segunda-feira, 1 de novembro de 2010

MÊS DE REFERÊNCIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA: LADAINHA NOVEMBRO NEGRO

LADAINHA - NOVEMBRO NEGRO
Ladainha: Novembro Negro – Negro Pensa, Negro Chama, Negro Luta !!!
Áureo João. 43. Teresina/PI, Novembro de 2010.

1.
Levanta a cabeça Chico Nêgo, que o branco inimigo nos espreita da moita, dos campos e rochas, dos escritórios e do castelo;
Avisa Manoel que o inimigo do quilombo de lá é o mesmo de cá e de acolá;
Faça a roça, faça a roda; faz a reza, faz a mandinga e faz a luta!
Tenha muita fé em Deus, em Nosso Senhor do Bonfim, em João Batista e Santa Bárbara; pague promessa a São Francisco, romaria a Santa Cruz e preces a Nossa Senhora, mas não perca a fé que é de nós mesmos de nascença e de raiz, que é de nosso saber e de nosso fazer; fé em nossa força própria;
Chame as pretas velhas e os pretos velhos para nos ensinar experiências; as crianças para encantar a roda e limpar da vida a quizila que não é para ficar; os caboclos guerreiros e mensageiros vão na frente, vão abrir caminhos que a luta vai passar;
2.
Acorda Maria, o caminho da roça de quilombo é estreito e tem muita treita, mas caminho feito é para caminhar; quilombo é para quilombar;
Ginga mestre, que nem gato de sete vidas e passarinho ligeiro, mas também joga a vida como cobra coral; não assusta quem não é para assustar; não derruba o que não é para cair e não mata quem não é para morrer;
A luta foi anunciada desde a história cedo e não tem hora exata nem jeito certo para terminar;
Luta começada com negro só acaba quando acabar; só acaba se negro acabar;
Começa na hora e acaba na hora, não antes da hora, nem depois da hora; mas há luta necessária agora!!!
3.
Dobra o joelho Zé!!!
Dança um batuque, um samba de roda, um pagode do morro e de roça, um tambor de crioula e de mina, um reggae Jamaica ou maranhense, uma leseira, uma samba de cumbuca, um baião de Alano do Forró;
Ajoelhe na roda de preto e faça uma reverência ao tambor; cante uma cantiga de negro, uma toada de índio, uma música de branco;
Mas não se curve ao rito do senhor branco etnocêntrico, daquele branco que desbota o significado de nossa tinta, enfraquece nossa força, muda nota de nosso ritmo, estranha nossa ginga, rouba nossa alma, cerca nosso quilombo, nega nossas identidades;
Ainda que seja em tempos de outrora, mesmo que seja na pós-modernidade branca de agora, tão nova e tão antiga;
4.
Assunte reza cantada, reza gemida; reza de amor, reza de guerra; reza benzida e cruzada; reza que levanta negros e encanta negras;
Assunte a reza de agouro e peça agô e axé da proteção de raiz para fechar o corpo;
Negro que conhece a reza não pede bênção e não abaixa a cabeça para qualquer um benzer e abençoar;
Bispo que reza em reza numerada, contada em algarismo, crucifixo de metal com laço no pescoço e amuleto de moedas no bolso, essa reza salva negro morto para morar no céu do senhor, mas não liberta negro vivo aqui na terra; na terra que negro pisa, vive a roda, faz a roça, dança os pontos que pode contar e canta para ser feliz;
Assunte a quizomba que é boa, ria o riso de festa e da luta, ofereça gargalhadas de criança ao vento, mas assunte o endereço do vento que traz a gargalhada que nos agoura má colheita e nos zomba;
5.
Nem toda hóstia oferecida por padre é sagrada, nem todo santos é santo; tem negro novo que suspeita e duvida, tem negro velho que garante;
Água benzida por pastor não é benta para todo negro, nem serve ao banho de toda negra; só sabe quem assunta as águas, só conhece quem sabe a ciência da reza;
O vinho do bispo tem veneno, a pregação é dissimulada, o riso é fingido, sua comida dá remorso e indispõe as gentes; melhor não comer nem beber; negro livre não pede nem aceita, se aceita não gosta;
Ginga de banda, negro; gira de lado que nem besouro mangangá, mas não vire as costas para onde não deve virar;
Mas também não coma comida, não beba bebida e não banhe o banho, com a oferenda oferecida, sem assuntar a reza que lhe faz a encomenda;
6.
Mandinga negro, gira na roda do quilombo mundo; gira o mundo na roda;
Um bode foi sacrificado, seu sangue bebido em oferenda por Capitão-do-mato;
Pássaro que é livre voa para ver o quilombo quilombar;
Sibito que é livre voa como besouro no ar para ver o quilombo de lá, de longe!!!
Voa tiziu, voa pardal, voa azulão, voa canário, voa gavião, voa sabiá, para quilombo quilombar;
7.
A luta não é fácil, mas tem que continuar;
Nos quilombos com nomes de bichos, de caminhos das águas, de plantas, de gente e do santo que houver;
No Quilombo dos Macacos; dos Cavalos; das Onças; das Emas; das Lagoas; do Sumidouro; do Brejão; dos Kalungas; dos Silva; de Conceição das Crioulas; Alcântara; Marambaia; de São João; Santo Antônio; São Joaquim; Santa Maria da Codipi, Irmã Dulce; nos Quilombos de Dandara e Zumbi dos Palmares;
Luta começada por negro só acaba quando acabar;
Luta de negro só acaba se negro acabar;
8.
Não descuida negro, a colheita é boa, mas apenas começou;
Muita eira há de se levantar; há muito que plantar; muita obra que fazer;
