ETNOCÊNTRICO
Áureo João. 43. Teresina/PI
Aquele que não nasceu no meu lugar padece de infeliz sorte do destino, por não merecer a originalidade de uma digna naturalidade de nascença; não terá pior sorte em sua vida, se for mesma sua, se devotar-se ao lugar de minha nascença;
Aquele que não tem beleza corpórea igual à minha: minha raça, minha cor, minha linhagem; não pode-se dizer belo; poderá apenas admirar a beleza que é minha e não sua;
Quem não aprecia minha comida e minha bebida, sem iguais, não tem bom paladar, não tem bom estômago e não é herdeiro de bom gosto, nem de fina culinária;
Aquele que não foi embalado nos tecidos que me embalaram não vem de berço que se possa admirar, preservar e salvaguardar;
Quem não se veste tal como às minhas vestes não tem faculdade de Inteligência para discernir o elegante do ridículo;
Aquele que não sabe meu saber, não sabe; nem sequer sabe do meu tipo de compaixão para aliviar sua triste sina, merecida somente quando revogar seu não-saber e outorgar meu-sumo-saber; sua fortuna, coube-me por encontrá-lo e descobri-lo;
Aquele que não faz o que eu faço e como faço o meu fazer, não possui um sofisticado fazer neste mundo que é meu, nem tem o que ensinar nem o que continuar;
Aquele que não alcança o êxtase do choro, do riso e da contemplação refinada com minhas artes, minhas músicas, meus enredos, não terá outra reserva a não ser o lamento desafinado e poluente de suas cordas vocais, de seus instrumentos e por suas criações inferiores;
Aquele que não crê no Deus que me rege não conhece a Deus verdadeiro;
Quem não crê nas mesmas minhas crenças não sabe crer;
O outro que não anda como eu, sequer aprendeu a caminhar. Terá boa sorte, se eu puder carregá-lo.
Aquele que não escolheu a minha escolha, não tem uma escolha porque não o sabe fazer, mas lhe será ensinada a minha em todos os seus dias;
Aquele que não é como sou, não é sequer.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
INDIGNA BONDADE - poema, poesia e filosofia
INDIGNA BONDADE
Áureo João. 43. Teresina/PI.
1.
Eu ensinei a meu filho as funções de comer, beber, andar, falar e fazer outras faculdades biológicas,
Eu aculturei meu filho no lugar, no tempo, na história de seu contexto e num destino infalível;
Eu lhe inculquei o valor supremo da obediência a mim, aos mais velhos, à ordem, ao que lhe foi ensinado tal como tal, sem lhe deixar a necessidade de perder tempo em investigações sobre as causas primeiras e últimas das coisas;
Eu lhe eduquei a respeitar a Deus, sobre todas as coisas, e torná-Lo inquestionável pela fé absurda;
Com este feito, conto com a certeza de sua conduta sempre previsível, inalterada e linear, sem nenhuma desobediência criativa; ele não haverá de contrariar minha bondade e o bem que lhe reservei.
2.
Os pais, presente que Deus só nos dá uma vez na vida, ainda que a cultura nos possa mais de outra!
Não sei do que será de mim, sem a presença e o amparo de meus pais!
Temo que eles um dia morram!
Nesse dia terrível, sinto que não me haverá mais sentido em viver neste mundo!
Pelo menos a herança, para compensar esse vazio, eu farei tudo o possível para deserdar os demais de direito, o primogênito e o derradeiro, para que eu possa preservar e zelar pela lembrança e saudade dos meus entes amados! Cada um saberá que é para o bem de todos!!!
3.
Em me achando diante de alguém vazio de sonhos, eu o convencerei a construir sonhos seus!
Já tendo sonhos construídos, eu o convencerei a acreditar em seus sonhos ainda que outros não!
Já confiante em seus sonhos, eu o farei acreditar que é possível realizá-los, ainda que a persistência lhe seja necessária e o custo seja elevado!
Eu, ainda, o acompanharei para testemunhar suas vitórias e contar seus sucessos!!!
Assim, quando usufruir da colheita, eu quero estar na primeira fila da divisão dos bônus, sem quaisquer ônus, e sempre lembrado de (por) uma obra impagável; ele não haverá de esquecer minha bondade e o bem que lhe fiz, mesmo que seja necessário lembrá-lo sempre.
4.
Em podendo ajudar ao próximo, eu o farei com a mais convicção e exposição possíveis de serem notadas!!! Assim, aquele jamais me negará um sacrifício!
Em podendo defender o direito do outro, eu o advogarei firmemente perante seu algoz, seu destino, sua sina ou má sorte! Feito isto, ele certamente renunciará parte dos seus mais nobres direitos e valores e, quem sabe, até a alma, em minha recompensa!
Aos entes empobrecidos, aos de má sorte, aos carentes de amor e de matéria, eu não lhes negarei uma farta caridade; eu lhes anunciarei a grandeza e a bondade raras dos ricos, a boa sorte de berço dos afortunados, a alegria dos merecidos de amor e matérias. Isto, lhes trarão conforto, ainda que breve desejo;
Aos inquietos e aos irrequietos, eu lhes ensinarei que a paciência ilimitada e a esperança eterna e passiva serão lembradas e recompensadas por Deus, ainda que depois da morte;
Essa caridade não ficará no anonimato e constará dos relatos, dos mais diversos registros e linguagens possíveis à época, para que mortais sejam lembrados de meus gestos e que Deus não possa me negar a salvação e o paraíso, por mérito dessa bondade!!!
Indigna.
Áureo João. 43. Teresina/PI.
1.
Eu ensinei a meu filho as funções de comer, beber, andar, falar e fazer outras faculdades biológicas,
Eu aculturei meu filho no lugar, no tempo, na história de seu contexto e num destino infalível;
Eu lhe inculquei o valor supremo da obediência a mim, aos mais velhos, à ordem, ao que lhe foi ensinado tal como tal, sem lhe deixar a necessidade de perder tempo em investigações sobre as causas primeiras e últimas das coisas;
Eu lhe eduquei a respeitar a Deus, sobre todas as coisas, e torná-Lo inquestionável pela fé absurda;
Com este feito, conto com a certeza de sua conduta sempre previsível, inalterada e linear, sem nenhuma desobediência criativa; ele não haverá de contrariar minha bondade e o bem que lhe reservei.
2.
Os pais, presente que Deus só nos dá uma vez na vida, ainda que a cultura nos possa mais de outra!
Não sei do que será de mim, sem a presença e o amparo de meus pais!
Temo que eles um dia morram!
Nesse dia terrível, sinto que não me haverá mais sentido em viver neste mundo!
Pelo menos a herança, para compensar esse vazio, eu farei tudo o possível para deserdar os demais de direito, o primogênito e o derradeiro, para que eu possa preservar e zelar pela lembrança e saudade dos meus entes amados! Cada um saberá que é para o bem de todos!!!
3.
Em me achando diante de alguém vazio de sonhos, eu o convencerei a construir sonhos seus!
Já tendo sonhos construídos, eu o convencerei a acreditar em seus sonhos ainda que outros não!
Já confiante em seus sonhos, eu o farei acreditar que é possível realizá-los, ainda que a persistência lhe seja necessária e o custo seja elevado!
Eu, ainda, o acompanharei para testemunhar suas vitórias e contar seus sucessos!!!
Assim, quando usufruir da colheita, eu quero estar na primeira fila da divisão dos bônus, sem quaisquer ônus, e sempre lembrado de (por) uma obra impagável; ele não haverá de esquecer minha bondade e o bem que lhe fiz, mesmo que seja necessário lembrá-lo sempre.
4.
Em podendo ajudar ao próximo, eu o farei com a mais convicção e exposição possíveis de serem notadas!!! Assim, aquele jamais me negará um sacrifício!
