combate às cotas, e Demétrio Magnoli, o inacreditável geógrafo que, a partir da inexistência biológica das raças, conclui que o racismo deve ser algum tipo de miragem que só existe na cabeça dos negros e dos petistas.

Por isso, caro leitor, ao ver algum veículo de mídia apresentar um especialista, não deixe de fazer as perguntas indispensáveis: quem é ele? Qual é o seu cacife na disciplina? Por que está ali? Quais serão os outros pontos de vista existentes na mesma disciplina? Quantas vezes esses pontos de vista foram contemplados pelo mesmo veículo? No caso da mídia brasileira, as respostas a essas perguntas são verdadeiras vergonhas nacionais.


Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de novembro/2009.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

UM CENÁRIO POLÍTICO E MUITOS PETISTAS NO GOVERNO DO PIAUÍ

QUANDO A FÁBULA SE CONFUNDE COM A REALIDADE,
É HORA DE ASSUNTAR O MUNDO !!!
Um olhar sobre o cenário político e muitos PeTistas no Governo.

Áureo João. 42 anos.
Teresina/PI, Domingo da Páscoa de 2010.
aureojoao@yahoo.com.br
http://www.aureojoao.blogspot.com/



Mas também, quando a sátira nos confunde na realidade social e política concretas, é chegada a hora de auscultar a si mesmo e ao mundo em que suas ações operam.

Para o caso desta crítica, tomemos em especial as ações institucionais, as políticas públicas, as condutas manifestas no tratamento das demandas que lhes desafiaram e as atitudes dos militantes PeTistas, no ambiente de Governo do Estado do Piauí, em um lance rápido de 2003 até agora.

Pois bem!!! Assunte:

- Cadê meu Cargo que estava aqui, até ontem?

- O Gato comeu...! Ou melhor, o Coelhinho da Páscoa comeu !!!

- Mas, cadê a “faca e o queijo” que estavam em minhas mãos até ontem e em poder de meu governo desde sete anos que já se passaram?

- A Raposa Velha comeu!!!

- Mas, cadê a Raposa Velha? Para onde ela foi? Onde ela está agora? Como e o que posso fazer para manter ou recuperar o Cargo, a faca, o queijo e minha mão? Onde tem uma garrucha para dar-lhe um tiro matador ou uma azagaia, foice e martelo, ou uma estrela – ainda que esta seja de algum xerife - para um golpe de misericórdia?

- A Raposa Velha, com sua astúcia, está dentro de seu território, de sua casa, deitada em suas redes e enlaçada com seus entes queridos, protegida sob a sombra da estrela distintiva do Xerife que era maior!!!

- Mas... Cadê a água da piscina e a água da praia, que eu banhava até ontem?

- O Boi bebeu!!! E a bebida que tinha no copo, também!

- É brincadeirinha...!!! É só uma fábula contada no dia primeiro de abril de 2010 – Dia da Mentira. E a traição da Raposa Velha é só um enredo de Semana Santa. Mas o roteiro foi escrito antes da quaresma!!!

Melhor seria pensar e estar seguro de que você não vai perder seu Cargo de Representação, Função ou Comissão e, junto, suas preocupações, tensões, problemas, demandas sociais correlatas e suas regalias de poder e finanças, a partir de um roteiro solene, apresentado no dia da mentira e no seio do retiro da semana santa. Melhor, ainda, seria testemunhar que a “faca e o queijo” que estiveram em suas mãos; e suas mãos - e o poder que isso representa – tenham sido gerenciados de forma digna e para o alcance dos direitos de muitos - a maioria de preferência -, já que o tempo pode ter sido pouco para contemplar a todos e a todas.

Ainda mais elevado será conferir que a missão que lhe foi posta gozara de um conjunto de cuidados, de um programa organizado de ações e tarefas, de profissionalismo, de conduta ética, de respeito e zelo aos usuários de seus serviços institucionais e, antes que a Raposa Velha materialize sua astuciosa obra completa, você tenha exercido a sabedoria de “dar conta do seu recado”, de fazer acontecer o que lhe foi posto para ser feito; que você tenha deixado o gesto de sua sabedoria como acréscimo à sabedoria de todos os homens e de todas as mulheres que compartilharam ou lhe confrontaram pela causa que seu Cargo proporcionou; que você tenha aprendido com a sabedoria dos aliados e dos contestadores que estiveram em seu caminho. Incontáveis PeTistas comportaram este perfil, por ocasião do exercício de seus cargos em nome do Governo do PT, no Piauí. Os efeitos de sua presença estão plasmados em situações políticas e sociais comprováveis por amigos, aliados, contestadores e inimigos.