Não há rocha dura nos campos que não possa ser quebrada, nem castelo branco que não possa cair; muita coisa plantada, a colheita há de vir,
Regue a rosa, acenda uma vela para o santo, sapeque um jucá e segure o patuá; a mata é grande e a pedreira é certa;
Mas a vereda tem que ser aberta até acabar e só acaba quando a luta acabar, no quilombo do mato, na mata do quilombo, no quilombo da cidade, no quilombo da favela e no quilombo das mentes da gente;
9.
Negro e negra de luta não passam na encruzilhada sem se benzer!
Tem Capitão-do-mato no mato, de toda cor e de toda altura;
Tem Capitão-do-mato na selva de pedra, vestindo terno e formatura;
O senhor da fazenda tá mudado, anda em carro com muitos cavalos, maquiagem no rosto, roupa fina e mais de um celular no bolso;
Mas o senhor e o capitão guardam herança do passado no presente. Continuam vendendo negros, sustentando luxo à nossa custa e controlando coisas de nossa vida;
10.
Tem Capitão-do-mato e Senhor de Engenho, com carta de engenheiro ou de doutor, comandando chefias nas repartições de governo, por merecimento político e experiência comprovada;
Quando o governo açoitava negro, Capitão-do-mato e o Senhor executavam em harmonia, sem duvidar do mando certo. Se o governo diz que respeita negro, intermediários se revoltam; o Capitão-do-mato e o Senhor da Fazenda trancam portas das entradas e de saídas; no engenho e nas repartições do governo;
E, como nos tempos em que andou Zumbi dos Palmares, a Carta de Alforria do quilombo continua muito rara e muito cara; há documento lavrado com a sabedoria de senhor de escravos; tem que passar no agrado de Capitão-do-mato, rubricado por capataz, encaminhado por outro Capitão-do-mato e coordenado por latifúndio, antes que governo possa assinar;
Acontece coisa que negro não pediu para ver. Menino que nem era nascido já carrega barba no rosto; tem negro que ri para não chorar; tem negra que ri e o coração chora;
Mas enquanto senhor de escravo e capitão-do-mato tiverem mando nas fazendas de latifúndio e nas chefias de repartições de governo, negro velho não pode dormir na virada da meia noite; geração nova não pode dormir muito cedo e acordar para a vida de negro muito tarde;
11.
Cuida negro, segura o patuá e entra desconfiado na repartição do Governo, o Capitão-do-Mato de espera em mesa grande, cadeira macia, sala refrigerada; comendo nosso dinheiro e dando risada para negro assistir; muita conversa fiada e pouca tinta na caneta para escrever história de negro;
Povo negro dos quilombos, vilas e favelas, palácios e palafitas, onde negro houver,
Negros e negras têm direitos deste sempre, até de vacilar,
Mas não deve usar o direito de fugir da luta que é sua própria, de derrubar negro que não é para cair, nem matar o que não é para morrer;
O inimigo certo é grande, é sabido, é treiteiro, é poderoso, tem nome e sobrenome desde as capitanias e sesmarias, tem endereço visto, tem a cara limpa e ronda nosso lugar, com armas na mão ou sorriso bonito no rosto e dinheiro nosso no bolso;
12.
Há branco amigo de nossa luta; há branco que luta nossa luta; há branco fingido, traiçoeiro;
Há índio no quilombo, na tribo e no terreiro,
Há negro covarde ou ingênuo, que vacila; a gente não gosta, mas tolera seu direito;
Mas coisa de negro é de negro, luta de negro é de negro; negro faz; negro sabe;
Luta começada por coisa de negro só acaba quando acabar; só acaba quando o motivo acabar.
13.
Cultura de negro também pode ser de branco, se a troca for boa e o branco zelar;
Coisa de branco também pode ser coisa de negro, se negro puder escolher e gostar;
O que é de branco, branco vigia de noite e o dia,
Mas o que é de negro, negro tem que achar, tem que pegar; tem que salvaguardar;
Negro acha a si mesmo; negro se acha na vida e mundo que é seu; e só para de achar quando não houver mais o que achar;
14.
Com as forças de Alá, Jesus Cristo, Buda, Oxalá e Yemanjá,
A cidade é selva de pedra;
Nós estamos aqui e não vamos correr dos perigos,
Na pedreira de ferro e cimento, a justiça de Xangô há de reinar,
E filho seu roda na roda e fora da roda, mas seguro não cai.
15.
Vovó Acotirene tem razão!
Luta entre negros irmãos é importante e, às vezes, necessária e estratégica ou a vaidade determina;
Negro combate com outro negro já nos tempos de Zumbi e Ganga Zumba, mas também nos tempos de agora;
Mas em território de combate com o colonizador branco etnocêntrico, essa luta entre negros não tem negro vencedor; não tem negra rainha; não tem reinado negro que se sustenta;
Luta começada em defesa de negro só acaba quando acabar o que defender; só acaba quando o inimigo verdadeiro recuar e cada lado ficar no seu lugar; cada negro ficar em seu lugar; e cada negro tiver a cota que lhe cabe!!
16.
Luta de negro é luta de quem pode lutar;
Luta de quem ama e respeita a vida, que é bela; ou por causa da morte que ronda;
Mas caminho feito é para caminhar;
Luta começada com negro só acaba quando acabar;
Só acaba quando negro quiser acabar!!!
... ... ...


