HÁ PEDRAS
Autor: Áureo João de Sousa
Teresina/PI. 21.Fev.2010
Há pedras, cantos, contos, encontros e encantos,
Há pedras em cantos,
Há pedras com cantos,
Há cantos, contos, encontros e encantos em pedras.
Há pedras,
pedras em contos,
contos em pedras,
pedras que cantam
Há encantos nos cantos das pedras,
Há seres que cantam nas pedras;
Nos cantos daspedrasquecantam os contos dos cantos,
faz conto, canto, encanto e encontro, das pedras.
Há pedras filosóficas, meteóricas, metafóricas e metafísicas
Há pedras mitológicas e alucinógenas,
Há pedras em cores, colorizadas e sem cores,
Há pedras simplesmente pedras, porque o são.
Há pedras ao Vento,
Há pedras ao Fogo,
Há pedras ao Mar,
Há pedras em Terra,
Há pedras sem Lugar, e lugar sem pedra.
Há pedras, sem se ver pedras, sem haver pedras;
Há vida sem pedras, pedras sem vida,
Há pérolas; Vidas em pedras,
Vida só de pedras.
Há pedras em Corações,
Há corações de pedras,
Há pedras em pedras,
Há pedras além-de-pedras.
Há pedras jogadas na Lua,
Há pedras encantadas em Águas,
Há encontros das águas em pedras,
Há encantos da Lua nas águas das pedras.
Há pedras,
Há fadas,
Há contos, cantos e encontros,
Há Contos de Fadas nos encantos das pedras.
Há rosas entre as pedras,
Há rosas em relevo de pedras,
Há rosas de pedras,
Há pedras rosas.
Há pedras preciosas, que nos são inalcançáveis;
Há pedras não-preciosas, que nos são inestimáveis e preciosas;
Há pedras de quilates,
Há pedras de quilombos.
Há pedras em sal,
Pedras em calcanhares,
Pedras em colares,
Há pedras fundamental e inaugural.
Há pedras históricas,
Há pedras em Serra da Capivara,
Há Sete Cidades em pedras;
Há Cidades de Pedras que cantam, encantam e contam vidas.
Há pedra negra sagrada, em Meca;
Há pedras que guardam mistérios em Jerusalém,
Há pedras que unem a base ao cume, o cume ao cume;
Há pedras que ligam o sagrado ao sagrado; o sagrado ao profano; e o profano ao profano.
Há perdas no meio de caminhos, e são obstáculos que nunca se remove nem se esquece;
Há caminhos em meio das pedras, que nos afastam de obstáculos e nos elevam;
Há caminhos só de pedras, e são almejados pelo Bem e por sua Justiça;
Há caminhos e há pedras.
Há pedra eu,
Há pedra tu,
Há pedra nós;
Quantas pedras, contos, cantos, encontros e encantos,
Há de haver eu, tu, nós, enquanto houver pedras, caminhos e rosas.
REFLEXÃO:
1.Você tem algum tipo de pedra em sua existência?
2.Quais são os significados das pedras em sua vida?
3.O que seria de nós sem as pedras?
domingo, 21 de fevereiro de 2010
domingo, 14 de fevereiro de 2010
CORPO - poema, poesia, filosofia
CORPO
Autor: Áureo João de Sousa.
Teresina – PI, 13.02.2010
1.
Carrego um rosto,
Que tem olhos de uma cor, circunferência e área expostas,
Que tem nariz com uma estrutura e uma escultura,
Que tem boca e beiços com aberturas, comprimentos e espessuras,
Que tem geometria, com relevos, volume, texturas e simetrias;
Rosto, que não é do meu gosto.
2.
Sustento mãos,
Que produzem, organizam ou fazem seu oposto, se eu quiser;
Que acolhem, abraçam, sentem, ou afastam, conforme minha escolha;
Que expressam, indicam, cumprimentam, distinguem e me identificam,
Que podem ostentar jóias e ornamentos preciosos, raros ou simples manufaturas,
Não obstante, tem contornos, relevos, coberturas ou dimensões que me dão pouco gosto ou, mesmo, mau gosto.
3.
Ando sobre pés,
Que me suportam, com peso e massa do corpo que carrego, ainda que reclame;
Que me levam a lugares rotineiros e diferentes, simples ou sofisticados, comuns ou exclusivos;
Que podem deslizar enquanto danço, nado ou brinco,
Que podem determinar minha defesa pessoal, diante de perigos, por fugas ou ataques;
Mas, parecendo-me não ser de minha pertença mesma, rejeitam calçados mágicos, de sofisticados acabamentos ou de raro gosto, que encantam meu espírito e, sem dúvida, seriam do agrado de muitos e da inveja de outras espécies.
4.
Componho pernas, braços e troncos,
Que exibem formas, consistências e me causam muitos agrados,
Que tomam proporções físicas e comportam valores estéticos, ora controversos, ora confortáveis; Que me dão presença e diferença entre os outros,
Que me plasmam numa identidade pessoal,
mas me negam a vestimenta que desejo, o acessório que me agrada, no desenho que pretendo, e no tamanho que é meu gosto.
5.
Carrego um corpo, profano e sagrado,
Que nu e só, e solto, diante do espelho,
Vejo formas, geometrias, assimetrias e expressões de artes,
Que não estudei na escola,
Que não aprendi a admirar,
Que me pesa em tolerar e, embora não seja desgosto, não me é do melhor dos gostos.
6.
Que fizeram a Deus, autor da criatura,
Que guarda e retém o sopro vital, por seus incriados modos,
Que anima a vida, já no primeiro encontro com o corpo todo, ao nascer,
Que Lhe pudera abalar a onisciência, onipotência e onipresença, ainda que em brevíssima distração divina,
Que fizera entrar e andar o espírito que sou no lugar-corpo que não sou de bom gosto,
Pois sendo Deus inteligência pura e em sua plena vigilância, como pode ter errado a sintonia de gostos deste espírito e deste corpo? Ou, por mesma inteligência, fizera a seu propósito?
7.
Que fizeram à Natureza, poderosa e criadora,
Que, sendo mãe, possa-lhe ter causado arrogo,
Entre o criador e a criatura,
E, por obra final, tenha feito por si mesma, seu próprio gosto,
Que, sendo-me mãe soberba, pretenderia alguma vingança ou protesto comigo?
Deixou-me um rosto, um corpo, que chego até sentir vergonha, pois não me é de alto gosto.
