quinta-feira, 4 de novembro de 2010

QUANDO FALTA SOLIDARIEDADE COLETIVA, A VIDA FICA SEM GRAÇA

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QUANDO FALTA SOLIDARIEDADE COLETIVA,
A VIDA INDIVIDUAL DE ALGUNS FICA SEM GRAÇA

Áureo João. 43. Teresina/PI, 03/11/2010.



Hoje, quarta-feira, 03/11/2010, eu fiz um gesto de solidariedade imediatista e, depois, pedi a graça!!!
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Por volta das 19:00h, nas imediações do cruzamento das avenidas Odilon Araújo e Castelo Branco, no Bairro Piçarra, entrei em um ônibus de transporte urbano coletivo que vinha do bairro Redenção em direção ao centro de nossa Capital.

Em gesto costumeiro, entrei no ônibus, entreguei um vale-transporte ao cobrador, pelo pagamento da viagem urbana, passei a roleta e me sentei numa cadeira à metade do comprimento do utilitário.

Já sentado, observei um jovem contando moedas na mão e entregando ao cobrador do ônibus, dizendo “só tenho esse...”. O cobrador-de-ônibus, de seu posto, conferiu as moedas e disse “falta vinte e cinco”. E, fazendo sinais de resposta negativa com as mãos e com a cabeça, para o jovem – e com o pé travando o giro da roleta a fim de impedir a passagem do moço -, devolveu as moedas ao jovem e sentenciou: “não pode”...; “é lei”...; “não pode passar sem a passagem inteira”.

Barrado pela falta de vinte e cinco centavos e pela sentença do cobrador-de-ônibus, o jovem se recolheu e se sentou em uma cadeira em frente ao seu julgador, persistindo nos argumentos para lograr sua credencial de passagem por aquele objeto que lhe parecia intransponível. O cobrador, ancorado em seu poder de veto circunstancial, apontava com seu dedo para uma câmera interna do ônibus e declamava seu texto invariável: “não pode”...; “é lei”...; “não pode passar sem a passagem inteira”.

Aquela situação, ainda que possa parecer absurdo especular, parecia-me um cárcere privado em movimento. O cobrador não deixava o jovem passar pela roleta. O motorista não parecia interessado em libertá-lo pela porta dianteira. O ônibus seguia rodando e o jovem sem nenhum poder efetivo sobre a situação.

À distância em que eu me achava, fiz uma “avaliação” estereotipada do perfil do jovem, cuja aparência me permitiu “concluir” que poderia ser um operário de uma oficina mecânica, da construção civil ou outro serviço profissional equivalente, sem dinheiro suficiente para custear seu retorno para casa, depois de um dia de trabalho pesado. Além disso, o jovem não demonstrava sinais de embriaguês, uso de “drogas” ou qualquer outra variação de sua lucidez. Ele é do tipo que a gente chama de “pardo” e carregava algumas sacolas.

Tocado pelo sentimento de injustiça à vista e pelo intuito da solidariedade imediata, coloquei a mão no bolso, tirei um vale-transporte e fiz gestos ao cobrador-de-ônibus, como sinal de pagamento de fiança da infração cometida pelo jovem e imediata revogação da “lei” que lhe mantinha naquele cárcere físico e moral. Foi algo mágico; o cobrador liberou o moço imediatamente. O jovem me encarou, fez sinal com o polegar para cima e me agradeceu pelo menos três vezes por aquele gesto; em seguida, foi sentar-se numa cadeira à parte traseira do ônibus.

O problema estava resolvido, pensei!!!

Porém, assuntando sobre a ocupação demográfica em Teresina, ancorei-me no raciocínio de que o centro da Capital não é localização típica para habitação/dormitório residencial, especialmente de pessoas de baixo poder aquisitivo.

Por esta premissa, cheguei às “minhas conclusões” de que o jovem operário ainda precisaria pegar uma segunda condução em transporte coletivo, até concluir seu percurso de retorno ao seu ponto de endereço domiciliar, localizado em alguns dos bairros da Capital. No entanto, não tendo dinheiro para pagar a passagem no ônibus coletivo, o constrangimento já estava certo e determinado.

O espírito de solidariedade individual e imediata logo indicou a melhor sentença para a situação localizada e direta. O mais razoável, para dormir tranqüilo esta noite, recomendava-me exercer um segundo gesto em complemento ao primeiro antecedente. Muito simples: com um vale-transporte a situação estaria sob controle; com mais um acréscimo, o dia seguinte daquele operário poderia começar melhor do que este final de jornada diária.

Na Avenida Frei Serafim – centro da cidade -, eu também precisava desembarcar daquele ônibus para, em seguida, embarcar em outro com destino à minha morada, na periferia.

Ao me dirigir à porta de desembarque do ônibus, notei o jovem sentado numa cadeira do lado oposto à saída. Imediatamente perguntei: “você tem... como chegar até sua casa... no seu bairro?”

Simultâneo ao gesto do jovem para responder minhas perguntas, eu puxei minha carteira do bolso e tirei dois vales-transporte para entregar ao jovem. Já com os vales na mão para entregá-lo, eu ouvi sua resposta: “Não. Eu não tenho casa. Moro na rua. Não tenho família, não tenho nada!. Vou dormir ali na calçada da Pague-Menos”.

Entreguei os dois vales-transporte que já estavam na minha mão estendida. Virei as costas para o jovem e me posicionei na porta do ônibus para o desembarque no ponto-de-ônibus seguinte. Eu não disse mais nada e não perguntei mais nada. Fiquei sem graça!!! Perdi a graça!!!

Desembarquei daquele ônibus e embarquei num sentimento de impotência e indignação!!!

No plano individual, eu tinha o vale-transporte, ingênua solução para uma situação sequer diagnosticada. No mesmo plano individual, eu não tenho um endereço para doar àquele “sem-endereço”; não tenho uma família para doar àquele “sem-família”; não tenho um posto de trabalho para aquele “sem-posto-de-trabalho”, “sem-dinheiro”, “sem-presente”, “sem-dignidade” e, talvez, “sem-futuro”...

Neste sentido, quando falta a solidariedade coletiva, como elemento intrínseco do modelo de sociedade em que vivemos, a vida individual de alguns (muitos) fica sem graça!!! Perda a graça!!! Perde o riso! Perde o sono! e... perde...!

A caridade individual e imediata é pouco útil ou mesmo inútil, quando o gesto não alcança a alteração da causa que deu origem à suposta necessidade da nossa caridade!!!

A falta de dignidade não pode ser banalizada em nossa existência, nem o processo de “vigiar” e “punir” os desprovidos de dignidade pode ser assimilado e internalizado pelas pessoas que pensam e agem, de modo crítico, na vida e com a vida em sociedade.

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terça-feira, 2 de novembro de 2010

VIOLÊNCIA. A VIOLÊNCIA NOSSA DE CADA DIA: A JUVENTUDE POBRE NA LINHA DE TIRO

A violência nossa de cada dia: a juventude pobre na linha de tiro



Marcondes Brito
Mestrando em Políticas Públicas da Universidade Federal do Piauí – UFPI.

Valéria Silva
Doutora em Sociologia Política. Professora do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas - UFPI



As ideias estão no chão
Você tropeça e acha a solução
Titãs


O presente artigo discute alguns apontamentos sobre a violência urbana na atualidade, detendo-se sobre os modos como a mesma afeta os jovens. Apresenta breve reflexão sobre a natureza das ações estatais dirigidas – ou não - a estes segmentos sociais e das relações que estabelecem com a produção daquilo que pretendem enfrentar: a violência em meio juvenil. Enfoca, por fim, os jovens pobres e marginalizados de Teresina-PI, segmento distanciado das políticas públicas de assistência e proteção, de uma forma geral, porém muito próximo ou, mesmo, inserido nas ações de segurança e repressão implementadas pelas instituições públicas.