Axé!!! Axé!!! Axé!!!
Ladainha para nossa reflexão durante o mês de novembro – mês de referência da consciência negra.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

CONTRADIÇÕES DA VIDA - poema, poesia e filosofia

CONTRADIÇÕES DA VIDA


Áureo João. 43. Teresina/PI, 26/10/2010

1.
Eu queria fazer belas poesias, daquelas que encantam as beldades que se guardam em castelos revestidos de granitos, portobello e cerca elétrica; grandes castelos de areia;

Eu queria poetar sobre flores do consumo do clero e da nobreza; daquelas flores que a gente compra em floricultura personalizada; flores de jardim cuidado por jardineiro contrato e assalariado exclusivo, e leão-de-chácara no portão da entrada;

Eu queria saber de meus poemas ostentados em raras molduras, em convites de festas especiais e jazigos glamourosos;

Mas no coração do poeta a flor que brotou é flor de mussambê, de alecrim do campo, de mandacaru, do marmeleiro e do ipê; é flor de roça; é flor de terreiro; encantos que não germinam em granitos nem à sombra de cerca elétrica;

A beldade que encantou o coração de poeta faz poemas na mão, no coração, na alma e na vida do poeta; e dá vida e felicidade ao poeta; anda na sombra de si mesma; caminha a pé pelos caminhos que os povos caminham;

Coração de poeta se encanta com beldade que contempla flor de mussambê, de alecrim do campo, de mandacaru, do marmeleiro e do ipê; flor de roça; flor de terreiro; músicas de passarinho e com o canto do galo; encantos que não germinam em qualquer lugar nem todo mundo pode alcançar.

CARTA DE UM PROFESSOR DOENTE A PROPÓSITO DO SISTEMA CAPES/CNPq/MEC/MCT. ETC

CARTA DE UM PROFESSOR DOENTE A PROPÓSITO DO SISTEMA CAPES/CNPq/MEC/MCT. ETC *




Estou doente...

Produzo mais papéis e máquinas e menos seres humanos, indivíduos! A nossa era se chama “PRODUÇÃO CIENTÍFICA”...