8.
Que fizeram aos sábios humanos, inventores e mantenedores das ciências, das culturas, dos ídolos, das coisas, do mercado, do consumo, dos significados e da ressignificação de cada um de seus inventos?
Que fizeram aos artistas, que moldaram as artes e as estéticas, concretas e subjetivas, frias e quentes, em discursos incontáveis?
Que fizeram aos mitos e filósofos, que plasmaram sujeitos e seus imaginários, inventaram o belo e o não-belo; ou desnudaram-lhes!
Que predicaram gostos não antes vistos, nem percebidos, intuídos ou consumidos,
Que sendo, meu espírito, consumidor de suas criações, não pode consumir um corpo que lhe dá mais belos gostos de ter, andar, vestir, mostrar e interagir com outros espíritos de seu tempo;
Que sendo justapostos, meu espírito e meu corpo, não possam sintonizar idêntico rosto, mesmo corpo e mesmos gostos!
9.
Tenho um corpo, sensível e idealizado,
Que é cárcere de um espírito, de um imaginário, de um tempo, de um lugar; ou, do contrário, prisioneiro destes;
Que me causa medo de ouvi-lo, de auscultá-lo autêntico;
Sinto que se pudesse falar por si mesmo, em minha ofensa, haveria de me investigar perante Deus, à Natureza, aos humanos e às coisas:
Por que este espírito encarnou-se em um corpo que não lhe pode ser justo, próprio, adequado e merecido?
Por que este espírito habita em um corpo que não lhe pertence?
10.
Suplico a Deus e às forças dos entes sobrenaturais! Se o feito for de seu ofício, para que, em próximas reencarnações, façam-me serviço completo, perfeito aos critérios divinos e aos olhos e aos gostos dos entes mortais de seu tempo e lugar.
Imploro perante a Natureza, mãe e regente dos fenômenos físicos e vitais! Se a obra for de sua arte, para os acabamentos que couber em seu dever;
Apelo às ciências: ocultas, metafísicas, positivas, clínicas e estéticas! Se a incisão couber a seus instrumentos;
Aconselho-me a os entes humanos, meus pares mortais e inacabados! E, por último destes, a mim mesmo que, talvez, por arbítrio livre e singular, seja a primeira e última instância que me cabe recorrer:
O que há de se fazer? Que feito há de ser providência última e primeira?
Mudar o corpo para agradar ao espírito ou mudar o espírito? Ou o imaginário coletivo que embriaga o corpo singular e seu espírito, tornando-os irreconhecíveis? E que medidas serão justas, ao corpo e ao espírito para, a um só tempo, alinhar corpo, espírito e gosto?
/////////////////
REFLEXÃO:
Autor: Áureo João de Sousa.
Teresina – PI, 13.02.2010
1.
Carrego um rosto,
Que tem olhos de uma cor, circunferência e área expostas,
Que tem nariz com uma estrutura e uma escultura,
Que tem boca e beiços com aberturas, comprimentos e espessuras,
Que tem geometria, com relevos, volume, texturas e simetrias;
Rosto, que não é do meu gosto.
2.
Sustento mãos,
Que produzem, organizam ou fazem seu oposto, se eu quiser;
Que acolhem, abraçam, sentem, ou afastam, conforme minha escolha;
Que expressam, indicam, cumprimentam, distinguem e me identificam,
Que podem ostentar jóias e ornamentos preciosos, raros ou simples manufaturas,
Não obstante, tem contornos, relevos, coberturas ou dimensões que me dão pouco gosto ou, mesmo, mau gosto.
3.
Ando sobre pés,
Que me suportam, com peso e massa do corpo que carrego, ainda que reclame;
Que me levam a lugares rotineiros e diferentes, simples ou sofisticados, comuns ou exclusivos;
Que podem deslizar enquanto danço, nado ou brinco,
Que podem determinar minha defesa pessoal, diante de perigos, por fugas ou ataques;
Mas, parecendo-me não ser de minha pertença mesma, rejeitam calçados mágicos, de sofisticados acabamentos ou de raro gosto, que encantam meu espírito e, sem dúvida, seriam do agrado de muitos e da inveja de outras espécies.
4.
Componho pernas, braços e troncos,
Que exibem formas, consistências e me causam muitos agrados,
Que tomam proporções físicas e comportam valores estéticos, ora controversos, ora confortáveis; Que me dão presença e diferença entre os outros,
Que me plasmam numa identidade pessoal,
mas me negam a vestimenta que desejo, o acessório que me agrada, no desenho que pretendo, e no tamanho que é meu gosto.
5.
Carrego um corpo, profano e sagrado,
Que nu e só, e solto, diante do espelho,
Vejo formas, geometrias, assimetrias e expressões de artes,
Que não estudei na escola,
Que não aprendi a admirar,
Que me pesa em tolerar e, embora não seja desgosto, não me é do melhor dos gostos.
6.
Que fizeram a Deus, autor da criatura,
Que guarda e retém o sopro vital, por seus incriados modos,
Que anima a vida, já no primeiro encontro com o corpo todo, ao nascer,
Que Lhe pudera abalar a onisciência, onipotência e onipresença, ainda que em brevíssima distração divina,
Que fizera entrar e andar o espírito que sou no lugar-corpo que não sou de bom gosto,
Pois sendo Deus inteligência pura e em sua plena vigilância, como pode ter errado a sintonia de gostos deste espírito e deste corpo? Ou, por mesma inteligência, fizera a seu propósito?
7.
Que fizeram à Natureza, poderosa e criadora,
Que, sendo mãe, possa-lhe ter causado arrogo,
Entre o criador e a criatura,
E, por obra final, tenha feito por si mesma, seu próprio gosto,
Que, sendo-me mãe soberba, pretenderia alguma vingança ou protesto comigo?
Deixou-me um rosto, um corpo, que chego até sentir vergonha, pois não me é de alto gosto.
8.
Que fizeram aos sábios humanos, inventores e mantenedores das ciências, das culturas, dos ídolos, das coisas, do mercado, do consumo, dos significados e da ressignificação de cada um de seus inventos?
Que fizeram aos artistas, que moldaram as artes e as estéticas, concretas e subjetivas, frias e quentes, em discursos incontáveis?
Que fizeram aos mitos e filósofos, que plasmaram sujeitos e seus imaginários, inventaram o belo e o não-belo; ou desnudaram-lhes!