Em podendo defender o direito do outro, eu o advogarei firmemente perante seu algoz, seu destino, sua sina ou má sorte! Feito isto, ele certamente renunciará parte dos seus mais nobres direitos e valores e, quem sabe, até a alma, em minha recompensa!
Aos entes empobrecidos, aos de má sorte, aos carentes de amor e de matéria, eu não lhes negarei uma farta caridade; eu lhes anunciarei a grandeza e a bondade raras dos ricos, a boa sorte de berço dos afortunados, a alegria dos merecidos de amor e matérias. Isto, lhes trarão conforto, ainda que breve desejo;
Aos inquietos e aos irrequietos, eu lhes ensinarei que a paciência ilimitada e a esperança eterna e passiva serão lembradas e recompensadas por Deus, ainda que depois da morte;
Essa caridade não ficará no anonimato e constará dos relatos, dos mais diversos registros e linguagens possíveis à época, para que mortais sejam lembrados de meus gestos e que Deus não possa me negar a salvação e o paraíso, por mérito dessa bondade!!!
Indigna.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
O CAPITALISMO NO FUNCIONAMENTO DO ESTADO
Influências do capitalismo contemporâneo na dinâmica de funcionamento do Estado: para compreender o Estado neoliberal e não querê-lo fortalecido.
Teresa Cristina Coelho Matos
Assistente Social, Especialista em Gestão de Organizações Públicas e Sociais pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI, Mestra em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Piauí – UFPI. E-mail: teresacmatos@uol.com.br
NÃO VOTE EM SERRA!
INTRODUÇÃO
A sociedade contemporânea tem como marca relevante o fenômeno da globalização, que alterou, e continua alterando, os modos de produção, as fontes de riquezas, os valores e os sistemas de poder. Nesse contexto, muitos Estados foram impelidos a empreender reformulações em sua estrutura para se tornarem compatíveis com essa nova ordem econômica e social caracterizada pelo capitalismo global que ampliou, em grande medida, as desigualdades sociais.
Investigar essa tese requer uma incursão pela história destacando-se os eventos mais significativos no processo de transformação da sociedade, que influenciaram na modelagem do sistema capitalista ao longo do tempo e na estrutura de funcionamento do Estado, para, em seguida, incorrer sobre o movimento global de reforma do Estado, desencadeado na década de 1980 e ampliado na década de 1990, desencadeado no Brasil pelo Governo de Fernando Collor de Mello e consolidado pelo Governo de Fernando Henrique Cardoso.
Recorrendo a estudos produzidos sobre o tema, buscou-se destacar a interferência do capitalismo contemporâneo na definição e implementação das estratégias de governo voltadas para realizar esse projeto reformista que, em tese, propunha-se a promover a estabilização econômica, a reinserção internacional e a institucionalização da democracia, mas de resultados desastrosos no vivido social.
1. OS CAMINHOS TRILHADOS
A fase atual da sociedade foi moldada por mudanças significativas no seu sistema de valores, por significativas alterações nas relações de produção e no seu aparato institucional, e foram muitos os eventos humanos e os fatos que tiveram importância na formação desse modelo de sociedade caracterizado pelo capitalismo global, dominado pela revolução das tecnologias e pelo poder do conhecimento e da informação.
A Revolução Industrial, ocorrida entre os séculos XVIII e XIX está entre os acontecimentos de grande significado na modelagem da sociedade atual, pois marcou a substituição dos processos manuais de produção pelos processos industriais mecanizados e estabeleceu o desenvolvimento do capitalismo industrial (CANTANHEDE,1983, p.83).
Seguindo o curso da história, no período que se segue à Segunda Guerra Mundial ocorrem novas mudanças no cenário da sociedade. As premissas de Marx sobre a reprodução do sistema capitalista são materializadas: a ciência passa a ser utilizada como fator de produção, os instrumentos de trabalho são aperfeiçoados, os meios de comunicação e de transporte se modernizam, surgem os grandes centros urbanos e a centralização dos meios de produção em grandes corporações.
A partir daí as forças produtivas do sistema capitalista foram reforçadas e o capitalismo da economia mundial de hoje começa a tomar formato, sobretudo com a modernização dos transportes e com a utilização da ciência na produção.
É nesse período que se inicia a liberação de fluxos comerciais internacionais, estimulada pelos Estados Unidos, que saem fortalecidos da Segunda Guerra Mundial, com status de nação hegemônica, e nessa posição, com o argumento da racionalidade econômica, passam a estimular a interligação das economias, com o interesse de defender a sua posição de vanguarda nos setores industriais mais atuantes e de controle dos principais circuitos financeiros e comerciais (FURTADO,1992).
É nesse período, também, que o cenário socioeconômico de vários países passou a ser fortemente influenciado pela ideologia socialista de defesa da propriedade social dos meios de produção e da distribuição igual das riquezas, para combater a ideologia capitalista de produção social e da propriedade privada, de estímulo ao lucro crescente do capital e os seus efeitos na sociedade: desigualdades, desemprego e exclusões.
Pelos estudos feitos por Lester Thurow (1997), essa tendência de domínio do socialismo sobre o capitalismo forçou as economias capitalistas a adotarem uma mentalidade defensiva global, iniciada pela ajuda externa que os Estados Unidos deram aos países do terceiro mundo, com o objetivo de garantir parceiros fortes para combater o comunismo que se expandia.
Esse período, compreendido entre o término da Segunda Guerra Mundial e o início dos anos de 1970, é conhecido como a “era de ouro do capitalismo”. O Estado, nesse período, estava estruturado para exercer a função relevante de controle e de ordenação das atividades econômicas, dentro de uma visão desenvolvimentista de expansão dos mercados internos.
A partir de 1973, conforme afirma Fiori (1996), a estrutura econômica da sociedade passa por um desajuste que compromete a sua estabilidade. Inicia-se a crise das políticas econômicas nos países centrais, das políticas de proteção social dos “Estados de bem estar” e das políticas de industrialização dos países subdesenvolvidos. Europa e Estados Unidos passam a enfrentar altos níveis de desemprego e os paises da América Latina, como o Brasil, passam a enfrentar o endividamento interno e externo, déficit público, hiperinflação e desaceleração da economia (THUROW, 1997).
Os fundamentos do capitalismo: estabilidade financeira, pleno emprego, salário em ascensão e crescimento, foram abalados, não estavam sendo vivenciados no cotidiano da sociedade. A realidade passou a apresentar-se sob a forma de recessão, demissões, desempregos e queda de salários reais, provocando uma queda no padrão de vida e proporcionando o crescimento da desigualdade social.
Diante desse cenário, em todo o mundo, Estados reformulam seus aparelhos e redefinem o seu papel para se adequarem a essa nova etapa da vida social, marcada pelos imperativos da globalização e da reestruturação capitalista, tornando-se forçoso a reformulação de sua estrutura organizacional para garantir a produtividade e a competitividade da economia, preservar os interesses gerais do capitalismo global e responder às grandes demandas sociais surgidas ao longo do processo de transformação da sociedade.
3. O MOVIMENTO GLOBAL DE REFORMA DO ESTADO
O movimento de reforma do Estado na sociedade contemporânea evidencia a concepção de Claus Off de que o Estado capitalista é “uma forma institucional do poder público em relação com a produção material” (1984, p.123). Assim, em 1989, os sete países mais ricos do mundo (Estados Unidos, Alemanha, Canadá, Japão, Inglaterra, França e Itália) selaram um acordo estabelecendo diversas políticas voltadas para a implantação de um novo modelo de Estado, fundado sob as bases da concepção neoliberal, - (ref. Doutrina desenvolvida a partir da década de 1970, para adaptação do liberalismo clássico às exigências de restrição ao Estado interventor e assistencialista na economia, devendo exercer controle do funcionamento do mercado em grau mínimo e apenas em setores considerados imprescindíveis) -, tendo em vista atender aos interesses de acumulação do capitalismo global.