Lamentável será o roteiro que nos obrigará a assuntar sobre suas contestáveis lamúrias, típicas daquelas pessoas do PT que passaram seu tempo de executivo – “com a faca e o queijo na mão; e as mãos abanando...; ou segurando a cabeça” - dedicando-se ao exclusivo exercício de bajular o Governador e Parlamentares, com o mero propósito de manter-se agarrado(a) no Cargo e regalias respectivas, enquanto o outro tempo que lhe restava ocupou-se apenas para fazer lamentação de “impossibilidades”, “dificuldades”, “falta de recursos”, “falta de condições”, bem como para inventar justificativas fajutas com o propósito de encobrir sua pouca criatividade, sua mediocridade política e profissional. Acrescente-se, a culpa que você atribuiu aos segmentos usuários de seus serviços como sendo responsáveis por seu inexpressivo desempenho, em discursos conhecidos e repetitivos do tipo: “falta projeto para ser atendido”; “não tem demanda”; “não nos enviou o ofício solicitando os recursos”; “ninguém me disse nada”; “eu já fiz minha parte, mas o outro emperrou”; “não dá”; “não pode”... e outras besteiras mentais e burocráticas, que nada serviram !!! Algumas pessoas do PT fizeram esse tipo de mrd. no Governo do Piauí, em instituições estatais públicas.

Em órgãos e autarquias federais, com sede no Piauí, também é possível testemunhar exemplos das duas categorias acima.

Os agravantes tomam forma nos casos em que os homens e as mulheres PeTistas, ao serem possuídos pelos poderes investidos em seus Cargos e Funções, esqueceram de dedicar continuada e atenciosa atenção política e institucional aos segmentos sociais, organizações informais, movimentos e entidades da sociedade civil que, antes do Cargo, eram suas referências e bases de sustentação política. Além disso, não poucos desprezaram a militância para o fortalecimento político do Partido dos Trabalhos e suas instâncias deliberativas.

Depois da combinação do enredo desta última semana santa e do último dia da mentira, uma parte de PeTistas detentores de Cargos executivos, provavelmente, terão novas preocupações, dores de cabeça aguda e incuráveis, depressões e muitas dívidas para prestar contas, consigo mesmo/mesma, se ainda for portador(a) de consciência nobre; mas também com a parcela da sociedade que esperava mais e melhor de suas ações e, sem dúvida, com fornecedores que lhes venderam adereços de vaidades e objetos de consumo, típicos daquelas listagens constantes em seus discursos dirigidos às elites consumistas de nosso País.

Nesta segunda-feira, dia 05 de abril de 2010, muitas personalidades Comissionadas retornarão às suas jornadas – após provável jejum e penitências forçadas -, com um ponto de pauta comum: a dúvida!!!. Muita gente boa não sabe, ao certo, como dantes sabia, com que dinheiro vai pagar a prestação do carro, a mensalidade escolar, o celular de última tecnologia, seus cartões de crédito etc. Muita gente, sem a escora do poder, andará à semelhança de acometidos por labirintite: tontos e desequilibrados, não sentirão a terra sob seus pés! Não saberão, ao certo, se ainda lhes restam Cargo ou algum poder! Uma pena que, dentre estas, estarão incomparáveis pessoas, que construíram o PT, sustentaram o Governo Petista e honraram seus postos de representação, função ou comissão, que lhes compensaram com regalias legais, prestígios e adequada moral.

Aos retardatários, é conveniente compreender que o poder – no exercício de cargos de Representação, Função ou Comissão - é como uma passagem numa pinguela estendida sobre um rio de piranhas. Quem dorme no ponto da distração!!!...

Quanto às astúcias da Raposa Velha, a Matriarca Guerreira Acotirene diz: “não se encante com o sorriso do inimigo. Isto pode-lhe fazer fracassar no combate”... e Zumbi conclui: “É isso que acontece com quem pensa que pode ser amigo do inimigo”. A emboscada do Vale do Cucaú se repete e muitos caem sob a mesma técnica da armadilha. (referências extraídas do filme Quilombo, de Cacá Diegues).

E você, no atual cenário, ainda se garante!!!

Mas o número do PT tem um significado mágico. O número 13 representa o recomeço, já que é o número do sistema organizado e do término. Este número é o símbolo do determinado e particular, associado à finalização (benéfica). (...) Representa a chave do conjunto fechado (acabado, finalizado). É temido, pois tem a força de gerar algo bom ou ruim. Para os judeus, o 13 indica a evolução ou o destino (em direção da morte ou destruição, visto que este é um numero limitado, fazendo com que "todos os esforços sejam interrompidos"). Também é considerado um número marginal, que foge à regra, pois está relacionado com a iniciação. O 13 representa a eterna escalada de Sísifo com o rochedo em direção ao alto da montanha. No Tarot, o número 13 está associado à lâmina do Tarot - A Morte e é considerada uma das mais intrigantes cartas do Tarot. O número 13 é negativo e fatalista para alguns; para outros, é um número de sorte. Sugere transformação, renovação e transmutação. Esta carta não significa necessariamente uma mudança negativa. Pode estar ligada a fatos agradáveis: casamento, nascimento, mudança para outro país. Mas é quase sempre o fim de uma antiga forma de vida (http://www.terra.com.br/esoterico/monica/colunas/2006/01/13/001.htm; acesso em 04.04.2010).