Que predicaram gostos não antes vistos, nem percebidos, intuídos ou consumidos,
Que sendo, meu espírito, consumidor de suas criações, não pode consumir um corpo que lhe dá mais belos gostos de ter, andar, vestir, mostrar e interagir com outros espíritos de seu tempo;
Que sendo justapostos, meu espírito e meu corpo, não possam sintonizar idêntico rosto, mesmo corpo e mesmos gostos!
9.
Tenho um corpo, sensível e idealizado,
Que é cárcere de um espírito, de um imaginário, de um tempo, de um lugar; ou, do contrário, prisioneiro destes;
Que me causa medo de ouvi-lo, de auscultá-lo autêntico;
Sinto que se pudesse falar por si mesmo, em minha ofensa, haveria de me investigar perante Deus, à Natureza, aos humanos e às coisas:
Por que este espírito encarnou-se em um corpo que não lhe pode ser justo, próprio, adequado e merecido?
Por que este espírito habita em um corpo que não lhe pertence?
10.
Suplico a Deus e às forças dos entes sobrenaturais! Se o feito for de seu ofício, para que, em próximas reencarnações, façam-me serviço completo, perfeito aos critérios divinos e aos olhos e aos gostos dos entes mortais de seu tempo e lugar.
Imploro perante a Natureza, mãe e regente dos fenômenos físicos e vitais! Se a obra for de sua arte, para os acabamentos que couber em seu dever;
Apelo às ciências: ocultas, metafísicas, positivas, clínicas e estéticas! Se a incisão couber a seus instrumentos;
Aconselho-me a os entes humanos, meus pares mortais e inacabados! E, por último destes, a mim mesmo que, talvez, por arbítrio livre e singular, seja a primeira e última instância que me cabe recorrer:
O que há de se fazer? Que feito há de ser providência última e primeira?
Mudar o corpo para agradar ao espírito ou mudar o espírito? Ou o imaginário coletivo que embriaga o corpo singular e seu espírito, tornando-os irreconhecíveis? E que medidas serão justas, ao corpo e ao espírito para, a um só tempo, alinhar corpo, espírito e gosto?
/////////////////
REFLEXÃO:
1.Já lhe ocorreu perceber inconformidades entre seu corpo e seu espírito; entre a expressão manifesta em seu corpo e o discurso do imaginário coletivo que influencia seu ambiente sociocultural?
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
A COISA E A COISIFICAÇÃO HUMANA - poema, poesia, filosofia
A COISA E A COISIFICAÇÃO HUMANA
Autor: Áureo João de Sousa
Teresina/PI, 10.02.2010
Hoje, eu adquirir uma Coisa.
É bela; assim eu aprendi a adorá-La;
É valiosa; por isso guardo e A protejo com segurança e vigilância permanentes;
É exclusiva, singular, apesar de não parecer;
Veio ao mundo para mim; ou melhor, eu estou neste mundo para reverenciá-La!!!
Hoje, eu tenho uma Coisa.
É divina em mim;
É tão intensa Sua presença em mim que parece que Ela é que tem a mim;
É fortemente desejada por outras pessoas também, mas nem todas A tem; por isso, devo enaltecê-La, exibi-La, sempre;
É fascinante fonte de poder e atração mágica; por isso, devo reservá-La, escondê-La, para não perder sua exclusividade comigo, sempre;
Hoje, eu recebi a graça de uma Coisa. Posso sentir. Sinto!
É uma Coisa que nutre minhas alegrias cotidianas;
Com Ela, sinto ânimos por causa de Sua companhia;
Com Ela Mesma, também sinto medos, por causa do que representa Sua Companhia Mesma;
Toma-me o medo de não adorá-La o suficiente para merecê-La;
Ontem, minha vida se fazia sem Sua presença onipotente, onisciente, onipresente;
Sem tê-La em minha alma e em meus pensamentos, pobre de mim, não sabia da suma importância dessa Coisa em minha existência;
Tal como Deus, senão Ele mesmo inefável, oferece-me os desígnios de proteção e perigo;
Frágil criatura, tenho medo de que minha devoção não Lhe seja da medida requerida;
Obediente, sob proteção e ameaça de sua divina força, aumento minha adoração para suplicar e merecer a presença de seu espírito e de suas obras em minha alma, em meus pensamentos, em minha comida, em minha bebida, em minhas vestes, em meu abrigo; em meu ser, saber e fazer no mundo;
Amanhã, minha vida será em dedicação maior e melhor à Suma Coisa; senão criadora de mim, mas senhora de meu destino;
Em Sua devoção, eu Lhe farei oferenda todos os dias de minha vida;
Eu Lhe oferecerei valores maiores que todos os dízimos das religiões antecedentes,
Eu Lhe oferecerei meu suor, meu sangue, meu trabalho, minha inteligência;
Eu Lhe farei sacrifício maior do que fizeram Moisés e Abraão a vosso Deus; não só um filho primogênito ou um cordeiro, mas todos os meus filhos varões e as filhas, de todas as esposas, mais as esposas também; e os filhos dos filhos e das filhas; os ancestrais e os descendentes; e os carneiros e animais outros.
Amém!
Manifesto de coisificação, Deus mais poderoso não se revela, religião maior não há;
Todas as devoções e oferendas são pequenas aos Seus pés,
Verossímil ao Uno, tudo agregado em minha vida procede da emanação de seu poder,
No leito dessa processão, presto-Lhe louvor com fé absurda até que a morte me abata;
Mas quando eu morrer, quero meu corpo embalado em tecidos e ornamentos que possam Lhe guardar referência e fiel reverência; e meu túmulo ostentará sua representação, para contemplação dos vivos.
Que assim seja!
Coisa de destino infalível,
Dobro-me ao Seu divino determinismo dado a este mundo, por mérito ou castigo;
Meus dias todos começarão e encerrarão assim, de modo sempre previsível em Seu culto,
Assim seja para sempre, salvo este mundo como tal se acabe, por intempéries naturais ou por desobediência própria do gênio humano inacabado, inquieto, insatisfeito e imprevisível na História; dessa crise, muitas divindades haverão de mudar de lugar; A Coisa, certamente, haverá de ocupar outro plano.
Autor: Áureo João de Sousa
Teresina/PI, 10.02.2010
Hoje, eu adquirir uma Coisa.
É bela; assim eu aprendi a adorá-La;
É valiosa; por isso guardo e A protejo com segurança e vigilância permanentes;
É exclusiva, singular, apesar de não parecer;
Veio ao mundo para mim; ou melhor, eu estou neste mundo para reverenciá-La!!!