Nesse acordo, conhecido como Consenso de Washington, definiu-se um conjunto de estratégias para a formação desse novo Estado, quais sejam: a) ajuste fiscal, para diminuir os gastos do governo e reduzir o déficit público; b) redução do aparelho de Estado na provisão de bens e serviços públicos; c) privatização, através da transferência de empresas sob o controle do Estado para a iniciativa privada; c) criação de espaços políticos para a participação da sociedade na fiscalização dos gastos públicos.
Considerando que o Governo é o centro propulsor e unificador do Estado; a estrutura de comando que imprime as regras para que sejam cumpridas as orientações políticas do Estado (BOBBIO, 1999), na década de 1990 os governos de diversos paises do mundo, dentre os quais o Brasil, sob os comandos de Collor de Mello e de Fernando Henrique, empreenderam o movimento de reestruturação do Estado, centrando esforços para “modernizar” e “agilizar” sua base institucional de gestão, a Administração Pública.
Destaque-se que, a centralidade do movimento global de reforma do Estado foi o de dotar a administração pública de eficiência e eficácia pelo entendimento que a estrutura existente não atendia às necessidades dos governos e nem ao interesse público. Para isso os mecanismos utilizados pelos governos seguiram as estratégias definidas pelo Consenso Washington: a) limitações das dimensões do setor público; 2) privatizações; 3) comercialização ou corporização do setor público; 4) descentralização para governos subnacionais; 5) uso de mecanismos típicos de mercado; 6) novas atribuições aos órgãos da administração central, visando a “racionalização” (KETIL, 1998).
Os estudos de Donald Ketil apontam que o que levou cada país a definir os seus programas de reforma foi a natureza das suas forças políticas e das instituições de cada um deles e que, as diferenciações apresentadas nesses programas são influenciadas pela diferenciação dos cenários geográficos e culturais, das suas riquezas acumuladas e da importância dada à geração do conhecimento. Assim, em alguns países deu-se maior importância ao papel social do Estado e em outros ao fortalecimento do mercado.
Nos Países latino-americanos as reformas do Estado seguiram principalmente as tendências de revisão do seu tamanho e do seu papel, pela via das privatizações e da terceirização na provisão de bens e serviços públicos. Situação identificada no projeto reformista do Estado brasileiro, apesar de seus formuladores o apresentarem sob um discurso crítico ao neoliberalismo; defendendo uma reforma de base social-liberal, - (ref. corrente política de cunho reformista, por via democrática, originária da doutrina revolucionária socialista e marxista de 1917, mas que no contexto do Estado capitalista contemporâneo visa a melhoria das condições de vida dos trabalhadores sem comprometer os interesse do capitalismo global) -, apresentada, nas palavras de Bresser Pereira (1999), como a que melhor soube diagnosticar as crises estruturais enfrentadas pelo Estado brasileiro diante dos imperativos do mundo globalizado.
Porém, a concepção reformadora, na prática, estava fortemente concentrada na diminuição do Estado e na valorização do mercado, sendo veiculada para a sociedade como estratégia para preparar o país e ajustar sua economia para a nova competitividade internacional, tendo, para isso, que se livrar de uma herança de décadas anteriores na qual o Estado era gigantesco, ineficiente e perdulário (NOGUEIRA, 2005).
Nesse sentido, os formuladores dessa matriz do Estado brasileiro apontaram como práticas necessárias a transferência para a iniciativa privada das atividades que podem ser controladas pelo mercado (privatização das empresas estatais) e a descentralização para o setor público não-estatal de serviços que não envolvem o exercício do poder do Estado, mas devem ser subsidiados por ele, como educação e saúde.
Contudo, vale ressaltar que devido ao avanço da vida democrática na atualidade, emergem nesses países um movimento de conscientização de que mercado e Estado não são os únicos organizadores da vida social e que os movimentos organizados da sociedade são partes integrantes e peças fundamentais nessa tarefa.
Assim, além de empreender o ajuste estrutural da economia e a reforma do aparelho administrativo do Estado tornou-se necessários empreender um processo de democratização, com a adoção de uma variedade de medidas voltadas para assegurar a participação da sociedade civil na reconstrução do Estado e na delimitação do alcance regulador do mercado, incluídas no texto da constituição de 1988, que estabelece novas bases de relação entre Estado e sociedade no âmbito da gestão pública.
Nesse sentido, é ilustrativo, na realidade brasileira, a constituição e consolidação de conselhos gestores de diversas políticas e programas sociais, a prática do orçamento popular em várias cidades, bem como a realização de conferências para consulta popular, em nível nacional, estadual e municipal, para o planejamento das ações de saúde, educação, meio ambiente, assistência social, dentre outras, com a participação garantida de representantes da sociedade civil.
Vale ressaltar que para que o processo de democratização alcance seus resultados, além desses espaços de participação popular na gestão pública, é necessário, também, a adotar conduta dialógica na busca de articulação entre Estado, agentes econômicos e sociedade civil - {ref. compreendendo sociedade civil no sentido dado por Grmsci: “ sociedade civil não é um mero terreno de iniciativas ‘privadas’, mas tem [...] uma ‘função estatal’, na medida em que se põe como ‘hegemonia política e cultural de um grupo social sobre toda a sociedade, como conteúdo ético do Estado” ( NOGUEIRA, 2003, p. 187, apud GRAMSCI, 2000)} - e, assim, criar os meios políticos para a consolidação democrática e ampliação dos direitos e da justiça social.
4. CONCLUSÃO:
Nesse estudo pode-se perceber que as propostas de reforma do Estado empreendidas nas sociedades capitalistas da atualidade, apesar de se apoiarem num discurso de defesa dos interesses coletivos, tiveram como base a concepção neoliberal imposta pelos paises ricos e reforçam a tese de que foram implementadas, principalmente, com o propósito de atender aos interesses econômicos do capitalismo global.
Dentro de uma realidade complexa, que engloba interesses diversos e conflitantes, tanto no âmbito do Estado, dos setores econômicos, quanto da sociedade civil e entre estes, percebe-se que algumas questões, ainda hoje, continuam na pauta de discussão. Como realizar uma reforma de Estado que priorize a defesa dos interesses coletivos no contexto da sociedade capitalista contemporânea? É possível reverter as práticas focadas estritamente na defesa dos interesses das elites econômicas transnacionais, internacionais e nacionais?
Dentre os caminhos apontados está o de conceber a sociedade civil no sentido gramisciano, devendo ser vista com a “função estatal” de conteúdo ético do Estado, bem como de ampliar os espaços de participação da sociedade para além da arena das políticas públicas de cunho social, garantindo seu envolvimento no debate de questões referentes à racionalidade econômica e distribuição da riqueza e assim caminhar em direção da consolidação de um verdadeiro processo de democratização e promoção da justiça social.
Reconhecidamente, esses caminhos foram ampliados pelo governo popular democrático coordenado pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e precisamos tê-los consolidados. Nesse rumo, temos como única alternativa a candidata Dilma Rousseff à presidência da República.
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VOTE EM DILMA PARA O BRASIL SEGUIR MUDANDO!
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOBBIO, Norberto. Quem Governa? In: As ideologias e o poder em crise. 4ª ed. Trad. João Ferreira, Brasília: UnB, 1999.
BRASIL, Presidência da República, Plano Diretor De Reforma Do Estado. Brasília, Câmara da Reforma do Estado, Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado, 1995.
CATANHEDE, César. Administração e Gerência. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1983.
FIORI, José Luis. Os moedeiros falsos, “neoliberalismo e políticas públicas”, “globalização e democracia”, o novo papel do estado frente à globalização, mimeo, 1996.