Nas cartas da política e da medição de forças, a militância PeTista – em estado de hibernação há sete anos –, em querendo manter-se sob o abrigo partidário, vai ter que sair da toca, antes que as raposas e os lobos lhe comam as carnes e as inteligências que ainda contam na reserva.

...Ou vai ficar esperando que Wilson Martins e João Vicente Claudino lhe carreguem no colo???

- Cadê meu Partido que estava aqui até um dia desses?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O BUMERANGUE NÃO VOLTOU - ironia política sobre a renúncia do Governador Wellington Dias

O BUMERANGUE NÃO VOLTOU


Áureo João. 42 anos.

Teresina – PI, 02 de abril de 2010.

aureojoao@yahoo.com.br

WWW.aureojoao.blogspot.com

Criado para voltar à mão do arremessador e jamais para escapar ao seu controle, quando o resultado acontece diferente nós podemos considerar que estamos diante de uma contradição de sabedorias.


Penso que essa sabedoria pode ser utilizada, ainda que em mera analogia, para refletirmos sobre o episódio “Wellington Dias e o Partido dos Trabalhadores”.


No primeiro degrau, a questão consiste em compreendermos e delimitarmos: o PT criou o político Wellington Dias ou o político Wellington Dias “se autocriou” por dentro do PT? Se mergulharmos numa discussão dialética ou filosófica muito sofisticada, esta questão não terá um desfecho acabado e determinado. Mas meu exercício é ingênuo, não me exige esforço dialético. Por esta escolha do método e da conduta, a infantilidade que me cabe permite-me uma resposta à moda das crianças. Eu diria que o PT criou o político Wellington Dias – Governador do Estado do Piauí até o dia 1º de abril -, ao emprestar seu nome, sua história, suas referências teóricas, suas experienciações de lutas e combates, seu respaldo organizacional e institucional, sua solidariedade e, inclusive, a falta desta última por vezes.


O Partido dos Trabalhadores foi o arremessador do político Wellington Dias na atmosfera da política partidária e eleitoral, para o fim de ocupar espaços institucionais mediados por disputas em ambientes de correlações de forças (internas e externas) nunca fixas e estagnadas; nunca fáceis. Assim como o criador do bumerangue, o PT pensou que poderia arremessar sua Criação/Criatura e que esta jamais escaparia ao seu controle. Ledo engano.


Wellington Dias, diferente do objeto bumerangue, detém criatividade própria, múltiplas inteligências autônomas e arbítrio singular. Qualquer comparação deste objeto com este ser humano é um exercício grosseiro de nossa intelectualidade.


No entanto, a invenção de nossa linguagem figurativa, permite simular em nossa imaginação o episódio em que o objeto bumerangue - criado para voltar à mão do arremessador e jamais para escapar ao seu controle – é protagonista de uma cena inusitada, pois estando em pleno voo e em elevada atmosfera previsível, sob a propulsão da força de seu criador e arremessador, parece (mesmo que apenas pareça) surpreender sua base de lançamento e, em seu plano de voo particular, nunca mais retorna às mãos de seu lançador. Resta-lhe o consolo de dizer que aquele era seu objeto, sua criação e o registro histórico incluindo a frase “meu bumerangue se foi e nunca mais voltou”.


Com semelhante linguagem figurativa e dita “infantil” ou, ainda, da mais apropriável grosseria, parece cabível ao PT dizer que o bumerangue escapou do controle e nunca mais vai voltar às suas mãos. Entenda-se, aqui, o poder – a governabilidade – o prestígio – a credibilidade – a confiança – a representação classista, mas também o político Wellington Dias.


Igualmente a uma criança, o homem W. Dias, por ocasião do ato solene de transferência da faixa de Governador ao político Wilson Martins – nesta quinta-feira, 01 de abril de 2010, chorou um choro de criança, autênico, sincero, transparente, chorado ao modo de quem sente um tipo de dor; provavelmente, a dor de sua escolha ao modo pessoal. Mas em seu plano de voo político, o alívio lhe será concedido com uma cadeira no Senado Federal, cujo consolo também nos confortaria a todas as pessoas piauienses que confiaram no PT.