Hoje, eu tenho uma Coisa.
É divina em mim;
É tão intensa Sua presença em mim que parece que Ela é que tem a mim;
É fortemente desejada por outras pessoas também, mas nem todas A tem; por isso, devo enaltecê-La, exibi-La, sempre;
É fascinante fonte de poder e atração mágica; por isso, devo reservá-La, escondê-La, para não perder sua exclusividade comigo, sempre;
Hoje, eu recebi a graça de uma Coisa. Posso sentir. Sinto!
É uma Coisa que nutre minhas alegrias cotidianas;
Com Ela, sinto ânimos por causa de Sua companhia;
Com Ela Mesma, também sinto medos, por causa do que representa Sua Companhia Mesma;
Toma-me o medo de não adorá-La o suficiente para merecê-La;
Ontem, minha vida se fazia sem Sua presença onipotente, onisciente, onipresente;
Sem tê-La em minha alma e em meus pensamentos, pobre de mim, não sabia da suma importância dessa Coisa em minha existência;
Tal como Deus, senão Ele mesmo inefável, oferece-me os desígnios de proteção e perigo;
Frágil criatura, tenho medo de que minha devoção não Lhe seja da medida requerida;
Obediente, sob proteção e ameaça de sua divina força, aumento minha adoração para suplicar e merecer a presença de seu espírito e de suas obras em minha alma, em meus pensamentos, em minha comida, em minha bebida, em minhas vestes, em meu abrigo; em meu ser, saber e fazer no mundo;
Amanhã, minha vida será em dedicação maior e melhor à Suma Coisa; senão criadora de mim, mas senhora de meu destino;
Em Sua devoção, eu Lhe farei oferenda todos os dias de minha vida;
Eu Lhe oferecerei valores maiores que todos os dízimos das religiões antecedentes,
Eu Lhe oferecerei meu suor, meu sangue, meu trabalho, minha inteligência;
Eu Lhe farei sacrifício maior do que fizeram Moisés e Abraão a vosso Deus; não só um filho primogênito ou um cordeiro, mas todos os meus filhos varões e as filhas, de todas as esposas, mais as esposas também; e os filhos dos filhos e das filhas; os ancestrais e os descendentes; e os carneiros e animais outros.
Amém!
Manifesto de coisificação, Deus mais poderoso não se revela, religião maior não há;
Todas as devoções e oferendas são pequenas aos Seus pés,
Verossímil ao Uno, tudo agregado em minha vida procede da emanação de seu poder,
No leito dessa processão, presto-Lhe louvor com fé absurda até que a morte me abata;
Mas quando eu morrer, quero meu corpo embalado em tecidos e ornamentos que possam Lhe guardar referência e fiel reverência; e meu túmulo ostentará sua representação, para contemplação dos vivos.
Que assim seja!
Coisa de destino infalível,
Dobro-me ao Seu divino determinismo dado a este mundo, por mérito ou castigo;
Meus dias todos começarão e encerrarão assim, de modo sempre previsível em Seu culto,
Assim seja para sempre, salvo este mundo como tal se acabe, por intempéries naturais ou por desobediência própria do gênio humano inacabado, inquieto, insatisfeito e imprevisível na História; dessa crise, muitas divindades haverão de mudar de lugar; A Coisa, certamente, haverá de ocupar outro plano.
Nesse caos, não escapará, quem viver, de tensões sobre as identidades de Deus, dos humanos e das coisas, e o lugar regido por cada um ente e cada coisa.
Aleluia!
REFLEXÃO:
Aleluia!
REFLEXÃO:
1.A coisa, a mercadoria, o objeto de consumo capitalista, hoje, é uma Divindade poderosa, perante a qual dispomos nossas vidas, em sua oferenda, todos os dias, de modo tão intenso que somos acometidos de sofrimentos quando, em uma data apenas, deixamos de viabilizar sua oferenda requerida, seja na sua forma objetivada, materializada, seja em suas formas subjetivas e intersubjetivas.
2.Você presta adoração para alguma Coisa?
domingo, 7 de fevereiro de 2010
CONTRADIÇÕES DE SABEDORIAS - poema, poesia, filosofia
Contradições de sabedorias
Autor: Áureo João de Sousa.
Teresina - PI.
Eu não queria usar drogas, mas
A família me acalentou e me saciou com drogas,
A religião me doutrinou com drogas,
A escola me ensinou drogas,
A ciência me prescreveu drogas,
O mercado me vendeu drogas.
Eu consumi todas as drogas, sem escolha,
Exceto as que eu, alquimista, decantei, refutei, neguei, transmutei, transcendi,
Retribui ou devolvi,
Sem saber ou sabendo...
Eu não queria fumar, mas fumei e senti prazer;
Eu não queria beber, mas bebi com alegria e sem moderação;
Eu não queria ser inconveniente, mas eu xinguei, blasfemei, injuriei;
Eu não queria cometer pecados, mas dei vazão à ira, à inveja, à gula, à luxúria, à cobiça, à mentira, à preguiça, ao consumismo.
Eu queria ser solidário, mas me elegi ao centro do universo; cultuei a mim mesmo;
Eu queria ser puro e divino, mas adorei as coisas mundanas, amei pessoas, cativei mitos e coisas; zelei por minhas aparências, sem remorsos;
Eu queria viver no mundo das divindades, mas incorporei-me e me identifiquei com as fantasias materiais, comi carne de porco e bebi sangue de animais,
Eu queria estar entre os mais sábios, mas foram os ignorantes e os menos sábios que mais me ensinaram sobre os sábios e suas sabedorias; e não me arrependo;
Eu ouvi a mensagem de Cristo,
li o Alcorão de Alá e Mohammad,
meditei com Buda, Shiva, Khrisna e Brahma;
irradiei-me com Oxalá e Iemanjá, conversei com Lao, dancei com o Deus Sol e Tupã, dialoguei com o Profeta Gentileza,
mas não me lembrei de nenhum Deles, quando parecia razoável fazê-lo, sem me causar auto-flagelo;
Eu queria a limpeza do corpo, mas dormi sem banhar, sem escovar os dentes e sem lavar as mãos;
Eu queria ser um humano, mas comi como os bichos, dormi como bichos, amei e reproduzi como os bichos; vivi um bicho, sem queixar do presente, do passado e fiz o presente;
Estudei ciências, filosofias e teologias; decorei nomes e renomes de cientistas, profetas, poetas e mitos; citei palavras, frases, textos e tratados, mas não usei suas teorias, comprovações, especulações, nem milagres,
Eu me tornei discípulo de gurus de todas as espécies, mas resolvi a vida em pares com quem não depende de adorações e aplausos;
Eu queria escrever livros de todos os gêneros, mas foi a vida que me escreveu contos, cantos, comédias, tragédias, romances, encontros e encantos;
Contemplei cada um em seu tempo e seu lugar; vivi;
Recitei poemas famosos e anônimos;
cantei prosas, ouvi cantos e contos;
vi tragédias e comédias,
Sem querer ou querendo.