Na apreciação do fenômeno aludido, apoiamo-nos no entendimento construído por Velho (2000), no qual o autor afirma que a violência não se esgota apenas no uso efetivo da força física, mas também na possibilidade ou ameaça da sua concretização por vários meios, inclusive o institucional. Este conceito de violência ganha sentido em um contexto grupal, quando entendemos como se constitui o conceito de juventude e, especificamente, de juventude pobre, desassistida, e como esta relação se desdobra na atualidade.

Segundo Irene Rizzini (1997), no Brasil, em meados dos Séculos XIX e início do XX, percebe-se, claramente, que a criança mais presente na literatura era aquela, aos olhos da elite, ‘carente da ajuda e proteção do Estado’ para ser “corrigida”, “reeducada”. Isto é, a literatura tratava da criança pobre.

O Brasil, uma nação em surgimento, buscava, na época, na Europa do século XIX e EUA do século XX, modelos e fórmulas capazes de desencadear, aqui, um processo desenvolvimentista. Parte importante deste propósito se constituía da importação de modelos e teorias para combater a “degradação de sociedades modernas”, como as teorias eugenistas, evolucionistas, que, a partir de Charles Darwin, expandiram-se por todo o mundo. Este advento se verificou tanto pelas proposições trazidas pela genética social quanto pela validação construída por um discurso de verdade científica, de cunho racista e criminal, de Paul Broca e Cesare Lombroso, autores que fomentavam, no bojo dos seus argumentos a idéia de que a pobreza trazia o atraso da sociedade e os seus vícios, a degenerescência da sociedade. Neste contexto, o papel dos intelectuais seria de contribuir com seu saber, para a implementação de políticas e ações, no sentido do enfrentamento da degeneração social ocasionada pelo trinômio pobreza - ociosidade - degradação social.

Esses discursos influenciaram vários intelectuais brasileiros, tais como Franco da Rocha, Nina Ribeiro, Silvio Romero, Henrique Roxo, dentre outros. Estes intelectuais, além da contribuição teórica que prestaram, assumiram também cargos públicos, oportunidade em que colocaram em prática suas idéias, disseminando-as dentro e fora das instituições. Tais intervenções fizeram com que o ideário de suas teses passassem a fazer parte das subjetividades brasileiras, mas com uma particularidade: as teorias racistas e discriminatórias voltavam-se principalmente, para os pobres, que eram a maioria da população. Como nos diz Rizzini (1997, p. 65) “não por acaso pobreza e degradação moral estavam sempre associadas. Aos olhos da elite, os pobres, com sua áurea de viciosidade, não se encaixavam no seu ideal de nação”, entendimento endossado também pelos pressupostos da biologia social. A propósito, afirma a autora que “a fantástica expansão da medicina, bem como sua ramificação no campo jurídico (mais ligado à medicina legal) e à conjugação dos saberes bio-psico-sociais trataram de redefinir o humano e explicar a etiologia dos medos que afligem o homem e a sociedade; o corpo e a alma” (1997, p. 69.), chamando a si a autoridade para a discriminação dos modelos sociais, dos processos de normalidade e patologia.

Essas premissas são reafirmadas e detalhadas também por Cecília Coimbra (2003, p. 23.), quando aponta que “a degradação moral” era especialmente associada à pobreza e percebida como uma epidemia que se deveria tentar evitar. Ou seja, “todas essas teorias estabelecem/fortalecem a relação entre vadiagem/ociosidade/indolência e pobreza, bem como a de pobreza e periculosidade/violência/criminalidade”.

Não é à toa que, da união destas duas abordagens, a médica e a jurídica, embaladas pela influência das teorias referidas surge, em 1927, a primeira lei brasileira para a infância e a adolescência, o primeiro Código de Menores e com ele a adoção da terminologia menor. Entretanto, a terminologia não possuía orientação cronológica, não era empregada para separar e/ou diferenciar segmentos por faixas etárias. A denominação concretizava uma diferenciação que levava em consideração eminentemente a condição de pobreza do indivíduo, imbricando, mais uma vez os pressupostos bio-sociais na compreensão dos segmentos juvenis marginalizados.

Encontrando suporte nestas idéias gerais vindas da Europa é que o higienismo penetra no Brasil do final do Século XIX e início do Século XX. Este movimento extrapola o campo da Medicina e se dissemina, em toda a sociedade brasileira, alcançando especialistas como pedagogos, arquitetos, urbanistas e juristas, dentre outros. (COIMBRA,1998).

Do ponto de vista de sua história, podemos dizer que, em território brasileiro, o movimento higienista alcançou seu apogeu na década de 1920, quando ocorreu a criação, por Gustavo Riedel, da “Liga Brasileira de Higiene Mental”. Fundamentados nas teorias racistas, no darwinismo social e na eugenia, pregava o aperfeiçoamento da raça e colocava-se publicamente contra os negros, mulatos e mestiços e, por consequência, contra a maior parte da população pobre brasileira.

Entre os higienistas da época, havia um consenso acerca da “missão patriótica”, que se atribuíam na construção de uma ”nação sadia e limpa”. Acreditavam no conceito de “degradação das sociedades modernas” e buscavam estratégias para executar um “saneamento moral” da sociedade brasileira. Como dissemos, associavam a “degradação moral” à pobreza, pois esta, com seus vícios, não condizia com o ideário de Nação, que, na época, buscavam produzir.

A “degradação moral”, vista como uma epidemia, implicava também a inevitabilidade do contágio, o que preocupava, sobremaneira, os higienistas. Uma vez a “doença” presente nas famílias pobres, esta endemia, por conseguinte, colocava toda a sociedade em risco. Fecha-se, portanto, um círculo vicioso, produz uma vez levado às últimas consequências, a conclusão de que sociedade “boa”, “saudável”, dependeria da eliminação dos pobres. E isto, não pelo extermínio da pobreza como problema social e/ou construção de uma sociedade democrática, mas pela eliminação das pessoas pobres.

A complexidade do pensamento higienista também chegou à consideração dos espaços públicos no seu todo, onde assumiram o aspecto de um corpo, de um organismo, demandando, então, cuidado, tratamento, a fim de curá-los da “doença” que se abatera sobre os mesmos. Para reforçar a gravidade de tais propostas de “reforma social”, vejamos o que nos diz Coimbra:
 
Partindo, portanto, da ideia de um corpo saudável, limpo, asséptico e disciplinado, o desenho urbano deveria prever cidades que funcionassem da mesma forma. Palavras como ‘artérias’ e ‘veias’ entraram para o vocabulário urbano no século XVIII, aplicadas por projetistas (...) que passam a pensar o funcionamento das cidades a partir dos ensinamentos médicos da época. Desde aquele século domina o pensamento científico a chamada ‘teoria dos fluidos’, onde o ar e a água são considerados os portadores de emanações fétidas e pútridas, conhecidas como ‘miasmas’ e transmissores de doenças como a peste, o escorbuto e a gangrena (COIMBRA, 1998, p. 80).
 
Assim posto, o espaço público surge como o lugar do perigo biológico e social, configurando-se também como “grande escola do mal”, uma vez ocupados pelos “menores” (compreendendo os “menores” infratores também os jovens), a infância perigosa e a infância em perigo. Os últimos seriam os pobres e os desassistidos, expostos aos outros “elementos”, ou seja, aos criminosos, degenerados e irrecuperáveis, que ocupavam os espaços urbanos de então.

É neste contexto que durante a Primeira República, consubstancia-se o entendimento de menoridade não mais vinculada a correlações etárias, mas associada ao conceito de marginalidade, situações de abandono ou de delito. O abandono é visto como o prenúncio do risco do delito, justificando o tratamento desta condição como caso de polícia e, portanto, suscetível de vigilância e punição, com vistas à manutenção da ordem então vigente.