Muitos PeTistas também choraram seu choro doído, escondido, envergonhado, decepcionado, preocupado; embaraçado; engasgado. Para algumas pessoas, eu imagino que o choro pareceu com aquele choro entoado por ocasião da morte da Deputada Francisca Trindade, num gesto de indignação e impotência perante aquele fenômeno da morte ou “destino”, que levou uma figura humana, uma personalidade política, mas também uma presença do PT e uma representação de força eleitoral competitiva para a disputa institucional do Governo, seja no pleito para o comando do Executivo do Estado, seja para o Executivo da Prefeitura de Teresina. Nesta última hipótese, possível que fosse nossa Prefeita atual. O que há de semelhante no comparativo desses dois episódios é a sensação de perda; de falta de capacidade para controlar a situação.


Eu também chorei meu choro particular; choro que só a alma sabe chorar; choro que só a consciência é capaz de penetrar seus significados; mas foi um choro assuntado e assuntando. No entanto, minha atitude veio ao modo típico e costumeiro das crianças, ao passo que me imaginei diante da candidatura do político Wellington Dias ao Senado Federal e podendo-lhe dizer “eu não gosto mais de tu”, ou seja, “eu não vou votar em W. Dias para o mandato de Senador/2010”. Dizendo de outra maneira, eu não tenho condição nem inteligência política para alcançar a lógica que norteou os discursos e as decisões de W. Dias em toda essa trajetória que culminou com sua renúnica na data de ontem, selada com a entrega do poder.


Muitas mulheres e muitos homens piauienses, PeTista e não-petistas, podem estar formando uma grande teia de sentimentos (ou de ressentimentos) e de vozes, constituindo um imensurável coral vestindo a letra “eu não gosto mais tu” Wellington Dias. Nesta hipótese, a cadeira do Senado Federal pode vir a se comportar, em relação ao candidato Wellington Dias e ao PT, com a mesma conduta incontrolável do bumerangue acima citado. Isto corresponde a chegar ao final das apurações das eleições de 2010 e, então, chegar a vez de Wellington Dias dizer, à semelhança do diálogo com o bumerangue: “minha cadeira do Senado Federal se foi e nunca mais vai voltar”. Só o espírito infantil tem a liberdade de pensar assim!


Neste momento, eu não me arriscaria a fazer nenhum julgamento condenatório do ser humano Wellington Dias e daqueles que lhe acompanharam e lhe orientaram ou lhe acataram, inclusive no período da semana-santa, acolhida sob a religião cristã, onde julgar e condenar o outro está posto como sendo uma conduta “errada”, reprovável ou, pelo menos, desencorajada. Porém, se o gesto do político W. Dias for assimilado, no meio dos mesmos populares religiosos, como sendo uma “traição”, comparado ao papel de Judas, não podemos ignorar o impacto que isso pode causar-lhe, especialmente nas eleições de 2010.


Mas, separada da sabedoria da Religião, as sabedorias da Política tem suas regras próprias e dinâmicas. Logo, utilizando o mesmo critério da recusa ao julgamento e condenação precipitados, eu me arriscaria a dizer que estamos em um cenário onde mais de um tipo de sabedoria está em movimentação. Dizendo de outro modo, há quem compreenda e defenda, racionalmente, e sob o modo de fazer a engenharia política no Estado do Piauí, que Wellington Dias e seus pários realizaram a melhor escolha. É possível que essa sabedoria política seja defensável, do ponto de vista dos sábios que a inventaram e a implementaram. Penso que nós não podemos duvidar disso, nem desprezá-los por suas sabedorias manifestas e escolhas assumidas.


Analisando o mesmo problema de outro ponto de vista, também poderemos compreender que, além dos políticos detentores de mandatos, agregadores de votos e cientistas políticos, outros milhares de seres humanos tomam atitudes, seja sob medidas da consciência política elevada, seja por simples gestos comparados às reações emocionais das crianças: “eu não gosto mais tu” Wellington Dias.


Nós, adultos, dotados de sabedorias e de maturidade incoparáveis às crianças, não raro, já fomos derrotados diante de reações de crianças que, usando a sabedoria infantil própria da dita criancisse, confrontaram-nos e nos disseram “eu não gosto mais tu” Wellington Dias.


Por fim, esta reflexão é para dizer aos grandes sábios e mandatários do PT e do Governo do PT que, em sendo deste Partido dos Trabalhadores, é arriscado demais duvidar deste último tipo de inteligência, porque esta inteligência política não se utiliza da Ciência Política, não deve obediência aos acordos político-partidários e nem exige de si que esteja agindo politicamente correto, mas apenas reage ao seu modo próprio. Representa um encontro de contradições de sabedorias.


Sob esta última lógica, eu perguntaria – de modo simbólico -: quem está com o controle sobre o bumerangue? Em que mãos ele vai está sob comando?


O Partido dos Trabalhadores e Wellington Dias não devem duvidar da capacidade de reação de nós outros.

E VOCÊ, VAI DUVIDAR???