FURTADO, Celso. Brasil: a reconstrução interrompida. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
KETIL, F. Donald. A Revolução Global: reforma da administração do setor público. In, Revista do Estado e Administração Pública Gerencial. Trad. Carolina Andrade – 2ª ed. – Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998.
NOGUEIRA, Marco Aurélio. Um Estado para a sociedade civil: temas éticos e políticos da gestão democrática. 2° ed., São Paulo: Cortez, 2005.
OFFE, Claus. Problemas estruturais do estado capitalista. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.
PEREIRA, Luiz Carlos Bresser, SPINK, Peter. Reforma do Estado e Administração Pública Gerencial. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1999.
THUROW, Lester C. O Futuro do Capitalismo: como as forças econômicas mudam o mundo de amanhã. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
domingo, 10 de outubro de 2010
O ASSUNTADOR - Assuntar - poema, poesia, filosofia
O ASSUNTADOR – poema, poesia e filosofia.
Áureo João. 43 anos. Teresina/PI, 2010.
1.
Assuntar assenta em assuntar-se, em conjugação reflexiva pura;
É assentar em si mesmo, sobre e dentro de suas entranhas visíveis e naquelas não visíveis,
Para captar as manifestações e expressões extravasadas e os discursos silenciados e os dissimulados;
É perceber o corpo físico, o vital, o emocional, o mental, o intelectual, o astral e o espiritual manifestos em seu universo particular, íntimo pessoal;
É caminhar em si até sentir medo da estranheza de si mesmo e irreconhecer lugares, virtudes e ausência destas, nunca antes observados, nem declarados de sua pertença própria.
2.
Assuntar é uma conspiração em si mesmo,
É penetrar nas dimensões da direita e do avesso, assuntando-se, auscultando-se;
É dissecar o amor que sente e o ódio que manifesta, seja na qualidade exposta para fora de si, seja naquela expressão reservada de sua interioridade exclusiva;
É percorrer em si mesmo até reconhecer porque ama e como ama; porque odeia e como odeia;
Inclui ancorar na dimensão de seu amor até então desconhecido, mas também comporta em penetrar e reconhecer as dimensões da indiferença e dissimulações sobre as manifestações de seu ódio;
3.
Assuntar comporta mergulhar no amor do outro, sem se deixar contagiar de sua manifestação particular dele;
É sentir como o outro sente o amor que é seu, por aquilo que lhe faz amar;
É reconhecer porque o outro ama e, especialmente, como ama e os fundamentos da expressão de seu amor;
Comporta cuidar do seu amor particular e universal, do outro, com o saber cuidar que é, também, de seu particular do outro;
Suporta cuidar do amor do outro, sob o fundamento do outro e o cuidado que lhe é singular; que é de sua identidade, sem fundir-se nem confundir-se com o outro.
4.
Assuntar é encostar-se no ódio do outro, sem nutri-lo nem amenizá-lo;
É compreender as vibrações que enraízam no ódio do outro e as dimensões em que se realizam;
É reconhecer a causa que ativa seu ódio dele e o torna irreconhecível à rasa racionalidade humana;
É reconhecer, sob o fundamento do outro, o que lhe conforta e lhe ameniza o ódio que lhe acomete;
É pensar, sentir e auscultar o ódio do outro como se fosse ele mesmo em atividade de assuntar-se assuntando-se, em pura conjugação reflexiva e empática.
5.
Assuntar é conhecer a si mesmo, pelo direito e pelo avesso;
Em sendo uma galinha, sabe-se galinha, em suas dimensões e manifestos autênticos e em suas dissimulações;
Em sendo uma águia, sabe a si mesma águia, quando verdadeira e verossímil, não mais nem menos que a galinha que conhece a si mesma inteira;
Em sendo sábio, conhece a si mesmo primeiro, ainda que inconcluso sempre, antes que lhe seja requerido conhecer uma galinha e uma águia tal como para si mesmas;
Fora desta conjugação de assuntar assuntando-se, o sábio ignorante, a galinha e a águia são apenas e igualmente bichos importantes, que comem, bebem, dormem, reproduzem, sem saber o fundamento de si nem o propósito primeiro e último do seu ser e do seu fazer no mundo;
6.
Assuntar é uma Bela Arte em movimento e exercício que se conjugam no artífice assuntador, que é assuntador de si mesmo, que é assuntador do outro, que é assuntador do mundo, há um tempo só;
Põe-se perante Deus e reconhece as faces de Deus, seus atributos e seus propósitos, se for mesmo Deus o ente à sua mira;
Mira os olhos do Diabo e capta o intuito de sua benevolência e sua malevolência, se lhe for apropriado o atributo e significados, ainda que não se apresente Diabo; reconhecerá seu criador, seus símbolos, seus poderes e suas funções no mundo concreto e no imaterial;
Dobra-se diante de si próprio e capta o ser que é mas não quer ser; o ser que quer ser mas não o é, e o ponto de encontro de seu movimento em si mesmo;
O assuntador não teme a Deus, nem ao Diabo, nem ao outro, nem a si mesmo, porque ausculta cada um destes, porque os distingue, porque não confunde seus atributos, suas evidências, seus propósitos, suas identidades, quando os têm e quando lhes faltam; e quando lhe convém.
7.
Assuntar implica perceber cada lugar em seu lugar, enlaçado a um tempo e a seus movimentos singulares;
Se o lugar é o mato, com os bichos e os entes da natureza, então assuntar comporta conhecer os astros, interagir com a terra firme e a lama, auscultar a direção dos ventos, compreender as forças das águas, respeitar o poder do fogo, sentir as vibrações das matas e a comunicação de seus regentes;
Se o lugar é entre os humanos e seus inventos, assuntar conjuga observar e compreender os fundamentos e as intenções de seus discursos objetivados e silenciados; discernir a elaboração de seus pensamentos; sentir seu coração; compreender a conduta de suas atitudes e o fim último de seus objetos e seus significados.
Se o lugar é seu lugar, assuntar se realiza em tomar a si mesmo, predicado nas suas relações intrapessoais puras e na conjugação das relações com o lugar-mundo de ninguém, com o lugar-do-outro e com o não-lugar, e não se perder de si mesmo entre os mais;
Se o lugar é o lugar do outro ou o outro próprio, assuntar se efetiva, profunda e sutilmente, em distinguir quem é e o que é cada ente e lugar singular, mas também suas interseções e exclusões;
8.
O assuntador não é, necessariamente, generoso ou algoz;
O assuntador é porque se fundamenta assuntador;
Conjuga-se atributo do vil algoz, se algoz;
Conjuga-se atributo do digno generoso, se o for;
O assuntador é o que sabe assuntar; assuntar-se e sabe-se assuntante, auscultante em processos dinâmicos, contínuos e permanentes; é um ente que come sua comida, bebe sua bebida, dorme ou deixa de dormir ao seu modo, reproduz e produz consciente das condições que o faz; sabe o fundamento de si e o propósito primeiro e último do seu ser e do seu fazer no mundo.
... ... ... ... ...
Dedicatória a um Mestre.
Desde que fiquei sabendo da enfermidade ocorrida ao Professor Puscas, bem como de sua resistência à adversidade que lhe desafiou, fiquei emudecido sobre o assunto. Eu não tinha algo a lhe dizer, nem a lhe perguntar. Eu não tinha elogios a lhe fazer, em face do antigo corpo mais pesado, nem sobre o novo corpo mais leve, nem sobre o fumo, nem sobre a cachaça. Eu não sabia o que lhe dizer sobre sua militância na universidade, nem sobre seu momento de repouso pleno no leito do hospital e/ou em leito domiciliar, nem sobre seu retorno às lutas cotidianas. Eu apenas assuntei.!!! Assuntei sobre a grandeza de humanidade do Mestre Puscas; da sua capacidade de assuntar a si mesmo, de assuntar os outros e aos outros; de assuntar o mundo, sempre digno e generoso, sem temer a Deus, nem ao Diabo, nem aos outros e nem a si mesmo, porém sábio em distingui-los em suas identidades, em suas faces, em suas origens, em suas histórias e em seus propósitos no mundo.