Por outro lado, para Coimbra (1998), a adoção do termo “menor” não designava menores de quaisquer classes sociais, mas apenas diferençava um determinado segmento de menores: o pobre. Esta marca ganhou força, enredou-se no imaginário social e se impõe, até hoje, mesmo quando, em 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) aboliu tal terminologia do seu texto legal. Infância e juventude, criança e adolescente são as designações utilizadas em substituição à categoria “menor”.

Assentado nesta imagem de crianças e jovens abandonados, desprotegidos e vulneráveis como elementos perigosos, o Código de Menores de 1979, dando continuidade à associação abandono-pobreza-marginalidade, disciplinou postura institucional que não se limitava apenas à ideia de correção de conduta, mas também – respondendo a uma política de segurança – de reintegração, coadunada com a proposta da Política Nacional do Bem-Estar do Menor (PNBM).

Podemos observar que o modelo que propugnava a salvação do país pela salvação da criança e dos adolescentes, já anteriormente utilizado pelo comissário de vigilância, assumia outro “rosto”, nos anos 60 e 70 do século XX, com a vigência da Doutrina de Segurança Nacional e com o fortalecimento do tecnicismo. Dispositivos “científicos” eram utilizados tanto para classificar quanto para justificar o “tratamento” recomendado, em cada caso, por profissionais de diversos setores, como assistentes sociais, psicólogos, médicos, advogados, dentre outros. A medicina higienista, agora aliada ao judiciário, não media esforços no sentido de purificar a sociedade.

A perspectiva acima apontada gerou um importante impacto na constituição das subjetividades juvenis, em suas identidades, nas suas sociabilidades, de uma maneira geral. Encontramos que, no contexto da doutrina de segurança nacional, tudo o que fugia do padrão instituído era considerado perigoso e subversivo, o que levou ao delineamento de duas categorias de juventudes, aos olhos do poder que as criou: a que subvertia e a danosa. Ambas eram consideradas como perigosas, pois entravam em rota de colisão com as pautas sociais consideradas corretas, no sentido do desenvolvimento almejado, da ordem constituída, da moral estabelecida, da família estruturada.

Em meio a este ranço cultural se gestou uma ligação perversa da juventude pobre à criminalidade, tal como desenvolveu Foucault (1987). Também se engendrou a lógica da punição – ainda em voga e com muita força nos tempos atuais –, que passou a permear as subjetividades daquele que julga, dando forma concreta à falsa ideia de que o ato de proteger passa pelo gesto de encarcerar, vigiar e punir.

Por outro lado, ao institucionalizar a medida punitiva da reclusão, do apartheid como a última solução para lidar com os problemas sociais enfrentados pelo segmento infanto-juvenil, o Estado brasileiro produziu uma visão distorcida do que deveria ser uma prática pedagógica, educativa, desenvolvida para/com os seus jovens e crianças. Em verdade, as políticas com este corte revelaram a assunção formal da desistência, do abandono destes sujeitos pelo Estado e pela sociedade.

Segundo Edson Passetti, a criação da Política Nacional do Bem-Estar do Menor, fundamentada no pensamento da Escola Superior de Guerra, (ESG), mostrou-se, de um ponto de vista, como um eficaz recurso para equacionar o problema social enfrentado – por um lado demonstrando o desenho da ação estatal ante o problema social em si e, por outro, apontando como esta escolha vinha se ajustar aos mecanismos de controle acionados pelo próprio Estado, correspondendo a um determinado perfil de organização política. Como se pode ver, a ação do Estado brasileiro consistiu, desde o princípio, em privilegiar o desenvolvimento de políticas e programas sociais, que consolidaram, em nome da defesa do bem-estar dos ditos infratores, uma conduta intervencionista/autoritária, de natureza higienista, fomentanto um perfil repressor e, ao mesmo tempo, conciliador junto à sociedade – haja vista que um dos objetivos deste comportamento era apresentar uma satisfação à opinião pública, no sentido da paz e da ordem social.

Esta forma de gestão intervencionista revela e reforça a ação burocrático-estatal em uma linha de continuidade, que sustenta e é sustentada pela correlação abandono-pobreza-delinquência, que teve como efeito, desde a era Vargas, o acirramento de implantação de políticas sociais como se fossem de bem-estar no sentido amplo, frequentemente ancoradas em uma perspectiva autoritária de correção, higienização, controle, ordem. Outro aspecto que se constata, na história política do Brasil República, é que, tanto em períodos ditatoriais como em períodos de distensão “democrática”, a intervenção em nome do bem-estar acompanhou o ideal de desenvolvimento, intimamente ligado à noção de segurança, garantindo a proliferação de interesses da burocracia estatal, coadunados, confortavelmente, com o cunho autoritário da gestão da vida.

Como dito, este não foi um fenômeno próprio apenas do contexto repressivo-militar brasileiro. Na atualidade, a despeito dos avanços inegáveis do ECA, por exemplo, o seu texto ainda traz a punição/violência travestida de medida educativa. Sociedade e Estado brasileiros permanecem adotando este tipo de abordagem como legítima, para tratar das realidades infanto-juvenis socialmente produzidas e mais presentes em contextos de pobreza e exclusão. Por decorrência, desmistificam toda a normativa construída em nome da proteção e da promoção de crianças e adolescentes.

Como sabemos, a gestão pública e suas políticas, assim como os demais fenômenos sociais, produzem desdobramentos previsíveis e imprevisíveis, desejados e indesejáveis, que fogem ao controle absoluto dos gestores, e também da sociedade. No nosso entendimento, um dos resultados produzidos pela intervenção estatal de natureza disciplinadora/punitiva – por fim, de violência – foi a contribuição efetiva para a geração de um contexto social propício à real assunção, pelos jovens, do papel violento a eles atribuídos. Nesta perspectiva, os jovens têm protagonizado as cenas que alimentam a mídia espetacular, ora como estratégia final de sobrevivência material, ora como última medida de sobrevivência física, ora como único recurso social disponível de afirmação de suas subjetividades.
 
Sobre a produção de juventudes violenta(da)s
 
Pensar o sujeito, no mundo, implica refletir sobre as relações intersubjetivas no complexo das materialidades da vida, inclusive aquelas de natureza social e política, nas quais interesses diversos estão em constante embate e as posições hegemônicas pontuando o tom das realidades experienciadas. Coimbra (2003), ao abordar o assunto, oferece uma reflexão sobre como os indivíduos são construídos neste processo de embates com o mundo exterior:
 
O cotidiano é esvaziado politicamente; as relações de opressão, as explorações, as diversas formas de dominação são invisibilizadas e atribuídas ao território do psicológico, fazendo parte do psiquismo e da vida interior do sujeito. Com forte apoio de argumentos moralistas [...] transformam-se em conflitos, sonhos, ilusões, fantasias e, mesmo, patologias. Estas, não somente são atribuídas ao indivíduo, mas estendidas especialmente a determinados segmentos sociais, como a pobreza e a todos aqueles que destoam das normas e modelos instituídos (p.7).

Desta perspectiva, aquilo que se produz, socialmente, é retraduzido enquanto responsabilidade individual, consubstanciando, portanto, um processo de vitimização do sujeito. Este agora tem a tarefa solitária de se colocar viável socialmente, uma vez que o problema é de ordem individual. O embate do sujeito, no mundo, dá-se em um front polissêmico, inseguro e desafiador, que dele exige complexas habilidades, talentos e recursos – estes, inclusive de natureza materiais, normalmente assegurados pela inserção, no mundo do trabalho. Para os jovens pobres, inseridos em realidades cruas e dispondo de restritas oportunidades, a tarefa se mostra agigantada.