Quanto? Preciso estar “on line” e ligado 24 horas para produzir: 5 artigos por ano, pelo menos 1 Qualis A e os demais podem ser A2, B1 ou B2, mas o resto não interessa; pelo menos 1 livro e um capítulo de livro por ano.

Ah! Não posso esquecer das comunicações em eventos! Devem ser preferencialmente trabalhos completos, publicados nos anais em Congressos Internacionais porque os resumos expandidos e os simples não contam nada na nossa avaliação. E se forem em eventos regionais ou locais menos ainda.

Devo participar de 2 Programas de Mestrado como efetivo e um terceiro como Colaborador.

Devo ministrar 4 ou 5 disciplinas na Graduação, ou se não for assim preciso ter 4 ou 5 turmas, com pelo menos 50 vagas ofertadas para ministrá-las. Muitas das vezes, em espaços que comportariam muito menos... Quantos créditos: 12, 16, 20 ou 24 por semestre?

Devo ministrar também 1 ou 2 disciplinas na Pós-Graduação. Preciso orientar os trabalhos de conclusão de curso (4 ou 5, às vezes só um pouco mais por semestre). Preciso orientar pelos menos dois estudantes de Mestrado por ano... Ah! Eles precisam defender suas dissertações em 24 meses... O ideal já seria defender em 18 meses! E os Co-orientados? Quantos?

Tenho ainda os estágios, os projetos de fomento e de PIBIC. Ainda faltam as comissões e os cargos administrativos!

Precisamos de mais cursos, mais disciplinas e mais estudantes, mais cargos e mais comissões... Assim, ganhamos mais TRABALHO e temos menos VIDA. Meu tempo está acabando... O dia é muito curto e as 24 horas já não me são mais suficientes.

Que tal repensarmos o nosso Calendário? O dia poderia ser um pouco maior e o ano poderia ter mais alguns meses... Puxa! Como seria feliz por isto... PODERIA TRABALHAR MAIS! Muito mais, pois ainda preciso ser bolsista de produtividade. Quero também ser pesquisador!

Antigamente, o Professor era Senhor ou Senhora, um segundo pai ou uma segunda mãe, um tio ou uma tia. Era também um EDUCADOR. Um erudito e um verdadeiro HERÓI. Hoje o professor “brother”, “chapa”, “meu”, “brô” e “véio”, entre outros... Muitos outros!

O bom é que temos mais professores. Muito mais! Por outro lado, temos menos salas e dividimos os nossos 15m2 (chamado gabinete) com mais 3 ou 4 e todos os seus orientandos também. Pelo menos não posso reclamar de solidão no trabalho, nem de monotonia. A vida de Professor é pura agitação... Altas baladas como dizem.

Meu dia de trabalho terminou na Instituição... A jornada de trabalho de um celetista é de 44 horas por semana, com tendência natural de reduzi-la. E a nossa de professor? Isto é muito pouco!

Além da nossa rotina diária, ao chegarmos em casa precisamos continuar TRABALHANDO! Tem as correções de provas, aulas e notas de aulas para serem preparadas, seminários, palestras, etc.. Ou melhor, fazer invencionices para melhoramos a nossa performance para nossos estudantes.

As aulas não são mais atrativas... Eles dizem: melhor seria estar com a Galera ou a Turma... Atender celular, passar minhas mensagens, jogar meus novos games do celular, msn, orkut, facebook, mostrar meu aparelho de celular novinho ... Tem muito mais opções! Perder tempo com estas aulas? Que tédio! Tudo está na Internet mesmo.

Esqueci da elaboração dos projetos! Preciso de recursos financeiros para realizar alguns trabalhos e o prazo se encerra amanhã. Ainda bem que o envio é on line. O sistema, hoje em dia, em alguns editais recebem até 24 horas depois... UFA! Vai dar tempo.

Aqueles que precisam da nossa atenção em casa: mãe, pai, esposa, marido, filha, filho, neta, neto, noiva, noivo, namorada, namorado... Gato, cachorro, peixe, papagaio, periquito... etc? ELES PODEM ESPERAR!

E as minhas necessidades: físicas e fisiológicas? E o meu lazer e meu prazer? Confesso que às vezes me sobra um tempinho para isto tudo, apesar de serem atividades menos nobres.