É um grande assuntador. É um Mestre.
Dedico a meu Mestre Puscas um poema que acabo de “psicografar”: O ASSUNTADOR – poema, poesia e filosofia, como um gesto assuntado apreendido.
Em repouso e em movimento, que a leitura seja de bom grado ao Mestre.
Áureo João.
Áureo João. 43 anos. Teresina/PI, 2010.
1.
Assuntar assenta em assuntar-se, em conjugação reflexiva pura;
É assentar em si mesmo, sobre e dentro de suas entranhas visíveis e naquelas não visíveis,
Para captar as manifestações e expressões extravasadas e os discursos silenciados e os dissimulados;
É perceber o corpo físico, o vital, o emocional, o mental, o intelectual, o astral e o espiritual manifestos em seu universo particular, íntimo pessoal;
É caminhar em si até sentir medo da estranheza de si mesmo e irreconhecer lugares, virtudes e ausência destas, nunca antes observados, nem declarados de sua pertença própria.
2.
Assuntar é uma conspiração em si mesmo,
É penetrar nas dimensões da direita e do avesso, assuntando-se, auscultando-se;
É dissecar o amor que sente e o ódio que manifesta, seja na qualidade exposta para fora de si, seja naquela expressão reservada de sua interioridade exclusiva;
É percorrer em si mesmo até reconhecer porque ama e como ama; porque odeia e como odeia;
Inclui ancorar na dimensão de seu amor até então desconhecido, mas também comporta em penetrar e reconhecer as dimensões da indiferença e dissimulações sobre as manifestações de seu ódio;
3.
Assuntar comporta mergulhar no amor do outro, sem se deixar contagiar de sua manifestação particular dele;
É sentir como o outro sente o amor que é seu, por aquilo que lhe faz amar;
É reconhecer porque o outro ama e, especialmente, como ama e os fundamentos da expressão de seu amor;
Comporta cuidar do seu amor particular e universal, do outro, com o saber cuidar que é, também, de seu particular do outro;
Suporta cuidar do amor do outro, sob o fundamento do outro e o cuidado que lhe é singular; que é de sua identidade, sem fundir-se nem confundir-se com o outro.
4.
Assuntar é encostar-se no ódio do outro, sem nutri-lo nem amenizá-lo;
É compreender as vibrações que enraízam no ódio do outro e as dimensões em que se realizam;
É reconhecer a causa que ativa seu ódio dele e o torna irreconhecível à rasa racionalidade humana;
É reconhecer, sob o fundamento do outro, o que lhe conforta e lhe ameniza o ódio que lhe acomete;
É pensar, sentir e auscultar o ódio do outro como se fosse ele mesmo em atividade de assuntar-se assuntando-se, em pura conjugação reflexiva e empática.
5.
Assuntar é conhecer a si mesmo, pelo direito e pelo avesso;
Em sendo uma galinha, sabe-se galinha, em suas dimensões e manifestos autênticos e em suas dissimulações;
Em sendo uma águia, sabe a si mesma águia, quando verdadeira e verossímil, não mais nem menos que a galinha que conhece a si mesma inteira;
Em sendo sábio, conhece a si mesmo primeiro, ainda que inconcluso sempre, antes que lhe seja requerido conhecer uma galinha e uma águia tal como para si mesmas;
Fora desta conjugação de assuntar assuntando-se, o sábio ignorante, a galinha e a águia são apenas e igualmente bichos importantes, que comem, bebem, dormem, reproduzem, sem saber o fundamento de si nem o propósito primeiro e último do seu ser e do seu fazer no mundo;
6.
Assuntar é uma Bela Arte em movimento e exercício que se conjugam no artífice assuntador, que é assuntador de si mesmo, que é assuntador do outro, que é assuntador do mundo, há um tempo só;
Põe-se perante Deus e reconhece as faces de Deus, seus atributos e seus propósitos, se for mesmo Deus o ente à sua mira;
Mira os olhos do Diabo e capta o intuito de sua benevolência e sua malevolência, se lhe for apropriado o atributo e significados, ainda que não se apresente Diabo; reconhecerá seu criador, seus símbolos, seus poderes e suas funções no mundo concreto e no imaterial;
Dobra-se diante de si próprio e capta o ser que é mas não quer ser; o ser que quer ser mas não o é, e o ponto de encontro de seu movimento em si mesmo;
O assuntador não teme a Deus, nem ao Diabo, nem ao outro, nem a si mesmo, porque ausculta cada um destes, porque os distingue, porque não confunde seus atributos, suas evidências, seus propósitos, suas identidades, quando os têm e quando lhes faltam; e quando lhe convém.
7.
Assuntar implica perceber cada lugar em seu lugar, enlaçado a um tempo e a seus movimentos singulares;
Se o lugar é o mato, com os bichos e os entes da natureza, então assuntar comporta conhecer os astros, interagir com a terra firme e a lama, auscultar a direção dos ventos, compreender as forças das águas, respeitar o poder do fogo, sentir as vibrações das matas e a comunicação de seus regentes;
Se o lugar é entre os humanos e seus inventos, assuntar conjuga observar e compreender os fundamentos e as intenções de seus discursos objetivados e silenciados; discernir a elaboração de seus pensamentos; sentir seu coração; compreender a conduta de suas atitudes e o fim último de seus objetos e seus significados.
Se o lugar é seu lugar, assuntar se realiza em tomar a si mesmo, predicado nas suas relações intrapessoais puras e na conjugação das relações com o lugar-mundo de ninguém, com o lugar-do-outro e com o não-lugar, e não se perder de si mesmo entre os mais;
Se o lugar é o lugar do outro ou o outro próprio, assuntar se efetiva, profunda e sutilmente, em distinguir quem é e o que é cada ente e lugar singular, mas também suas interseções e exclusões;
8.
O assuntador não é, necessariamente, generoso ou algoz;
O assuntador é porque se fundamenta assuntador;
Conjuga-se atributo do vil algoz, se algoz;
Conjuga-se atributo do digno generoso, se o for;
O assuntador é o que sabe assuntar; assuntar-se e sabe-se assuntante, auscultante em processos dinâmicos, contínuos e permanentes; é um ente que come sua comida, bebe sua bebida, dorme ou deixa de dormir ao seu modo, reproduz e produz consciente das condições que o faz; sabe o fundamento de si e o propósito primeiro e último do seu ser e do seu fazer no mundo.
... ... ... ... ...
Dedicatória a um Mestre.
Desde que fiquei sabendo da enfermidade ocorrida ao Professor Puscas, bem como de sua resistência à adversidade que lhe desafiou, fiquei emudecido sobre o assunto. Eu não tinha algo a lhe dizer, nem a lhe perguntar. Eu não tinha elogios a lhe fazer, em face do antigo corpo mais pesado, nem sobre o novo corpo mais leve, nem sobre o fumo, nem sobre a cachaça. Eu não sabia o que lhe dizer sobre sua militância na universidade, nem sobre seu momento de repouso pleno no leito do hospital e/ou em leito domiciliar, nem sobre seu retorno às lutas cotidianas. Eu apenas assuntei.!!! Assuntei sobre a grandeza de humanidade do Mestre Puscas; da sua capacidade de assuntar a si mesmo, de assuntar os outros e aos outros; de assuntar o mundo, sempre digno e generoso, sem temer a Deus, nem ao Diabo, nem aos outros e nem a si mesmo, porém sábio em distingui-los em suas identidades, em suas faces, em suas origens, em suas histórias e em seus propósitos no mundo.