Da problemática posta, um aspecto se faz mister destacar: o mundo capitalista contém uma tensão imanente. Impõe sua univocidade essencial, seu discurso universal, como única verdade. A “concorrência” é a tônica. Ao mesmo tempo, como um contrafactum, promete que aquele que passar pelo “buraco da agulha” alcançará a plenitude, que ganha o nome de “sucesso”, na linguagem que coloca a perspectiva econômico-financeira enquanto centro do diálogo, e o consumo como canal de intercomunicação. Este diálogo é possibilitado pelo universo das relações trabalhistas, difundindo, de forma cada vez mais intensa, a subjetividade do trabalho formal como aquela que expressa a verdadeira natureza do ser humano, e também como a única possível de se deixar existir.

Neste sentido, contextualizando como tal ideário tem sido alimentado na contemporaneidade, Loïc Wacquant (2005, p.5), nos diz que:
 
Por um lado existe a des-socialização do trabalho, por outro a transformação do Estado, e ambas empurram as pessoas a terem uma vida insegura. Então esta dupla insegurança objetiva, do lado do trabalho e do lado do Estado, que já não protege as pessoas da insegurança trabalhista, cria duas formas de insegurança. Uma é a insegurança social objetiva, causada pelo trabalho assalariado des-socializado, mas há também uma insegurança mental: quando o trabalho é inseguro, os indivíduos não podem mais projetar-se no futuro por não saberem se terão emprego no próximo mês, isso desestabiliza o mundo mental e cria um grande sentimento de ansiedade na sociedade. [...] Isto cria uma grande corrente de insegurança dentro da sociedade, relacionada à insegurança do trabalho e relacionada à não vontade do Estado de proteger dessa insegurança, o que gera uma demanda na população por estabilidade de vida.[grifo nosso] O Estado responde a esta demanda de estabilização fornecendo polícia e políticas penais. O Estado diz "nós não vamos mais dar um trabalho garantido, ou uma renda garantida, ou uma assistência social garantida, porque não é isso que o Estado faz agora, mas daremos um fim à população de rua e aos criminosos dos seus bairros, etc. Responderemos sua demanda por segurança social fornecendo segurança criminal.
 
Para a juventude pobre órfã do Estado e rechaçada pela sociedade, carente das relações familiares como mediação fundamental, sejam elas presentes ou ausentes (nas situações de abandono) – as contingências postas, em grande parte dos casos, são mais agudas e complexas do que ela pode administrar. No momento em que a vida está a lhes exigir definições existenciais (identidade sexual, formas de sobrevivência e de sustento, isto é, "profissionalização", inserção em grupos sociais etc), encontram-se em um contexto no qual existem poucas certezas, muitas indefinições e instabilidades. Estes jovens não sabem se terão comida no dia seguinte, se seus familiares e amigos estarão vivos ou quando serão vítimas da violência urbana, familiar, policial. A vida se torna algo incerto, produto absoluto do momento presente, palco de negociações sumárias, em torno das possibilidades do agora.

A radicalidade da situação posta dificulta o delineamento de um projeto de vida gerador de sentido à existência dos jovens. Retira-lhes qualquer segurança quanto ao futuro, enredados que estão no imediatismo da luta pela sobrevivência. Como não poderia deixar de ser, particularmente, imprime contornos específicos à forma como os jovens vivem e resolvem seus conflitos subjetivos e sociais.

Compungidos a uma determinada inserção social – na qual o ideário existente tem o trabalho como importante mecanismo de afirmação social e, além disso, adotado como critério de normalidade de conduta –, os jovens provindos dos setores empobrecidos se deparam com uma realidade efetiva de ausência de postos de trabalho/emprego, somados à fragilidade pessoal quanto aos requisitos cobrados para assunção das vagas que ainda são oferecidas. Neste mesmo contexto, são acossados a oferecer respostas a si mesmos e à família/comunidade/sociedade acerca da sua contribuição simbólica e material. O tráfico aparece para muitos como o lugar onde podem assumir a condição de sujeito ativo, lugar de ancoragem, de alguma segurança frente ao ambiente geral de insegurança produzida. Enquanto o Estado declina da responsabilidade e a sociedade dá as costas aos jovens pobres, o tráfico os recebe de braços abertos.

A realidade acima considerada tem feito com que os jovens apareçam diretamente implicados na ampla divulgação social, particular e fortemente através da mídia, da cultura da insegurança vivida nos tempos atuais. Termos como “violência”, “terror” e “medo” têm presença inarredável na retórica jornalística sensacionalista brasileira, que identifica a relação entre a sociedade e o crime com um estado de guerra. O crime ressaltado é o crime dos pobres, diga-se, dos jovens pobres. É em relação à “violência” da pobreza que a sociedade se encontra “refém”, “aterrorizada”, “afrontada”.

Em Teresina, encontramos uma situação emblemática. Fato como a aposição de grades, nas aberturas dos pequenos comércios das periferias sustenta o discurso sobre a prisão dos moradores e comerciantes, em função do medo difundido, advindo de ameaças, de boatos de origens incertas e, particularmente, os riscos que dizem correr em relação a grupos de jovens, as ditas ‘gangues’. Normalmente, constam das listas acusatórias dos programas policiais, sendo apontados, publicamente, como algozes de atos de violências na completa ausência de investigação, processo e julgamento.

Na sociedade autoritária, que insiste em retirar a visibilidade de vários segmentos sociais, quando se fala na “pessoa de bem”, faz-se referência à inclusão, à harmonia, ao trabalho e à família normatizada, enfim, realidades de apenas alguns grupos sociais, impostas aos demais. Esta forma societária ideologizada e hegemônica como norma é, para a imprensa e os planejadores da segurança pública, a sociedade, a “boa” sociedade, modelo que uma determinada visão de mundo busca implantar e sustentar, como a forma única de relacionamento entre agentes sociais. A má sociedade é a dos “bandidos”, dos “traficantes” e de todos aqueles que, de algum modo, desvirtuam este padrão de relacionamento social. Quaisquer outros modelos são desautorizados e indesejáveis, embora originários da complexidade desta mesma ordem. Frequentemente resultam da efetividade de ações que tomam corpo, a partir da ausência ou negação de outras práticas sociais pelo modelo hegemônico.

Assim, a síntese é inevitável: a boa sociedade é a dos burgueses, e a má sociedade é a de todos os outros. Aquela “é”, esta “não é”. No entanto, a estas duas construções de sociedade subjaz um jogo entre criador e criatura, no qual a sociedade da ‘maldade’ é gerada e alimentada pela da bondade, por meio de instrumentos econômicos, ideológicos, midiáticos e simbólicos, dentre outros. Além disso, a manutenção da má sociedade é condição sine qua non de sustentação de discursos e práticas da boa sociedade, muitas delas de viés autoritário e violento, para com os grupos ‘inimigos’. Ontem e hoje, diversos destes grupos são formados por jovens pobres das periferias das cidades, e em Teresina não é diferente.

Parte significativa das juventudes – e no sentido aqui tratado, a juventude pobre, seja de forma individual ou grupal, nas ditas ‘gangues’ – é constantemente colocada, no discurso produzido pela normalidade, como protagonista de ações pautadas na violência, como sujeitos causadores do medo e do terror aos moradores da cidade. Acerca da violência social e violência de Estado, que se abate sobre crianças e jovens do Brasil, os discursos da ordem têm pouco a dizer; optam pelo silêncio. Na contingência de tomar alguma medida, diante de eventuais esgarçamentos de pactos de convivência social, as elites agem no sentido da manutenção da lógica autoritária/de punição, como aponta Wacquant: “Já não podem garantir empregos nem assistência social, então o que garantem? Bem, para compensar a falta de legitimidade do Estado, os políticos têm oferecido mais polícia, justiça criminal e prisões.” (2005, p. 5); “o Estado se faz presente, reafirmando sua autoridade no campo penal para compensar a crescente impotência e ausência de poder do Estado em um campo social e econômico. (2005, p. 6).