Eu queria ser pensador.
Não pensei.
Matutei-me; auscultei-me; assuntei o mundo
Não nasci pensador,
Não me fiz pensador,
Mas inquietei-me assuntador do mundo
Assuntando e assuntado.
///////////////////////////////////////////////////////////
Reflexão:
1.Por que eu, sabendo o que devo ser e o que devo fazer, do ponto de vista da racionalidade ocidental predominante, do contrário, faço exatamente o que não devo ser nem fazer?
2.Por que eu desejo algo e sou tentado a fazer o contrário?
1.o que come, bebe (o homem animal)
2.estudos; educação (o homem intelectual)
3.espiritualidade; religião (a dimensão com a espiritualidade)
Autor: Áureo João de Sousa.
Teresina - PI.
Eu não queria usar drogas, mas
A família me acalentou e me saciou com drogas,
A religião me doutrinou com drogas,
A escola me ensinou drogas,
A ciência me prescreveu drogas,
O mercado me vendeu drogas.
Eu consumi todas as drogas, sem escolha,
Exceto as que eu, alquimista, decantei, refutei, neguei, transmutei, transcendi,
Retribui ou devolvi,
Sem saber ou sabendo...
Eu não queria fumar, mas fumei e senti prazer;
Eu não queria beber, mas bebi com alegria e sem moderação;
Eu não queria ser inconveniente, mas eu xinguei, blasfemei, injuriei;
Eu não queria cometer pecados, mas dei vazão à ira, à inveja, à gula, à luxúria, à cobiça, à mentira, à preguiça, ao consumismo.
Eu queria ser solidário, mas me elegi ao centro do universo; cultuei a mim mesmo;
Eu queria ser puro e divino, mas adorei as coisas mundanas, amei pessoas, cativei mitos e coisas; zelei por minhas aparências, sem remorsos;
Eu queria viver no mundo das divindades, mas incorporei-me e me identifiquei com as fantasias materiais, comi carne de porco e bebi sangue de animais,
Eu queria estar entre os mais sábios, mas foram os ignorantes e os menos sábios que mais me ensinaram sobre os sábios e suas sabedorias; e não me arrependo;
Eu ouvi a mensagem de Cristo,
li o Alcorão de Alá e Mohammad,
meditei com Buda, Shiva, Khrisna e Brahma;
irradiei-me com Oxalá e Iemanjá, conversei com Lao, dancei com o Deus Sol e Tupã, dialoguei com o Profeta Gentileza,
mas não me lembrei de nenhum Deles, quando parecia razoável fazê-lo, sem me causar auto-flagelo;
Eu queria a limpeza do corpo, mas dormi sem banhar, sem escovar os dentes e sem lavar as mãos;
Eu queria ser um humano, mas comi como os bichos, dormi como bichos, amei e reproduzi como os bichos; vivi um bicho, sem queixar do presente, do passado e fiz o presente;
Estudei ciências, filosofias e teologias; decorei nomes e renomes de cientistas, profetas, poetas e mitos; citei palavras, frases, textos e tratados, mas não usei suas teorias, comprovações, especulações, nem milagres,
Eu me tornei discípulo de gurus de todas as espécies, mas resolvi a vida em pares com quem não depende de adorações e aplausos;
Eu queria escrever livros de todos os gêneros, mas foi a vida que me escreveu contos, cantos, comédias, tragédias, romances, encontros e encantos;
Contemplei cada um em seu tempo e seu lugar; vivi;
Recitei poemas famosos e anônimos;
cantei prosas, ouvi cantos e contos;
vi tragédias e comédias,
Sem querer ou querendo.
Eu queria ser pensador.
Não pensei.
Matutei-me; auscultei-me; assuntei o mundo
Não nasci pensador,
Não me fiz pensador,
Mas inquietei-me assuntador do mundo
Assuntando e assuntado.
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Reflexão:
1.Por que eu, sabendo o que devo ser e o que devo fazer, do ponto de vista da racionalidade ocidental predominante, do contrário, faço exatamente o que não devo ser nem fazer?
2.Por que eu desejo algo e sou tentado a fazer o contrário?
1.o que come, bebe (o homem animal)
2.estudos; educação (o homem intelectual)
3.espiritualidade; religião (a dimensão com a espiritualidade)
sábado, 23 de janeiro de 2010
QUANTA
QUANTA
O que nos diz esta música cantada por Gilberto Gil?
Quanta do latim
Plural de quantum
Quando quase não há
Quantidade que se medir
Qualidade que se expressar
Fragmento infinitésimo
Quase que apenas mental
Quantum granulado sem mel
Quantum ondulado sem sal
Mel de urânio, sal de rádio
Qualquer coisa quase ideal
Cântico dos Cânticos
Quântico dos quânticos
Canto de louvor
De amor ao vento
Arte Vento do ar
Balançando o corpo da flor
Levando o veleiro pro mar
Vento de calor
De pensamento em chamas
Inspiração
Arte de Criar o saber
Arte, descoberta, invenção
Teoria em grego quer dizer
O ser em contemplação
Cântico dos Cânticos
Quântico dos quânticos
Sei que a arte é irmã da ciência
Ambas filhas de um Deus fugaz
Que faz num momento
E no mesmo momento Desfaz
Esse vago Deus por trás do mundo
Por detrás do detrás
Cântico dos Cânticos
Quântico dos quânticos
O que nos diz esta música cantada por Gilberto Gil?