É um grande assuntador. É um Mestre.
Dedico a meu Mestre Puscas um poema que acabo de “psicografar”: O ASSUNTADOR – poema, poesia e filosofia, como um gesto assuntado apreendido.
Em repouso e em movimento, que a leitura seja de bom grado ao Mestre.
Áureo João.
domingo, 19 de setembro de 2010
INFLAÇÃO DA PENA E SUPERAVIT DA INJUSTIÇA: APONTAMENTOS PARA A DISCUSSÃO DE VIOLÊNCIA EM TERESINA
INFLAÇÃO DA PENA E SUPERAVIT DA INJUSTIÇA: APONTAMENTOS PARA A DISCUSSÃO DE VIOLÊNCIA EM TERESINA
Marcondes Brito
Cientista Social, Mestrando em Políticas Publicas pela Universidade Federal do Piauí, pesquisa juventude, violência e tráfico de drogas.
Resumo :
Os pobres e o crime : uma realidade ou preconceito institucional
Muita Conversa E Pouco Resultado : Como Inflacionar A Pena E Criar Um Superavit De Injustiça.
Conclusão ou apenas considerações em torno de pontos inquietantes
Referencias :
COIMBRA, Cecília M.B. & NASCIMENTO, Maria Lívia. Jovens pobres: o mito da periculosidade. In: FRAGA, Paulo César Pontes; LULIANELLI, Jorge Atílio Silva (orgs). Jovens em tempo real. Rio de Janeiro; DP&A, 2003.
FOCAULT, Michael. Vigiar e punir: a história da violência nas prisões. 8ª Ed. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis (RJ): Vozes, 1987.
RIZZINI, Irenne. O Século Perdido. Raízes históricas das políticas públicas para a infância no Brasil. Rio de Janeiro: Santa Úrsula/Amais,1997.
PERALVA, Angelina. Violência e democracia: o paradoxo brasileiro. 1ª Ed. Rio de Janeiro. Paz e Terra. 2001.
Marcondes Brito
Cientista Social, Mestrando em Políticas Publicas pela Universidade Federal do Piauí, pesquisa juventude, violência e tráfico de drogas.
Resumo :
Ultimamente tem sido cada vez mais comum, em Teresina, discursos midiáticos alarmantes sobre violência e seus filões representados em quase sua totalidade nesses discursos pelos pobres e, em contrapartida, o poder publico, através de suas agências de controle (e entre elas, uma das que tem mais visibilidade, a policia) tem surgido ações desenfreadas e sem muitos resultados práticos. Este pequeno texto pretende discutir um pouco como esse processo se constrói e por que essa ânsia de punir os pobres acaba sendo sempre uma forma de inflacionar a pena e as injustiças.
Os pobres e o crime : uma realidade ou preconceito institucional
Segundo Irene Rizzini (1997), em meados dos Séculos XIX e início do XX, no Brasil, uma nação em surgimento que buscava na Europa do Século XIX e EUA do Século XX modelos e fórmulas capazes de desencadear aqui um processo desenvolvimentista. Parte desses propósitos trazia também modelos e teorias para combater a degradação de sociedades modernas, como as teorias eugenistas, evolucionistas que tiveram em Darwin um boom de expansão por todo o mundo, tanto pela genética social quanto por uma validação por parte de um discurso de verdade científica, quanto às de cunho racistas e criminais de Paul Broca e Cesare Lombroso, que traziam em seu bojo a ideia de que a pobreza trazia o atraso das sociedades por serem seus vícios a degenerescência da sociedade. Nesse contexto, o papel dos intelectuais seria de contribuir com seu saber para a implementação de políticas de ação, resolvendo essa situação de degeneração social ocasionada pelo trinômio: pobreza- ociosidade-degradação social.
Tais premissas são realçadas e detalhadas por Cecília Coimbra (2003, p. 23.), quando ela afirma que a degradação moral era especialmente associada à pobreza e percebida como uma epidemia que se deveria tentar evitar. Ou seja, todas essas teorias estabelecem/fortalecem a relação entre vadiagem/ociosidade/indolência e pobreza, bem como a de pobreza e periculosidade/violência/criminalidade.
Desse ranço cultural em que se figura a ligação perversa da juventude pobre à criminalidade e que, tal como desenvolveu Foucault (1987), existe uma lógica da punição que ainda está em voga e com muita força permeando as subjetividades de quem julga com uma falsa ideia de que o ato de proteger passa pela premissa de encarcerar, vigiar e punir. Tal visão tem um impacto na constituição das subjetividades juvenis, em suas identidades, em que identidades e papeis essas instituições estão a atribuir a esses jovens.
Coimbra (2003, p.7) para esclarecer como estas ideias foram construídas e incorporadas silenciosamente em nossas ações e políticas de ação, nos diz que:
Tudo o que escapasse às formas de interiorização naturalizadas, era considerado perigoso, acompanhando as subjetividades vinculadas à Doutrina de Segurança Nacional então vigente. Como tal tudo isso deveria ser evitado e banido. Naquele momento, duas categorias de acusação sobre a juventude foram produzidas: a do subversivo e a do drogado. Ambas consideradas danosas, já que colocavam em análise a ênfase dada ao espaço privado, ao modelo de família sadia e estruturada e seus sonhos de ascensão social, à rua vista como lugar do perigo, à desqualificação e esvaziamento dos espaços públicos. Da mesma forma, as crenças na identidade, no homogêneo e no definitivo se fortaleciam nas práticas psi.
Ou seja, trocando por miúdos, no capitalismo a pobreza sempre será uma ameaça ao Estado, pois dela procedem as pessoas perigosas. E estas pessoas tidas como agentes de periculosidades são identificadas como aquelas que não foram corretamente educadas para obedecer, porque vieram de famílias desestruturadas, com baixo rendimento escolar, pouco discernimento de regras, etc e tal. São potenciais criminosos, não raramente doentes sociais a serem regenerados pelo bom e atencioso Estado, com suas prisões, internatos, hospícios, penas alternativas, escolas, políticas sociais e de direitos, e pela sociedade civil, com suas boas e atenciosas filantropias baseadas em organizações não-governamentais.
Ao resultado desse processo tem-se dado um tratamento diferenciado, baseado nas condições materiais de vida econômica e social, espraia-se pela sociedade, fomentando uma conflituosa situação de clivagem: do lado (do) direito assentam-se os cidadãos, pessoas que têm pleno acesso a seus direitos, comprando-os, se necessário; do lado esquerdo amontoam-se os não–cidadãos, aqueles que são incluídos no processo histórico em função dos deveres e de sua exclusão social.
Subsumir os indivíduos a uma das inumeráveis relações que possa travar em sua vida, por mais constantes ou socialmente importantes que sejam, representa dispensar um tratamento discricionário à subjetividade humana e à complexidade do processo histórico, ensejando um ambiente propício à ascensão e fortalecimento de concepções de mundo que propositadamente tipificam e estigmatizam o empírico, amoldando-o por contiguidade a uma determinada parcela da população.
Muita Conversa E Pouco Resultado : Como Inflacionar A Pena E Criar Um Superavit De Injustiça.
Gostaria de introduzir esse tópico com uma notícia de portal ocorrido no início do ano de 2010 e, a partir dessa noticia, que não é isolada, mas tem-se tornado cada vez mais frequente em nossos jornais impressos diários ou de acesso em meio digital, pensarmos um pouco sobre os efeitos dessa propagação excessiva de violências sem causas, mas apenas com culpados.