Preciso dormir, mas tenho que TRABALHAR! Preciso acordar, antes de dormir. Estou doente! Não tenho tempo de ir ao médio... Depois vejo isto! Estou gravemente doente, mas não posso me curar. Preciso TRABALHAR e PRODUZIR mais papéis (textos, livros, artigos, relatórios, etc...). Meu CURRÍCULO LATTES está desatualizado!

Tenho que produzir mais máquinas também, pois o mercado assim exige.
Fico triste no final. A maior parte de toda a minha produção permanece intocável e, na maioria das vezes, enfeitando estantes e gavetas. Poucos realmente lêem aquilo que é fruto de uma vida inteira de total entrega ao sistema. Ou no caso das máquinas, algumas ficam sem emprego.
Ah! Eu não posso me queixar, pois apesar desta pequena carga de trabalho tenho um bom salário.


“Não sois máquinas! Homens é o que sois” é uma famosa frase de Charles Chaplin, ou ainda “O que somos é conseqüência do que pensamos” de Buda. Acredito que isto é coisa do passado... Está fora de moda!

Podemos ver que a geração atual não os conhece, pois seus mais recentes ídolos e sua identidade são diferentes: “Exterminador do Futuro – Arnold Schwarzenegger”, “Rambo – Sylvester tallone”, “Indiana Jones – Harrison Ford”, “007 - Daniel Craig”, etc. Estes são os verdadeiros heróis: imbatíveis, incansáveis e imortais.

Estou doente... Gravemente doente... Incurável...

AQUI JAZ um EX-PROFESSOR que um dia sonhou ser PESQUISADOR.

(*)Prof. Dr. Robério Anastácio Ferreira
Universidade Federal de Sergipe

Departamento de Ciências Florestais
Mestrado em Agroecossistemas
Mestrado em Ecologia e Conservação

Obs.: esta pérola chegou a mim por envio do Professor Puscas, da Universidade Federal do Piauí – UFPI.

domingo, 17 de outubro de 2010

ONTOLÓGICO

Ontológico
Identidade do humano no mundo

Áureo João. 43. Teresina/PI. inspirado em 08.11.2009

Eu quero ser
Eu quero ser o que eu não sou
Eu não quero ser o que sou

Eu quero ser
Um ser divinizado,
Fora do conflito do bem e do mal, onde assim for,

Eu quero ser Deus
Incriado, incausado, atemporal, princípio de princípio, medida de tudo;
Dono de si mesmo, regente e regido em si e por si;

Eu quero ser conhecedor da substância da água, do fogo, dos ventos, do pó e do sopro vital,
Eu quero ter consciência da consciência de ser
Eu quero saber o ser distinguir-se e distinguir-se dos entes mais

Eu quero ser o diabo: Imprevisível, vigilante, auto-observador de si mesmo; temido; aniquilador;
Caminhar nas profundezas das águas, molhar e não se afogar,
Atravessar na chama, dançar com o fogo e não se queimar,
Voar nas tempestades, cair sóbrio, levantar consciente e não se perder de si,

Não podendo ser, eu quero ser
Ser um bom fazedor; ainda que de perguntas, de respostas;
Quem sou? Onde estou? Como estou? Com quem estou?
Ou de si mesmo

Ser o ser que não tem medo de si mesmo.
Não podendo ser além-homem, meta-homem, mais que gente, mais que humano,
Que humano e gente seja, agora e sempre!!!

sábado, 16 de outubro de 2010

OS POBRES - poema, poesia e filosofia

OS POBRES


Áureo João. 43. Teresina/PI, 15/10/2010.

1.
Pobres. Há pobres. Ah! Os Pobres!
Há pobres humildes, oprimidos, sofridos, desvalidos, nunca esquecidos;
Mais que estes só os empobrecidos, excluídos, humilhados e reprimidos, mas igualmente jamais esquecidos!


2.
Há pobres. Os pobres sempre lembrados e amados;
Bispos, padres e missionários rezam aos pobres, clamam pelos pobres, vivem por causa dos pobres!
Os pastores arrebanham os pobres e oram pela existência dos pobres; e fazem obras por causa dos pobres!


3.
Profissões se criam e se sustentam por causa dos pobres;
Instituições políticas, religiosas, filantrópicas, entidades assistencialistas e revolucionárias se edificam em função dos pobres!
O amor aos pobres é notório, há quem conte; é contábil, monetário!