Mas isso ainda não é tudo. Outra estratégia bastante comum das elites é a trivialização da tragédia social da juventude. Telles (1999) assinala que, em realidades transformadas em paisagens, a pobreza tem sido banalizada, tornada fato palatável com o qual se convive – com um certo desconforto, é verdade –, sem que as responsabilidades individuais e coletivas sejam interpeladas. A banalização da situação de miséria, que transforma os marginalizados em fenômeno natural, sendo explorados sob a marca do espetáculo pela mídia mundial, é, de fato, algo comum e recorrente no cotidiano das cidades. O Brasil se torna notícia, quando chacina seus meni¬nos de rua, quando incendeia pessoas dormindo nos bancos das praças, quando jovens matam jovens em conflitos do tráfico, nos morros brasileiros.

As favelas do Rio de Janeiro são passeio turístico obrigatório. Fazem parte de clips de Michael Jackson, porém, na opurtunidade, consubstanciam uma idéia de cenário e não de realidade crua, experienciada por seus moradores, com todas as feridas e dores individuais e coletivas, muitos deles jovens. Esta transfiguração em cenário irreal ou, se quisermos, hiperreal, esconde, atrás de si, situações e formas de existência subumanas, em contextos vivenciados, cotidianamente, por determinados grupos sociais, ensejando que a criminalidade surja como um elemento-chave, nos processos de sobrevivência física e, mais do que isto, de subjetivação e identificação.

Eis a matriz da chamada incivilidade, posto que, ante este cenário, a pobreza aparece como símbolo de “inferioridade”, de pequenez, de embrutecimento. Aqueles pertencentes a estes núcleos normalmente experimentam lugares muito aquém das regras de igualdade que a formalidade da lei e o exercício do direito deveriam concretizar. Podemos constatar tal afirmação ao analisarmos a violência policial que, na sua aplicação, deixa patente, de público, que nem todos são iguais, quando, dioturnamente, violam-se os mais elementares direitos civis, normalmente, das populações pobres. Ao discutir a grave situação da incivilidade, Santos (2006, p. 334) afirma que:
 
Trata-se da segregação social, através de uma cartografia urbana dividida em zonas selvagens e zonas civilizadas. (...) Nas zonas civilizadas o Estado age democraticamente, como Estado protetor, ainda que muitas vezes ineficaz ou não confiável. Nas zonas selvagens, o Estado age fascisticamente, como Estado predador, sem qualquer veleidade de observância, mesmo aparente do direito. O policial que ajuda o menino das zonas civilizadas a atravessar a rua, é o mesmo que persegue e eventualmente mata o menino nas zonas selvagens.
 
A realidade posta no estado do Piauí e na cidade de Teresina evidencia um quadro similar àquele que preocupa o autor. Da parte do Estado, configura-se a inexistência de políticas públicas de atendimento aos jovens em situação de grave vulnerabilidade – mais especificamente, aqueles que se encontram enredados no tráfico de drogas –, que leve em consideração mínima o seu entendimento de mundo e de vida, os percursos que não escolheram e os processos a que foram compungidos vivenciar. Restam-lhes as políticas de segurança pública, que se orientam pela lógica da panoptia, do triângulo asséptico que liga pobreza à violência e à criminalidade, levando os jovens a um ciclo vicioso de cadeias, penas e violência policial cotidiana. A história já pode demonstrar que esta conduta institucional não resolve o problema da segurança pública e tampouco aqueles de natureza social que vitimam os jovens, mas os expõem fortemente aos valores e regras e ao controle direto do tráfico. Este labirinto engendra realidades de violação variadas, vindas de diversas origens, sem rosto, voz ou nome aparentes, as quais deixam profundas marcas no acontecer das vidas juvenis. No fogo cruzado, os jovens passam a sobreviver como podem, inclusive praticando violências contra si e contra os demais.

É a juventude pobre brasileira e teresinense à deriva, vítima da violência estatal que, ao tempo em que ignora as demandas sociais mínimas postas pela situação de desproteção dos jovens, culpabiliza-os pelas condições de insegurança em que vivemos socialmente, colocando-os na linha de tiro de ações autoritárias e policialescas. Este assunto, no entanto, não dá audiência à mídia do espetáculo. Mudemos de pauta...

REFERÊNCIAS

COIMBRA, Cecília M.B.; NASCIMENTO, Maria Lívia. Jovens pobres: o mito da periculosidade. In. FRAGA, Paulo César Pontes, LULIANELLI, Jorge Atílio Silva (orgs). Jovens em tempo real. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

COIMBRA, Cecilia M.B.; BOCCO, Fernanda; NASCIMENTO, Maria Livia. A segurança criminal como espetáculo para ocultar a insegurança social: entrevista com Loïc Wacquant. Rio de Janeiro: 30 de setembro de 2005. mimeo.

COSTA, Marcondes Brito da. As Subjetividades do Jovem Infrator na passagem pela Liberdade Assistida. 2005. 66f. Monografia (Ciências Sociais).Universidade Federal do Piauí– UFPI, Teresina.

FOCAULT, Michael. Vigiar e punir: a história da violência nas prisões. 8ª ed. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis, RJ: Vozes, 1987.

PASSETTI, Edson. Violentados: Crianças, adolescentes e a justiça. 1ª ed. São Paulo: Editora Imaginário, 1999.

RIZZINI, Irene. O século perdido: raízes históricas das políticas públicas para a infância no Brasil. Rio de Janeiro: Santa Úrsula/Amais, 1997.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A Gramática do Tempo: para uma nova cultura política. 1ª ed. Rio de Janeiro: Cortez Editora, 2006.

SILVA, Valéria. Constituição identitária juvenil: o excesso como produto/resposta ao não-lugar, à efemeridade e à fluidez. Revista Política&Sociedade. Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política. Vol. 5, n° 8. Florianópolis: Cidade Futura, 2006.

TELLES, Vera da Silva. Direitos sociais: afinal do que se trata? Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999.

VELHO, Gilberto. Projeto e Metamorfose: antropologia das sociedades complexas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

MÊS DE REFERÊNCIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA: LADAINHA NOVEMBRO NEGRO

LADAINHA - NOVEMBRO NEGRO
Ladainha: Novembro Negro – Negro Pensa, Negro Chama, Negro Luta !!!
Áureo João. 43. Teresina/PI, Novembro de 2010.