Analisando por esse viés, e garimpando notícias de jornais só este ano de 2010, de janeiro a março, foram mais de 20 ações da policia militar ou civil contra o tráfico de drogas em Teresina, com repercussão na mídia impressa ou on line, onde apenas uma dessas não se resumiu apenas à prisão de traficantes pobres, mas de alguns agentes que ocupam outras pontas, que se denominou “operação pretensão II”. Vemos, nesse sentido, a construção dessa lógica da criminalização da pobreza e dos pobres como os principais, se não os únicos, agentes do tráfico de drogas em Teresina e de sua violência por conseguinte. Como na notícia que segue, copiada de um portal de Teresina, de operação acontecida em janeiro desse ano:
Na operação desencadeada na tarde desta quarta-feira (18) com pelo menos cem homens da Polícia Militar, na ocupação da Vila Inferninho, zona Norte de Teresina, já foi apreendida 30 pedras de crack e mais de R$ 200 em dinheiro. De acordo com o capitão das Rondas Ostensivas de Natureza Especial- RONE, a operação se estende por toda noite e madrugada. “As pessoas que forem presas serão encaminhadas para a Central de Flagrantes. Vamos permanecer com a operação por toda noite e cumprir os mandados de prisão” disse o capitão. PM invade inferninho para prender traficantes e homicidas. Pelo menos cem homens da Polícia Militar, usando 75 viaturas, entre carros e motocicletas, iniciaram por volta das 15h30 desta quarta-feira, 18, a ocupação da Vila Inferninho, na zona Norte de Teresina. A intenção é combater o tráfico de drogas, o porte de armas e cumprir mandados de prisão contra assaltantes, traficantes e homicidas. A operação policial denominada Cascavel é coordenada pelo capitão PM, comandante do Ronda Ostensiva de Natureza Especial (RONE). “O trabalho da polícia não tem hora para terminar. Vamos ocupar toda área e prender os criminosos que atuam ou moram na região”, informou o militar. O comando aos homens foi repassado pessoalmente pelo comandante-geral da PM ."Nossa ideia é desarmar a população e botar bandidos e traficantes atrás das grades", disse. (PORTAL AZ, 18 janeiro de 2010).
Trocando por miúdos, ou melhor, na análise de tal notícia, assim como de muitas das demais, percebemos a intenção excessiva, que também pode ser entendida como forçosa, de tentar colocar a todo custo o tráfico de drogas para tentar justificar as ações militares ou mesmo a violência e quase todos os homicídios antes mesmo de serem investigados, pois, em uma operação militar com o intuito de apreensão de drogas em que o Estado, através de suas instancias de controle e retenção de violência, em que se mobilizam mais de cem homens da policia militar, 75 viaturas e tem como apreensão apenas 30 pedras crack e 200 reais em dinheiro não pode ser considerada como exitosa, ainda mais quando se faz uma análise mais acurada em que o apreendido não daria nem para custear o valor do combustível utilizado na operação, nota-se que a intenção é muito mais de demonstrar ação, do que demonstrar resultados e inibir o tráfico.
O estigma que os assola transcende a fronteira jurídica, estendendo-se por contiguidade aos jovens pobres, segmento majoritariamente composto por negros e/ou mulatos, que pelo simples fato de não ter livre acesso à propriedade privada estariam prontos a se utilizar de meios ilícitos para dela se apropriar.
Se faz importante essa caracterização da construção de uma população desviante, ou que o Estado assim a caracterizou, porque, para o imaginário das instituições públicas operadoras de políticas sociais e de justiça, esse estigma historicamente construído, ainda é reatualizado, ou melhor ritualizado na lógica do mito da periculosidade elencado por Foucault (1987), que vai julgar os pobres em situação de violência ou violação, ou mesmo trancafiá-los vendo neles apenas perigos e nunca potencialidades.
Conclusão ou apenas considerações em torno de pontos inquietantes
Depois dessa breve incursão pela historia e por a construção dessa lógica da periculosidade no imaginário das instituições de justiça (penais), cabe-nos muito mais uma inquietação do que uma conclusão propriamente dita, que seria nesse sentido, a compreensão de o por quê de quando vem à tona as notícias sobre violências e sua aparente resolução com a prisão em flagrante dos “desviantes” (em sua esmagadora e quase homogenia maioria, de pobres, pois os ricos são, em sua maioria, suspeitos e quase nunca culpados), não paramos para pensar na problemática, ou melhor, nas problemáticas que geram violência (em suas múltiplas instâncias, seja ela ocasionada pelo tráfico de drogas, pela violência física, dentre outras), encarcerar o culpado basta para nossa ingênua ânsia de punir os pobres para resolver o problema da violência, como se nessa ação não morasse uma parte perceptível e intensa de violência institucional.
Essa postura acaba por afastar ainda mais os pobres da justiça, levando a descrença nessa instância enquanto promotora e protetora da democracia, pois como nos lembra Peralva (2001), que enquanto as torturas e a violência institucional permanecerem ao lado das injustiças (chamamos aqui de injustiças, a quase não prisão ou condenação de pessoas com o poder aquisitivo, ocasionando uma descrença no sistema de justiça, ou a uma constatação que se torna cada vez mais comum no imaginário popular, de que “cadeia é para pobre”) e enquanto ainda virmos defesa dos direitos dos humanos como defesa de bandidos ainda estaremos mais do que distantes do que chamamos de democracia.
Referencias :
COIMBRA, Cecília M.B. & NASCIMENTO, Maria Lívia. Jovens pobres: o mito da periculosidade. In: FRAGA, Paulo César Pontes; LULIANELLI, Jorge Atílio Silva (orgs). Jovens em tempo real. Rio de Janeiro; DP&A, 2003.
FOCAULT, Michael. Vigiar e punir: a história da violência nas prisões. 8ª Ed. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis (RJ): Vozes, 1987.
RIZZINI, Irenne. O Século Perdido. Raízes históricas das políticas públicas para a infância no Brasil. Rio de Janeiro: Santa Úrsula/Amais,1997.
PERALVA, Angelina. Violência e democracia: o paradoxo brasileiro. 1ª Ed. Rio de Janeiro. Paz e Terra. 2001.
domingo, 22 de agosto de 2010
CONVERSANDO SÓ OU COM OS ASTROS - poema, poesia e divagações
O Sol da Noite (criado em 25/07/2007, às 02:00h e 10:00min)
Alguns seres gostam de olhar e admirar a Noite!
Outros seres se embriagam na sombra da Noite.
Existem aqueles outros seres que fazem poesias caminhando com a Noite,
Outros, ainda, não gostam de fazer nada com a Noite. E outros não podem fazer nada com a Noite, ainda que desejem!!!
Os piores casos são daqueles seres que a Noite não lhes quer fazer nada; não oferece sombra, nem embriaguês, nem inspiração poética, nem lhe acompanha em suas jornadas;
Mas o Sol e a Noite se encontram diferentes!
O Sol não só faz poesia na Noite, mas também faz poesia para a Noite e para seus frutos!!!
O Sol também faz algumas poesias com a Noite, na sombra dela, embriagado com ela e inspirado por ela, Noite Bela!!!
O mais importante é que o Sol entra na Noite, pois a Noite também entra no Sol.
O ponto mágico acontece quando o Sol entra na Noite e a Noite entra no Sol, de tal modo que o Sol da Noite e a Noite do Sol se misturam e se fundem em algo que não é só Sol, nem só Noite!!!
E se pensam:
Ao pino do Sol, pensa-se a Noite,
Ao silêncio inquieto e movimento da Noite, pensa-se o calor do Sol.
É para você que o Sol e a Noite estão em órbitas!!!!
Áureo João.
Alguns seres gostam de olhar e admirar a Noite!
Outros seres se embriagam na sombra da Noite.
Existem aqueles outros seres que fazem poesias caminhando com a Noite,
Outros, ainda, não gostam de fazer nada com a Noite. E outros não podem fazer nada com a Noite, ainda que desejem!!!