4.
Ah!!! Os pobres!!!
O que seriam os pobres sem os exércitos caridosos, assistencialistas, filantrópicos, missionários e revolucionários – todos por causa dos pobres – sempre vigilantes à sua contagem e contabilidade?!!!
Estes aliviam a dor dos pobres, consolam seus sonhos; nutrem suas vidas; e regam sonhos seus;


5.
Há pobres e há não-pobres,
Toda moeda tem dois lados: os pobres, os empobrecidos e o criador pendulam sob essa lei;
O que seriam os soldados dos exércitos caridosos, assistencialistas, filantrópicos, dedicados em missões por causa dos pobres, sem o exército dos empobrecidos?!! Que vestimentas os cobririam? Que carruagens os transportariam? Que abrigos seriam seus lares?


6.
Há pobres crianças, pobres jovens, pobres idosos!
Há pobres negros, pobres meninas e meninos! Há mendigos!
Mais que estes só os negros, crianças, jovens e idosos empobrecidos, excluídos, humilhados e reprimidos; mas estes também são muito e sempre lembrados, nunca esquecidos!!!


7.
Há pobres em categorias, mas sempre lembrados e amados;
Pronunciados em grandes discursos, reuniões de gente grande e nos colóquios íntimos em diminutivo: “Ah! Meus negrinhos, onde estão a essa hora!!!?”; “Ah! Minhas pobres criancinhas de rua, abandonadas, onde estão se protegendo desse temporal e do frio?” “Ah! Meus velhinhos”; “Meus moradores de rua”; “meus faveladinhos”!!! "Meus quilombolinhas"...
Mais que isto só as arrecadações recolhidas por causa dos pobres!


8.
Há pobres na cidade, no espaço rural, nos quilombos e no coração de florestas; todos sempre lembrados e nunca esquecidos!
Juntando todos são muitos, mas há quem os conte; é contábil, monetário;
Mais que estes todos juntos só o poder detido, escudado, protegido, dominado, vigiado e mobilizado por aqueles que vivem por causa dos pobres!


9.
Há fé absurda em defesa dos pobres!
Se os pobres não vêm até a fonte da fé dos exércitos que amam e defendem a vida por causa dos pobres, a fé vai aos pobres, até àqueles empobrecidos, excluídos, humilhados, das ruas, das favelas, da pobreza rural, dos quilombos e até àqueles do coração da floresta;
Mais que essa fé só a fé na vida vivida por causa dos pobres!!!


10.
Há pobres que nascem!!! Há não-pobres que vivem porque nascem os pobres!
Há pobres que são abortados, ainda que seja árduo o sacrifício dos exércitos para evitar esse infortúnio! Há perdas incontáveis, mas há quem as conte; é contábil, monetário;
Maior que esse sacrifício só a esperança na continuidade da vida dos pobres e a dor pela perda por causa dos pobres abortados!


11.
Há pobres que dormem a vida, por causa da vida de empobrecidos;
Mas toda moeda tem dois lados: os pobres, os empobrecidos e o criador pendulam sob essa lei;
Mais que isso só os sonhos dos empobrecidos, sonhados em muitos, capazes de acordar do sono algoz que lhe dorme a vida empobrecida...
... ... ...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ETNOCÊNTRICO - poema, poesia e filosofia

ETNOCÊNTRICO


Áureo João. 43. Teresina/PI


Aquele que não nasceu no meu lugar padece de infeliz sorte do destino, por não merecer a originalidade de uma digna naturalidade de nascença; não terá pior sorte em sua vida, se for mesma sua, se devotar-se ao lugar de minha nascença;


Aquele que não tem beleza corpórea igual à minha: minha raça, minha cor, minha linhagem; não pode-se dizer belo; poderá apenas admirar a beleza que é minha e não sua;


Quem não aprecia minha comida e minha bebida, sem iguais, não tem bom paladar, não tem bom estômago e não é herdeiro de bom gosto, nem de fina culinária;


Aquele que não foi embalado nos tecidos que me embalaram não vem de berço que se possa admirar, preservar e salvaguardar;


Quem não se veste tal como às minhas vestes não tem faculdade de Inteligência para discernir o elegante do ridículo;


Aquele que não sabe meu saber, não sabe; nem sequer sabe do meu tipo de compaixão para aliviar sua triste sina, merecida somente quando revogar seu não-saber e outorgar meu-sumo-saber; sua fortuna, coube-me por encontrá-lo e descobri-lo;