Quanta do latim
Plural de quantum
Quando quase não há
Quantidade que se medir
Qualidade que se expressar
Fragmento infinitésimo
Quase que apenas mental
Quantum granulado sem mel
Quantum ondulado sem sal
Mel de urânio, sal de rádio
Qualquer coisa quase ideal
Cântico dos Cânticos
Quântico dos quânticos
Canto de louvor
De amor ao vento
Arte Vento do ar
Balançando o corpo da flor
Levando o veleiro pro mar
Vento de calor
De pensamento em chamas
Inspiração
Arte de Criar o saber
Arte, descoberta, invenção
Teoria em grego quer dizer
O ser em contemplação
Cântico dos Cânticos
Quântico dos quânticos
Sei que a arte é irmã da ciência
Ambas filhas de um Deus fugaz
Que faz num momento
E no mesmo momento Desfaz
Esse vago Deus por trás do mundo
Por detrás do detrás
Cântico dos Cânticos
Quântico dos quânticos
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
O PONTO DE MUTAÇÃO - THE TURNING POINT
“O PONTO DE MUTAÇÃO”
“The Turning Point”
Relatório sobre o filme “O Ponto de Mutação” – Janeiro de 2010.
Organizador: Áureo João de Sousa, 42 anos.
A trama do episódio do filme “O Ponto de Mutação”, lançado em 1992, com roteiro cinematográfico baseado no livro The Turning Point, este lançado em 1982, de autoria do austríaco Fritjof Capra, PhD em Física Quântica, Pesquisador em Teorias de Sistemas Complexos e Ambientalista, notabilizado com as obras “O Tao da Física” – (1975), “Teia da Vida” , “Conexões Ocultas” – 2002 (lançado no Brasil).
O filme percorre áreas temáticas de Filosofia, Política, Economia, Ciência-Tecnologia tratando, em seu enfoque de abordagem, em questões da crise de sentidos da vida e da sociedade; crise dos paradigmas (dos valores) reinantes do saber científico-tecnológico, da filosofia, da ética, da política, da economia, no contexto da sociedade capitalista ocidental, situados no período histórico a partir da teoria mecanicista defendida por René Descartes e seguida por Isaac Newton e outros personagens de renomes científicos, políticos, religiosos, bem como por pessoas da vida cotidiana.
Em negação à ordem estabelecida, sugere a criação de novos paradigmas a partir de outras perspectivas holísticas, alicerçada em Ethos diferente da visão anterior.
Para fins didáticos, vamos analisar o filme sob um roteiro pedagógico composto de questões selecionadas, a fim de facilitar o processo de leitura textual, temática e analítica.
Tomemos, pois, os seguintes aspectos:
1.Em que cenário acontece a história do filme ? Neste item, observe as seguintes informações:
1.1.O lugar onde acontece a história do filme;
1.2.O acontecimento principal da história, em torno do qual giram os demais fatos;
1.3.Os personagens principais da história;
1.4.Os papéis dos personagens importantes na história;
1.5.As relações de influências subjetivas e objetivas ou forças políticas (e/ou de poder de decisão, poder de influência, poder de convencimento) entre os personagens;
2.Qual é a história do filme ? (a obra versa sobre o quê ?)
3.Qual é a mensagem do autor do filme ? (A idéia do autor)
4.Que aspectos do filme podem ser relacionados com a questão das diferentes formas de conhecimentos e sua evolução, concepções de mundo, no contexto histórico tratado no filme ?
5.Qual é a lição de vida que o filme tenta passar (...qual é a “moral” do filme), em se tratando da construção de conhecimentos e visão do mundo ?
6.A partir das reflexões sobre a lição do filme, o que você propõe levar para sua experiência de vida ? O que você aproveita das reflexões do filme no sentido de enriquecer sua formação dentro do contexto em que se dá o seu processo de interação com a evolução das formas de conhecimento e visão sobre o mundo?
7.Quais os pontos de reflexões individuais devem ser socializados em seu grupo de estudo? E valorizados como lição de vida para o coletivo ?
8.Outras conclusões.
ANALISANDO O FILME : “O PONTO DE MUTAÇÃO”
1.Em que cenário acontece a história do filme ?
O episódio se desenvolve em um castelo medieval, uma fortaleza encravada no alto do Mont Saint Michel, numa ilha, no vilarejo de La Mont Saint Michel, localizado no litoral noroeste da França, perto do Canal da Mancha, fronteira com a Normandia e a Bretanha.
O cenário é composto de elementos da significação do período histórico da Idade Média, bem como elementos da significação do pensamento da Idade Moderna, especialmente representativo do pensamento cartesiano.
Envolve atores socioculturais e econômicos de classe alta, experimentando uma crise de sentidos no âmbito particular de suas vidas pessoais, profissionais e sociais, a partir de onde estabelecem relações com a crise universal e vice-versa.
O acontecimento principal, em torno do qual giram os demais fatos, trata-se de uma espécie de retiro para onde uma cientista, um poeta e um político escolheram para descansar das pressões dos grandes centros urbanas e, nesse ambiente bucólico, abstrair-se sobre o mundo acometido de uma crise de sentidos.
Nesse encontro não planejado para um debate de qualquer assunto de trabalho, desenvolve um grande debate sobre o cenário mundial, em matéria de várias áreas da sociedade.
2.Qual é a história do filme (versa sobre o quê) ?
“The Turning Point”
Relatório sobre o filme “O Ponto de Mutação” – Janeiro de 2010.
Organizador: Áureo João de Sousa, 42 anos.
A trama do episódio do filme “O Ponto de Mutação”, lançado em 1992, com roteiro cinematográfico baseado no livro The Turning Point, este lançado em 1982, de autoria do austríaco Fritjof Capra, PhD em Física Quântica, Pesquisador em Teorias de Sistemas Complexos e Ambientalista, notabilizado com as obras “O Tao da Física” – (1975), “Teia da Vida” , “Conexões Ocultas” – 2002 (lançado no Brasil).
O filme percorre áreas temáticas de Filosofia, Política, Economia, Ciência-Tecnologia tratando, em seu enfoque de abordagem, em questões da crise de sentidos da vida e da sociedade; crise dos paradigmas (dos valores) reinantes do saber científico-tecnológico, da filosofia, da ética, da política, da economia, no contexto da sociedade capitalista ocidental, situados no período histórico a partir da teoria mecanicista defendida por René Descartes e seguida por Isaac Newton e outros personagens de renomes científicos, políticos, religiosos, bem como por pessoas da vida cotidiana.
Em negação à ordem estabelecida, sugere a criação de novos paradigmas a partir de outras perspectivas holísticas, alicerçada em Ethos diferente da visão anterior.