1.
Levanta a cabeça Chico Nêgo, que o branco inimigo nos espreita da moita, dos campos e rochas, dos escritórios e do castelo;
Avisa Manoel que o inimigo do quilombo de lá é o mesmo de cá e de acolá;
Faça a roça, faça a roda; faz a reza, faz a mandinga e faz a luta!
Tenha muita fé em Deus, em Nosso Senhor do Bonfim, em João Batista e Santa Bárbara; pague promessa a São Francisco, romaria a Santa Cruz e preces a Nossa Senhora, mas não perca a fé que é de nós mesmos de nascença e de raiz, que é de nosso saber e de nosso fazer; fé em nossa força própria;
Chame as pretas velhas e os pretos velhos para nos ensinar experiências; as crianças para encantar a roda e limpar da vida a quizila que não é para ficar; os caboclos guerreiros e mensageiros vão na frente, vão abrir caminhos que a luta vai passar;
2.
Acorda Maria, o caminho da roça de quilombo é estreito e tem muita treita, mas caminho feito é para caminhar; quilombo é para quilombar;
Ginga mestre, que nem gato de sete vidas e passarinho ligeiro, mas também joga a vida como cobra coral; não assusta quem não é para assustar; não derruba o que não é para cair e não mata quem não é para morrer;
A luta foi anunciada desde a história cedo e não tem hora exata nem jeito certo para terminar;
Luta começada com negro só acaba quando acabar; só acaba se negro acabar;
Começa na hora e acaba na hora, não antes da hora, nem depois da hora; mas há luta necessária agora!!!
3.
Dobra o joelho Zé!!!
Dança um batuque, um samba de roda, um pagode do morro e de roça, um tambor de crioula e de mina, um reggae Jamaica ou maranhense, uma leseira, uma samba de cumbuca, um baião de Alano do Forró;
Ajoelhe na roda de preto e faça uma reverência ao tambor; cante uma cantiga de negro, uma toada de índio, uma música de branco;
Mas não se curve ao rito do senhor branco etnocêntrico, daquele branco que desbota o significado de nossa tinta, enfraquece nossa força, muda nota de nosso ritmo, estranha nossa ginga, rouba nossa alma, cerca nosso quilombo, nega nossas identidades;
Ainda que seja em tempos de outrora, mesmo que seja na pós-modernidade branca de agora, tão nova e tão antiga;
4.
Assunte reza cantada, reza gemida; reza de amor, reza de guerra; reza benzida e cruzada; reza que levanta negros e encanta negras;
Assunte a reza de agouro e peça agô e axé da proteção de raiz para fechar o corpo;
Negro que conhece a reza não pede bênção e não abaixa a cabeça para qualquer um benzer e abençoar;
Bispo que reza em reza numerada, contada em algarismo, crucifixo de metal com laço no pescoço e amuleto de moedas no bolso, essa reza salva negro morto para morar no céu do senhor, mas não liberta negro vivo aqui na terra; na terra que negro pisa, vive a roda, faz a roça, dança os pontos que pode contar e canta para ser feliz;
Assunte a quizomba que é boa, ria o riso de festa e da luta, ofereça gargalhadas de criança ao vento, mas assunte o endereço do vento que traz a gargalhada que nos agoura má colheita e nos zomba;
5.
Nem toda hóstia oferecida por padre é sagrada, nem todo santos é santo; tem negro novo que suspeita e duvida, tem negro velho que garante;
Água benzida por pastor não é benta para todo negro, nem serve ao banho de toda negra; só sabe quem assunta as águas, só conhece quem sabe a ciência da reza;
O vinho do bispo tem veneno, a pregação é dissimulada, o riso é fingido, sua comida dá remorso e indispõe as gentes; melhor não comer nem beber; negro livre não pede nem aceita, se aceita não gosta;
Ginga de banda, negro; gira de lado que nem besouro mangangá, mas não vire as costas para onde não deve virar;
Mas também não coma comida, não beba bebida e não banhe o banho, com a oferenda oferecida, sem assuntar a reza que lhe faz a encomenda;
6.
Mandinga negro, gira na roda do quilombo mundo; gira o mundo na roda;
Um bode foi sacrificado, seu sangue bebido em oferenda por Capitão-do-mato;
Pássaro que é livre voa para ver o quilombo quilombar;
Sibito que é livre voa como besouro no ar para ver o quilombo de lá, de longe!!!
Voa tiziu, voa pardal, voa azulão, voa canário, voa gavião, voa sabiá, para quilombo quilombar;
7.
A luta não é fácil, mas tem que continuar;
Nos quilombos com nomes de bichos, de caminhos das águas, de plantas, de gente e do santo que houver;
No Quilombo dos Macacos; dos Cavalos; das Onças; das Emas; das Lagoas; do Sumidouro; do Brejão; dos Kalungas; dos Silva; de Conceição das Crioulas; Alcântara; Marambaia; de São João; Santo Antônio; São Joaquim; Santa Maria da Codipi, Irmã Dulce; nos Quilombos de Dandara e Zumbi dos Palmares;
Luta começada por negro só acaba quando acabar;
Luta de negro só acaba se negro acabar;
8.
Não descuida negro, a colheita é boa, mas apenas começou;
Muita eira há de se levantar; há muito que plantar; muita obra que fazer;
Não há rocha dura nos campos que não possa ser quebrada, nem castelo branco que não possa cair; muita coisa plantada, a colheita há de vir,
Regue a rosa, acenda uma vela para o santo, sapeque um jucá e segure o patuá; a mata é grande e a pedreira é certa;
Mas a vereda tem que ser aberta até acabar e só acaba quando a luta acabar, no quilombo do mato, na mata do quilombo, no quilombo da cidade, no quilombo da favela e no quilombo das mentes da gente;
9.
Negro e negra de luta não passam na encruzilhada sem se benzer!
Tem Capitão-do-mato no mato, de toda cor e de toda altura;
Tem Capitão-do-mato na selva de pedra, vestindo terno e formatura;
O senhor da fazenda tá mudado, anda em carro com muitos cavalos, maquiagem no rosto, roupa fina e mais de um celular no bolso;
Mas o senhor e o capitão guardam herança do passado no presente. Continuam vendendo negros, sustentando luxo à nossa custa e controlando coisas de nossa vida;
10.
Tem Capitão-do-mato e Senhor de Engenho, com carta de engenheiro ou de doutor, comandando chefias nas repartições de governo, por merecimento político e experiência comprovada;
Quando o governo açoitava negro, Capitão-do-mato e o Senhor executavam em harmonia, sem duvidar do mando certo. Se o governo diz que respeita negro, intermediários se revoltam; o Capitão-do-mato e o Senhor da Fazenda trancam portas das entradas e de saídas; no engenho e nas repartições do governo;
E, como nos tempos em que andou Zumbi dos Palmares, a Carta de Alforria do quilombo continua muito rara e muito cara; há documento lavrado com a sabedoria de senhor de escravos; tem que passar no agrado de Capitão-do-mato, rubricado por capataz, encaminhado por outro Capitão-do-mato e coordenado por latifúndio, antes que governo possa assinar;
Acontece coisa que negro não pediu para ver. Menino que nem era nascido já carrega barba no rosto; tem negro que ri para não chorar; tem negra que ri e o coração chora;
Mas enquanto senhor de escravo e capitão-do-mato tiverem mando nas fazendas de latifúndio e nas chefias de repartições de governo, negro velho não pode dormir na virada da meia noite; geração nova não pode dormir muito cedo e acordar para a vida de negro muito tarde;
11.
Cuida negro, segura o patuá e entra desconfiado na repartição do Governo, o Capitão-do-Mato de espera em mesa grande, cadeira macia, sala refrigerada; comendo nosso dinheiro e dando risada para negro assistir; muita conversa fiada e pouca tinta na caneta para escrever história de negro;
Povo negro dos quilombos, vilas e favelas, palácios e palafitas, onde negro houver,
Negros e negras têm direitos deste sempre, até de vacilar,
Mas não deve usar o direito de fugir da luta que é sua própria, de derrubar negro que não é para cair, nem matar o que não é para morrer;
O inimigo certo é grande, é sabido, é treiteiro, é poderoso, tem nome e sobrenome desde as capitanias e sesmarias, tem endereço visto, tem a cara limpa e ronda nosso lugar, com armas na mão ou sorriso bonito no rosto e dinheiro nosso no bolso;
12.
Há branco amigo de nossa luta; há branco que luta nossa luta; há branco fingido, traiçoeiro;
Há índio no quilombo, na tribo e no terreiro,
Há negro covarde ou ingênuo, que vacila; a gente não gosta, mas tolera seu direito;
Mas coisa de negro é de negro, luta de negro é de negro; negro faz; negro sabe;
Luta começada por coisa de negro só acaba quando acabar; só acaba quando o motivo acabar.
13.
Cultura de negro também pode ser de branco, se a troca for boa e o branco zelar;
Coisa de branco também pode ser coisa de negro, se negro puder escolher e gostar;
O que é de branco, branco vigia de noite e o dia,
Mas o que é de negro, negro tem que achar, tem que pegar; tem que salvaguardar;
Negro acha a si mesmo; negro se acha na vida e mundo que é seu; e só para de achar quando não houver mais o que achar;
14.
Com as forças de Alá, Jesus Cristo, Buda, Oxalá e Yemanjá,
A cidade é selva de pedra;
Nós estamos aqui e não vamos correr dos perigos,
Na pedreira de ferro e cimento, a justiça de Xangô há de reinar,
E filho seu roda na roda e fora da roda, mas seguro não cai.
15.
Vovó Acotirene tem razão!
Luta entre negros irmãos é importante e, às vezes, necessária e estratégica ou a vaidade determina;
Negro combate com outro negro já nos tempos de Zumbi e Ganga Zumba, mas também nos tempos de agora;
Mas em território de combate com o colonizador branco etnocêntrico, essa luta entre negros não tem negro vencedor; não tem negra rainha; não tem reinado negro que se sustenta;
Luta começada em defesa de negro só acaba quando acabar o que defender; só acaba quando o inimigo verdadeiro recuar e cada lado ficar no seu lugar; cada negro ficar em seu lugar; e cada negro tiver a cota que lhe cabe!!
16.
Luta de negro é luta de quem pode lutar;
Luta de quem ama e respeita a vida, que é bela; ou por causa da morte que ronda;
Mas caminho feito é para caminhar;
Luta começada com negro só acaba quando acabar;
Só acaba quando negro quiser acabar!!!
... ... ...