Aquele que não faz o que eu faço e como faço o meu fazer, não possui um sofisticado fazer neste mundo que é meu, nem tem o que ensinar nem o que continuar;


Aquele que não alcança o êxtase do choro, do riso e da contemplação refinada com minhas artes, minhas músicas, meus enredos, não terá outra reserva a não ser o lamento desafinado e poluente de suas cordas vocais, de seus instrumentos e por suas criações inferiores;


Aquele que não crê no Deus que me rege não conhece a Deus verdadeiro;
Quem não crê nas mesmas minhas crenças não sabe crer;
O outro que não anda como eu, sequer aprendeu a caminhar. Terá boa sorte, se eu puder carregá-lo.
Aquele que não escolheu a minha escolha, não tem uma escolha porque não o sabe fazer, mas lhe será ensinada a minha em todos os seus dias;


Aquele que não é como sou, não é sequer.


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

INDIGNA BONDADE - poema, poesia e filosofia

INDIGNA BONDADE


Áureo João. 43. Teresina/PI.

1.
Eu ensinei a meu filho as funções de comer, beber, andar, falar e fazer outras faculdades biológicas,
Eu aculturei meu filho no lugar, no tempo, na história de seu contexto e num destino infalível;
Eu lhe inculquei o valor supremo da obediência a mim, aos mais velhos, à ordem, ao que lhe foi ensinado tal como tal, sem lhe deixar a necessidade de perder tempo em investigações sobre as causas primeiras e últimas das coisas;
Eu lhe eduquei a respeitar a Deus, sobre todas as coisas, e torná-Lo inquestionável pela fé absurda;
Com este feito, conto com a certeza de sua conduta sempre previsível, inalterada e linear, sem nenhuma desobediência criativa; ele não haverá de contrariar minha bondade e o bem que lhe reservei.


2.
Os pais, presente que Deus só nos dá uma vez na vida, ainda que a cultura nos possa mais de outra!
Não sei do que será de mim, sem a presença e o amparo de meus pais!
Temo que eles um dia morram!
Nesse dia terrível, sinto que não me haverá mais sentido em viver neste mundo!
Pelo menos a herança, para compensar esse vazio, eu farei tudo o possível para deserdar os demais de direito, o primogênito e o derradeiro, para que eu possa preservar e zelar pela lembrança e saudade dos meus entes amados! Cada um saberá que é para o bem de todos!!!


3.
Em me achando diante de alguém vazio de sonhos, eu o convencerei a construir sonhos seus!
Já tendo sonhos construídos, eu o convencerei a acreditar em seus sonhos ainda que outros não!
Já confiante em seus sonhos, eu o farei acreditar que é possível realizá-los, ainda que a persistência lhe seja necessária e o custo seja elevado!
Eu, ainda, o acompanharei para testemunhar suas vitórias e contar seus sucessos!!!
Assim, quando usufruir da colheita, eu quero estar na primeira fila da divisão dos bônus, sem quaisquer ônus, e sempre lembrado de (por) uma obra impagável; ele não haverá de esquecer minha bondade e o bem que lhe fiz, mesmo que seja necessário lembrá-lo sempre.


4.
Em podendo ajudar ao próximo, eu o farei com a mais convicção e exposição possíveis de serem notadas!!! Assim, aquele jamais me negará um sacrifício!
Em podendo defender o direito do outro, eu o advogarei firmemente perante seu algoz, seu destino, sua sina ou má sorte! Feito isto, ele certamente renunciará parte dos seus mais nobres direitos e valores e, quem sabe, até a alma, em minha recompensa!
Aos entes empobrecidos, aos de má sorte, aos carentes de amor e de matéria, eu não lhes negarei uma farta caridade; eu lhes anunciarei a grandeza e a bondade raras dos ricos, a boa sorte de berço dos afortunados, a alegria dos merecidos de amor e matérias. Isto, lhes trarão conforto, ainda que breve desejo;
Aos inquietos e aos irrequietos, eu lhes ensinarei que a paciência ilimitada e a esperança eterna e passiva serão lembradas e recompensadas por Deus, ainda que depois da morte;
Essa caridade não ficará no anonimato e constará dos relatos, dos mais diversos registros e linguagens possíveis à época, para que mortais sejam lembrados de meus gestos e que Deus não possa me negar a salvação e o paraíso, por mérito dessa bondade!!!


Indigna.