Para fins didáticos, vamos analisar o filme sob um roteiro pedagógico composto de questões selecionadas, a fim de facilitar o processo de leitura textual, temática e analítica.
Tomemos, pois, os seguintes aspectos:
1.Em que cenário acontece a história do filme ? Neste item, observe as seguintes informações:
1.1.O lugar onde acontece a história do filme;
1.2.O acontecimento principal da história, em torno do qual giram os demais fatos;
1.3.Os personagens principais da história;
1.4.Os papéis dos personagens importantes na história;
1.5.As relações de influências subjetivas e objetivas ou forças políticas (e/ou de poder de decisão, poder de influência, poder de convencimento) entre os personagens;
2.Qual é a história do filme ? (a obra versa sobre o quê ?)
3.Qual é a mensagem do autor do filme ? (A idéia do autor)
4.Que aspectos do filme podem ser relacionados com a questão das diferentes formas de conhecimentos e sua evolução, concepções de mundo, no contexto histórico tratado no filme ?
5.Qual é a lição de vida que o filme tenta passar (...qual é a “moral” do filme), em se tratando da construção de conhecimentos e visão do mundo ?
6.A partir das reflexões sobre a lição do filme, o que você propõe levar para sua experiência de vida ? O que você aproveita das reflexões do filme no sentido de enriquecer sua formação dentro do contexto em que se dá o seu processo de interação com a evolução das formas de conhecimento e visão sobre o mundo?
7.Quais os pontos de reflexões individuais devem ser socializados em seu grupo de estudo? E valorizados como lição de vida para o coletivo ?
8.Outras conclusões.
ANALISANDO O FILME : “O PONTO DE MUTAÇÃO”
1.Em que cenário acontece a história do filme ?
O episódio se desenvolve em um castelo medieval, uma fortaleza encravada no alto do Mont Saint Michel, numa ilha, no vilarejo de La Mont Saint Michel, localizado no litoral noroeste da França, perto do Canal da Mancha, fronteira com a Normandia e a Bretanha.
O cenário é composto de elementos da significação do período histórico da Idade Média, bem como elementos da significação do pensamento da Idade Moderna, especialmente representativo do pensamento cartesiano.
Envolve atores socioculturais e econômicos de classe alta, experimentando uma crise de sentidos no âmbito particular de suas vidas pessoais, profissionais e sociais, a partir de onde estabelecem relações com a crise universal e vice-versa.
O acontecimento principal, em torno do qual giram os demais fatos, trata-se de uma espécie de retiro para onde uma cientista, um poeta e um político escolheram para descansar das pressões dos grandes centros urbanas e, nesse ambiente bucólico, abstrair-se sobre o mundo acometido de uma crise de sentidos.
Nesse encontro não planejado para um debate de qualquer assunto de trabalho, desenvolve um grande debate sobre o cenário mundial, em matéria de várias áreas da sociedade.
2.Qual é a história do filme (versa sobre o quê) ?
É uma crítica explícita ao modo de vida moderno e à sociedade ocidental.
Em síntese, o episódio versa sobre uma crise de sentidos porque passa o momento histórico do mundo moderno, das civilizações da era da modernidade, no contexto ocidental, onde se confrontam paradigmas da ordem estabelecida, dos modelos mentais cristalizados, dos seus resultados no mundo, com as perspectivas de construção de novos paradigmas alicerçados numa lógica oposta à ordem vigente.
Muitas teorias sociais, filosóficas, econômicas, políticas são mencionadas na composição do episódio, porém o centro do confronto se dá sob a análise e o debate em torno do Ethos da cultura do pensamento mecanicista, embasado na teoria do pai da ciência moderna - René Descartes, reforçado por leis de física sistematizadas por Isaac Newton – e o Ethos da cultura do pensamento holístico.
Em perspectiva, concepção de processos de construção e sistematização de conhecimentos válidos ou possíveis de validação para superar os limites impostos pela visão de mundo predominante nos tempos modernos, especialmente sintetizados naquilo que representa o modelo de civilização cultural, científica capitalista, sob liderança mundial dos Estados Unidos, comandada pelo governo daquela grande potência de interesses culturais, econômicos e bélicos.
A trama conta com a visão de um político, representando o poder para tomar decisões sobre os destinos da sociedade; uma cientista, representando a comunidade científica, que cria mas não tem domínio político e econômico da sua criação; e um poeta, representando o mundo cultural encantado, que tem a capacidade e a liberdade de penetrar em dimensões sutis da vida singular e universal.
Uma comunidade de atores da vida real na sociedade, com ritmos, convenções, convicções, crenças, verdades e sentimentos diferentes e, às vezes, contraditórios ou antagônicos, sobre os rumos da vida no mundo. Essas diferenças, algumas objetivas e outras puramente subjetivas, ou apenas sob o efeito do status ou preconceito.
A trama cinematográfica oferece, na contra-mão da história do pensamento cartesiano – onde a vida é fragmentada, isolada - a possibilidade e a necessidade imperativa, segundo a teoria holística, da vida ser percebida e interpretada no seu “todo” complexo, onde reconhece cada fragmento dentro da totalidade, as relações de cada fragmento no seio dessa totalidade e a influência recíproca deste todo em cada fragmento. Por este novo paradigma, norteado por uma visão de mundo integrada – as soluções para as crises do modelo da sociedade moderna passam pelos desafios às pessoas singulares e aos atores políticos, econômicos, científicos etc, transcenderem de um estágio de PENSAR - SENTIR – e AGIR NO MUNDO individualista para um estágio de percepção e intervenção coletivista da vida no mundo, num teia de relações e interdependência.
3.Quem são os personagens principais do episódio?
Para fins de registro de uma leitura textual simplista, os personagens principais do filme se limitam a:
1.Sônia Hoffmann, interpretada pela atriz Liv Ullmann, atuando como uma Cientista Física, desiludida com os rumos tomados pela ciência e pelo uso da ciência, por parte de outros atores, a serviço de interesses escusos;
2.Thomas Harrimann, interpretado pelo ator John Heard, atuando como um poeta, dramaturgo e escritor, que abandonou o grande centro urbano por não tolerar um modo de vida mercantilizado, além de suas decepções profissionais nesse meio, inclusive em estágio de uma crise existencial de sua meia idade e, ainda, frustrações em seu modelo de casamento e família, de cujas inquietações busca tranqüilidade;
3.Jack Edwards, interpretado pelo ator Sam Waterson, atuando no papel de um político norte-americano bem sucedido que, ao perder ao eleições para a Presidência dos Estados Unidos, vê-se saturado e confuso com relação aos rumos de sua carreira política.