Os piores casos são daqueles seres que a Noite não lhes quer fazer nada; não oferece sombra, nem embriaguês, nem inspiração poética, nem lhe acompanha em suas jornadas;
Mas o Sol e a Noite se encontram diferentes!
O Sol não só faz poesia na Noite, mas também faz poesia para a Noite e para seus frutos!!!
O Sol também faz algumas poesias com a Noite, na sombra dela, embriagado com ela e inspirado por ela, Noite Bela!!!
O mais importante é que o Sol entra na Noite, pois a Noite também entra no Sol.
O ponto mágico acontece quando o Sol entra na Noite e a Noite entra no Sol, de tal modo que o Sol da Noite e a Noite do Sol se misturam e se fundem em algo que não é só Sol, nem só Noite!!!
E se pensam:
Ao pino do Sol, pensa-se a Noite,
Ao silêncio inquieto e movimento da Noite, pensa-se o calor do Sol.
É para você que o Sol e a Noite estão em órbitas!!!!
Áureo João.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
ACADÊMICOS AMESTRADOS - Opinião, Crítica, desconstrução de um discurso
Acadêmicos amestrados
Por Idelber Avelar [Terça-Feira, 1 de Dezembro de 2009 às 15:31hs]
Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de novembro/2009.
Por Idelber Avelar [Terça-Feira, 1 de Dezembro de 2009 às 15:31hs]
Se um marciano aterrisasse hoje no Brasil e se informasse pela Rede Globo e pelos três jornalões, seria difícil que nosso extra-terrestre escapasse da conclusão de que o maior filósofo brasileiro se chama Roberto Romano; que nosso grande cientista político é Bolívar Lamounier; que Marco Antonio Villa é o cume da historiografia nacional; que nossa maior antropóloga é Yvonne Maggie, e que o maior especialista em relações raciais é Demétrio Magnoli. Trata-se de outro monólogo que a mídia nos impõe com graus inauditos de desfaçatez: a mitologia do especialista convocado para validar as posições da própria mídia. Curiosamente, são sempre os mesmos.
Se você for acadêmico e quiser espaço na mídia brasileira, o processo é simples. Basta lançar-se numa cruzada contra as cotas raciais, escrever platitudes demonstrando que o racismo no Brasil não existe, construir sofismas que concluam que a política externa do Itamaraty é um desastre, armar gráficos pseudocientíficos provando que o Bolsa Família inibe a geração de empregos. Estará garantido o espaço, ainda que, como acadêmico, o seu histórico na disciplina seja bastante modesto.
Mesmo pessoas bem informadas pensaram, durante os anos 90, que o elogio ao neoliberalismo, à contenção do gasto público e à sanha privatizadora era uma unanimidade entre os economistas. Na economia, ao contrário das outras disciplinas, a mídia possuía um leque mais amplo de especialistas para avalizar sua ideologia. A força da voz dos especialistas foi considerável e criou um efeito de manada. Eles falavam em nome da racionalidade, da verdade científica, da inexorável matemática. A verdade, evidentemente, é que essa unanimidade jamais existiu. De Maria da Conceição Tavares a Joseph Stiglitz, uma série de economistas com obra reconhecida no mundo apontou o beco sem saída das políticas de liquidação do patrimônio público. Chris Harman, economista britânico de formação marxista, previu o atual colapso do mercado financeiro na época em que os especialistas da mídia repetiam a mesma fórmula neoliberal e pontificavam sobre a “morte de Marx”. Foi ridicularizado como dinossauro e até hoje não ouviu qualquer pedido de desculpas dos papagaios da cantilena do FMI.
Há uma razão pela qual não uso aspas na palavra especialistas ou nos títulos dos acadêmicos amestrados da mídia. Villa é historiador mesmo, Maggie é antropóloga de verdade, o título de filósofo de Roberto Romano foi conquistado com méritos. Não acho válido usar com eles a desqualificação que eles usam com os demais. No entanto, o fato indiscutível é que eles não são, nem de longe, os cumes das suas respectivas disciplinas no Brasil. Sua visibilidade foi conquistada a partir da própria mídia. Não é um reflexo de reconhecimento conquistado antes na universidade, a partir do qual os meios de comunicação os teriam buscado para opinar como autoridades. É um uso desonesto, feito pela mídia, da autoridade do diploma, convocado para validar uma opinião definida a priori. É lamentável que um acadêmico, cujo primeiro compromisso deveria ser com a busca da verdade, se preste a esse jogo. O prêmio é a visibilidade que a mídia pode emprestar – cada vez menor, diga-se de passagem. O preço é altíssimo: a perda da credibilidade.
O Brasil possui filósofos reconhecidos mundialmente, mas Roberto Romano não é um deles. Visite, em qualquer país, um colóquio sobre a obra de Espinosa, pensador singular do século XVII. É impensável que alguém ali não conheça Marilena Chauí, saudada nos quatro cantos do planeta pelo seu A Nervura do Real, obra de 941 páginas, acompanhada de outras 240 páginas de notas, que revoluciona a compreensão de Espinosa como filósofo da potência e da liberdade. Uma vez, num congresso, apresentei a um filósofo holandês uma seleção das coisas ditas sobre Marilena na mídia brasileira, especialmente na revista Veja. Tive que mostrar arquivos pdf para que o colega não me acusasse de mentiroso. Ele não conseguia entender como uma especialista desse quilate, admirada em todo o mundo, pudesse ser chamada de “vagabunda” pela revista semanal de maior circulação no seu próprio país.
Enquanto isso, Roberto Romano é apresentado como “o filósofo” pelo jornal O Globo, ao qual dá entrevistas em que acusa o blog da Petrobras de “terrorismo de Estado”. Terrorismo de Estado! Um blog! Está lá: O Globo, 10 de junho de 2009. Na época, matutei cá com meus botões: o que pensará uma vítima de terrorismo de Estado real – por exemplo, uma família palestina expulsa de seu lar, com o filho espancado por soldados israelenses – se lhe disséssemos que um filósofo qualifica como “terrorismo de Estado” a inauguração de um blog em que uma empresa pública reproduz as entrevistas com ela feitas pela mídia? É a esse triste papel que se prestam os acadêmicos amestrados, em troca de algumas migalhas de visibilidade.
A lambança mais patética aconteceu recentemente. Em artigo na Folha de São Paulo, Marco Antonio Villa qualificava a política externa do Itamaraty de “trapalhadas” e chamava Celso Amorim de “líder estudantil” e “cavalo de troia de bufões latino-americanos”. Poucos dias depois, a respeitadíssima revista Foreign Policy – que não tem nada de esquerdista – apresentava o que era, segundo ela, a chave do sucesso da política externa do governo Lula: Celso Amorim, o “melhor chanceler do mundo”, nas palavras da própria revista. Nenhum contraponto a Villa jamais foi publicado pela Folha.
Poucos países possuem um acervo acadêmico tão qualificado sobre relações raciais como o Brasil. Na mídia, os “especialistas” sobre isso – agora sim, com aspas – são Yvonne Maggie, antropóloga que depois de um único livro decidiu fazer uma carreira baseada exclusivamente no combate às cotas, e Demétrio Magnoli, o inacreditável geógrafo que, a partir da inexistência biológica das raças, conclui que o racismo deve ser algum tipo de miragem que só existe na cabeça dos negros e dos petistas.
Por isso, caro leitor, ao ver algum veículo de mídia apresentar um especialista, não deixe de fazer as perguntas indispensáveis: quem é ele? Qual é o seu cacife na disciplina? Por que está ali? Quais serão os outros pontos de vista existentes na mesma disciplina? Quantas vezes esses pontos de vista foram contemplados pelo mesmo veículo? No caso da mídia brasileira, as respostas a essas perguntas são verdadeiras vergonhas nacionais.
Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de novembro/2009.
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