Axé!!! Axé!!! Axé!!!
Ladainha para nossa reflexão durante o mês de novembro – mês de referência da consciência negra.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

CONTRADIÇÕES DA VIDA - poema, poesia e filosofia

CONTRADIÇÕES DA VIDA


Áureo João. 43. Teresina/PI, 26/10/2010

1.
Eu queria fazer belas poesias, daquelas que encantam as beldades que se guardam em castelos revestidos de granitos, portobello e cerca elétrica; grandes castelos de areia;

Eu queria poetar sobre flores do consumo do clero e da nobreza; daquelas flores que a gente compra em floricultura personalizada; flores de jardim cuidado por jardineiro contrato e assalariado exclusivo, e leão-de-chácara no portão da entrada;

Eu queria saber de meus poemas ostentados em raras molduras, em convites de festas especiais e jazigos glamourosos;

Mas no coração do poeta a flor que brotou é flor de mussambê, de alecrim do campo, de mandacaru, do marmeleiro e do ipê; é flor de roça; é flor de terreiro; encantos que não germinam em granitos nem à sombra de cerca elétrica;

A beldade que encantou o coração de poeta faz poemas na mão, no coração, na alma e na vida do poeta; e dá vida e felicidade ao poeta; anda na sombra de si mesma; caminha a pé pelos caminhos que os povos caminham;

Coração de poeta se encanta com beldade que contempla flor de mussambê, de alecrim do campo, de mandacaru, do marmeleiro e do ipê; flor de roça; flor de terreiro; músicas de passarinho e com o canto do galo; encantos que não germinam em qualquer lugar nem todo mundo pode alcançar.

CARTA DE UM PROFESSOR DOENTE A PROPÓSITO DO SISTEMA CAPES/CNPq/MEC/MCT. ETC

CARTA DE UM PROFESSOR DOENTE A PROPÓSITO DO SISTEMA CAPES/CNPq/MEC/MCT. ETC *




Estou doente...

Produzo mais papéis e máquinas e menos seres humanos, indivíduos! A nossa era se chama “PRODUÇÃO CIENTÍFICA”...

Quanto? Preciso estar “on line” e ligado 24 horas para produzir: 5 artigos por ano, pelo menos 1 Qualis A e os demais podem ser A2, B1 ou B2, mas o resto não interessa; pelo menos 1 livro e um capítulo de livro por ano.

Ah! Não posso esquecer das comunicações em eventos! Devem ser preferencialmente trabalhos completos, publicados nos anais em Congressos Internacionais porque os resumos expandidos e os simples não contam nada na nossa avaliação. E se forem em eventos regionais ou locais menos ainda.

Devo participar de 2 Programas de Mestrado como efetivo e um terceiro como Colaborador.

Devo ministrar 4 ou 5 disciplinas na Graduação, ou se não for assim preciso ter 4 ou 5 turmas, com pelo menos 50 vagas ofertadas para ministrá-las. Muitas das vezes, em espaços que comportariam muito menos... Quantos créditos: 12, 16, 20 ou 24 por semestre?

Devo ministrar também 1 ou 2 disciplinas na Pós-Graduação. Preciso orientar os trabalhos de conclusão de curso (4 ou 5, às vezes só um pouco mais por semestre). Preciso orientar pelos menos dois estudantes de Mestrado por ano... Ah! Eles precisam defender suas dissertações em 24 meses... O ideal já seria defender em 18 meses! E os Co-orientados? Quantos?

Tenho ainda os estágios, os projetos de fomento e de PIBIC. Ainda faltam as comissões e os cargos administrativos!

Precisamos de mais cursos, mais disciplinas e mais estudantes, mais cargos e mais comissões... Assim, ganhamos mais TRABALHO e temos menos VIDA. Meu tempo está acabando... O dia é muito curto e as 24 horas já não me são mais suficientes.

Que tal repensarmos o nosso Calendário? O dia poderia ser um pouco maior e o ano poderia ter mais alguns meses... Puxa! Como seria feliz por isto... PODERIA TRABALHAR MAIS! Muito mais, pois ainda preciso ser bolsista de produtividade. Quero também ser pesquisador!

Antigamente, o Professor era Senhor ou Senhora, um segundo pai ou uma segunda mãe, um tio ou uma tia. Era também um EDUCADOR. Um erudito e um verdadeiro HERÓI. Hoje o professor “brother”, “chapa”, “meu”, “brô” e “véio”, entre outros... Muitos outros!

O bom é que temos mais professores. Muito mais! Por outro lado, temos menos salas e dividimos os nossos 15m2 (chamado gabinete) com mais 3 ou 4 e todos os seus orientandos também. Pelo menos não posso reclamar de solidão no trabalho, nem de monotonia. A vida de Professor é pura agitação... Altas baladas como dizem.

Meu dia de trabalho terminou na Instituição... A jornada de trabalho de um celetista é de 44 horas por semana, com tendência natural de reduzi-la. E a nossa de professor? Isto é muito pouco!

Além da nossa rotina diária, ao chegarmos em casa precisamos continuar TRABALHANDO! Tem as correções de provas, aulas e notas de aulas para serem preparadas, seminários, palestras, etc.. Ou melhor, fazer invencionices para melhoramos a nossa performance para nossos estudantes.

As aulas não são mais atrativas... Eles dizem: melhor seria estar com a Galera ou a Turma... Atender celular, passar minhas mensagens, jogar meus novos games do celular, msn, orkut, facebook, mostrar meu aparelho de celular novinho ... Tem muito mais opções! Perder tempo com estas aulas? Que tédio! Tudo está na Internet mesmo.

Esqueci da elaboração dos projetos! Preciso de recursos financeiros para realizar alguns trabalhos e o prazo se encerra amanhã. Ainda bem que o envio é on line. O sistema, hoje em dia, em alguns editais recebem até 24 horas depois... UFA! Vai dar tempo.

Aqueles que precisam da nossa atenção em casa: mãe, pai, esposa, marido, filha, filho, neta, neto, noiva, noivo, namorada, namorado... Gato, cachorro, peixe, papagaio, periquito... etc? ELES PODEM ESPERAR!

E as minhas necessidades: físicas e fisiológicas? E o meu lazer e meu prazer? Confesso que às vezes me sobra um tempinho para isto tudo, apesar de serem atividades menos nobres.

Preciso dormir, mas tenho que TRABALHAR! Preciso acordar, antes de dormir. Estou doente! Não tenho tempo de ir ao médio... Depois vejo isto! Estou gravemente doente, mas não posso me curar. Preciso TRABALHAR e PRODUZIR mais papéis (textos, livros, artigos, relatórios, etc...). Meu CURRÍCULO LATTES está desatualizado!

Tenho que produzir mais máquinas também, pois o mercado assim exige.
Fico triste no final. A maior parte de toda a minha produção permanece intocável e, na maioria das vezes, enfeitando estantes e gavetas. Poucos realmente lêem aquilo que é fruto de uma vida inteira de total entrega ao sistema. Ou no caso das máquinas, algumas ficam sem emprego.
Ah! Eu não posso me queixar, pois apesar desta pequena carga de trabalho tenho um bom salário.


“Não sois máquinas! Homens é o que sois” é uma famosa frase de Charles Chaplin, ou ainda “O que somos é conseqüência do que pensamos” de Buda. Acredito que isto é coisa do passado... Está fora de moda!

Podemos ver que a geração atual não os conhece, pois seus mais recentes ídolos e sua identidade são diferentes: “Exterminador do Futuro – Arnold Schwarzenegger”, “Rambo – Sylvester tallone”, “Indiana Jones – Harrison Ford”, “007 - Daniel Craig”, etc. Estes são os verdadeiros heróis: imbatíveis, incansáveis e imortais.

Estou doente... Gravemente doente... Incurável...

AQUI JAZ um EX-PROFESSOR que um dia sonhou ser PESQUISADOR.

(*)Prof. Dr. Robério Anastácio Ferreira
Universidade Federal de Sergipe

Departamento de Ciências Florestais
Mestrado em Agroecossistemas
Mestrado em Ecologia e Conservação

Obs.: esta pérola chegou a mim por envio do Professor Puscas, da Universidade Federal do Piauí – UFPI.

domingo, 17 de outubro de 2010

ONTOLÓGICO

Ontológico
Identidade do humano no mundo

Áureo João. 43. Teresina/PI. inspirado em 08.11.2009

Eu quero ser
Eu quero ser o que eu não sou
Eu não quero ser o que sou

Eu quero ser
Um ser divinizado,
Fora do conflito do bem e do mal, onde assim for,

Eu quero ser Deus
Incriado, incausado, atemporal, princípio de princípio, medida de tudo;
Dono de si mesmo, regente e regido em si e por si;

Eu quero ser conhecedor da substância da água, do fogo, dos ventos, do pó e do sopro vital,
Eu quero ter consciência da consciência de ser
Eu quero saber o ser distinguir-se e distinguir-se dos entes mais

Eu quero ser o diabo: Imprevisível, vigilante, auto-observador de si mesmo; temido; aniquilador;
Caminhar nas profundezas das águas, molhar e não se afogar,
Atravessar na chama, dançar com o fogo e não se queimar,
Voar nas tempestades, cair sóbrio, levantar consciente e não se perder de si,

Não podendo ser, eu quero ser
Ser um bom fazedor; ainda que de perguntas, de respostas;
Quem sou? Onde estou? Como estou? Com quem estou?
Ou de si mesmo

Ser o ser que não tem medo de si mesmo.
Não podendo ser além-homem, meta-homem, mais que gente, mais que humano,
Que humano e gente seja, agora e sempre!!!

sábado, 16 de outubro de 2010

OS POBRES - poema, poesia e filosofia

OS POBRES


Áureo João. 43. Teresina/PI, 15/10/2010.

1.
Pobres. Há pobres. Ah! Os Pobres!
Há pobres humildes, oprimidos, sofridos, desvalidos, nunca esquecidos;
Mais que estes só os empobrecidos, excluídos, humilhados e reprimidos, mas igualmente jamais esquecidos!


2.
Há pobres. Os pobres sempre lembrados e amados;
Bispos, padres e missionários rezam aos pobres, clamam pelos pobres, vivem por causa dos pobres!
Os pastores arrebanham os pobres e oram pela existência dos pobres; e fazem obras por causa dos pobres!


3.
Profissões se criam e se sustentam por causa dos pobres;
Instituições políticas, religiosas, filantrópicas, entidades assistencialistas e revolucionárias se edificam em função dos pobres!
O amor aos pobres é notório, há quem conte; é contábil, monetário!


4.
Ah!!! Os pobres!!!
O que seriam os pobres sem os exércitos caridosos, assistencialistas, filantrópicos, missionários e revolucionários – todos por causa dos pobres – sempre vigilantes à sua contagem e contabilidade?!!!
Estes aliviam a dor dos pobres, consolam seus sonhos; nutrem suas vidas; e regam sonhos seus;


5.
Há pobres e há não-pobres,
Toda moeda tem dois lados: os pobres, os empobrecidos e o criador pendulam sob essa lei;
O que seriam os soldados dos exércitos caridosos, assistencialistas, filantrópicos, dedicados em missões por causa dos pobres, sem o exército dos empobrecidos?!! Que vestimentas os cobririam? Que carruagens os transportariam? Que abrigos seriam seus lares?


6.
Há pobres crianças, pobres jovens, pobres idosos!
Há pobres negros, pobres meninas e meninos! Há mendigos!
Mais que estes só os negros, crianças, jovens e idosos empobrecidos, excluídos, humilhados e reprimidos; mas estes também são muito e sempre lembrados, nunca esquecidos!!!


7.
Há pobres em categorias, mas sempre lembrados e amados;
Pronunciados em grandes discursos, reuniões de gente grande e nos colóquios íntimos em diminutivo: “Ah! Meus negrinhos, onde estão a essa hora!!!?”; “Ah! Minhas pobres criancinhas de rua, abandonadas, onde estão se protegendo desse temporal e do frio?” “Ah! Meus velhinhos”; “Meus moradores de rua”; “meus faveladinhos”!!! "Meus quilombolinhas"...
Mais que isto só as arrecadações recolhidas por causa dos pobres!


8.
Há pobres na cidade, no espaço rural, nos quilombos e no coração de florestas; todos sempre lembrados e nunca esquecidos!
Juntando todos são muitos, mas há quem os conte; é contábil, monetário;
Mais que estes todos juntos só o poder detido, escudado, protegido, dominado, vigiado e mobilizado por aqueles que vivem por causa dos pobres!


9.
Há fé absurda em defesa dos pobres!
Se os pobres não vêm até a fonte da fé dos exércitos que amam e defendem a vida por causa dos pobres, a fé vai aos pobres, até àqueles empobrecidos, excluídos, humilhados, das ruas, das favelas, da pobreza rural, dos quilombos e até àqueles do coração da floresta;
Mais que essa fé só a fé na vida vivida por causa dos pobres!!!


10.
Há pobres que nascem!!! Há não-pobres que vivem porque nascem os pobres!
Há pobres que são abortados, ainda que seja árduo o sacrifício dos exércitos para evitar esse infortúnio! Há perdas incontáveis, mas há quem as conte; é contábil, monetário;
Maior que esse sacrifício só a esperança na continuidade da vida dos pobres e a dor pela perda por causa dos pobres abortados!


11.
Há pobres que dormem a vida, por causa da vida de empobrecidos;
Mas toda moeda tem dois lados: os pobres, os empobrecidos e o criador pendulam sob essa lei;
Mais que isso só os sonhos dos empobrecidos, sonhados em muitos, capazes de acordar do sono algoz que lhe dorme a vida empobrecida...
... ... ...