Para efeito desta crítica contextualizada, leitura do texto no contexto e leitura do contexto no texto, os personagens principais, em lugar de terem seus nomes arrolados, podemos generalizá-los em agrupamentos de interesses e influências, a saber, todos com um estágio comum naquele contexto: uma crise existencial que lhes atormentam e lhes forçam a oportunidade de fazer uma reflexão sobre as causas da crise de sentidos que lhe afetam no mundo:
1.Um político liberal, democrata, capitalista norte-americano, dos EUA;
2.Um escritor/poeta, dramaturgo;
3.Uma cientista.
4.Uma filha da cientista (representando a idéia de um modelo de Família, possivelmente o modelo de família cristã, capitalista);
5.Os Outros (...ausentes, mas presentes. Outros atores que influenciam o episódio)
4.Os *papéis dos personagens principais da história : (*papel social)
Os personagens não são pessoas “comuns” quaisquer. Exercem papéis e poderes de formação de opiniões, inclusive poderes de tomadas de decisões que interferem na formação do pensamento na sociedade, posto que atuam operando nos mais altos níveis das classes políticas, científicas e intelectuais do contexto;
O político carrega uma significação de um segmento de nossa sociedade, sob cuja espécie se concentram os mais fortes poderes institucionalizados para decidir sobre os destinos coletivos, na atual civilização, inclusive contrariando verdades sociais, intelectuais e científicas;
A cientista e o poeta representam papéis de segmentos de muito poder de formação na sociedade. No entanto, seus conhecimentos podem ser manipulados pelo poder institucionalizado do segmento político, a serviço de interesses escusos. A comunidade científica, no seu papel formal de validação de conhecimentos científicos, exerce um papel importante no sentido de não generalizar a validação de um conhecimento, enquanto não submetê-lo a experimentos e estatísticas com resultados quantitativos e qualitativos confiáveis para tal ampliação e aplicação. É o papel da racionalidade científica.
5.Quais são as relações de influências subjetivas e objetivas ou forças políticas (e/ou de poder de decisão, poder de influência, poder de convencimento) entre os personagens;
O centro dos acontecimentos, no contexto da história, faz-se em torno dos personagens descritos acima, a partir dos pontos de vistas e ângulos específicos seus de observação e intervenção no mundo, cada um carregado dos elementos antropológicos, epistemológicos, filosóficos e ideológicos de suas respectivas histórias no mundo e das influências recebidas até então. Exercem uma equilibrada relação de forças e influências entre si e na relação com os demais. Isto condiciona a capacidade de colocar em pauta das discussões, as suas convicções, as suas verdades, as suas crenças e seus feitos, objetivos e subjetivos. O tratamento sobre as formas de conhecimento, sua evolução e uso no mundo, neste contexto analisado, submete-se a essas regras de relações sociais convencionadas, em crise admitida por todos os personagens.
6.Qual é a mensagem do autor do filme ? (A idéia do autor)
Provavelmente, a idéia do autor da obra corresponda à intencionalidade de colocar em exame, a partir de um drama cinematográfico, uma tensão dialética em torno da questão da validação de conhecimentos teóricos, aplicação desses conhecimentos na vida em sociedade, dos ethos que dão sustentação a esses conhecimentos e suas aplicações, bem como sobre a interrogativa: a serviço de quê e de quem esses conhecimentos são utilizados, no contexto da sociedade moderna ocidental?.
Em evidência, o equívoco do pensamento cartesiano materializado nos indicadores de resultados socioculturais, políticos, econômicos e científicos, ambientais e etc no mundo.
O autor ainda provoca uma reflexão sobre a questão do controle, do ponto de vista ético, da ação dos atores da comunidade científica, da política e da economia, expresso nos dilemas seguintes:
1) “A ciência está a serviço da vida ou a vida está a serviço da ciência” ou “A serviço de quem a ciência deve ser desenvolvida?”;
2) “A serviço de quem a política ocidental se desenvolve, de modo predominante”?
3) “O modelo capitalista é sustentável?”
7.Que aspectos do filme podem ser relacionados com a questão das diferentes formas de conhecimentos, sua evolução e aplicação, no contexto histórico tratado no filme?
A inquietação dos personagens – representantes de áreas diferentes de conhecimentos e experiências - expressa em todas as suas atitudes e crises existenciais, emocionais, sociais e técnicas no processo de busca e de construção de novas verdades, novas convicções ou, pelo menos, novas hipóteses que lhes transportassem do limite da Ordem em vigor (o individualismo, o mecanicismo, os resultados atuais do capitalismo) para uma probabilidade racional de construção de novas bases teóricas de conhecimentos e suas aplicações sustentáveis no mundo.
A possibilidade de construir alternativas sustentáveis, do ponto de vista científico, político, ambiental, econômica e cultural, a partir da crítica sobre a crise instalada na gênesis do modelo vigente.
8. Qual é a lição de vida que o filme tenta passar (...qual é a “moral” do filme), em se tratando da construção de conhecimentos e concepção de mundo ?
Hipótese 1: Não há verdade absoluta. A visão de mundo sob a concepção cartesiana não tem valor absoluto e já expõe seus equívocos. O ethos do modelo da sociedade moderna ocidental capitalista não tem sustentabilidade;
Hipótese 2: Novos paradigmas existem. A sociedade atual pode ser conduzida sob orientação de outro ethos, diferente dos valores predominantes. A visão holística, a interdependência, a integração dos setores diversos da vida dão melhor sentido à Vida no mundo. Para valorizar, defender e continuar a existência de um mundo melhor, o limite da persistência de busca é infinito e não está subordinado às convenções e convicções em vigor. Novas convicções podem ser construídas.
Hipótese 3: Quase que imperceptível no filme, uma lição importante sobre o modelo de família ocidental cristã capitalista, refletida em questionamentos possível, a saber:
1.Com que direito nós – pais e mães – investimos dedicação prioritária em nossos projetos de vida profissional e social, em prejuízo das relações afetivas com os(as) filhos(as) e companheiros(as)?
2.Com base em que Ethos se fundamenta a posição dos(as) filhos(as) para reivindicar para si a figura do “MEU PAI / MINHA MÃE”, como elemento sob conduta de posse ?
3.Quais significações culturais estão por trás dessas questões?
9.A partir das reflexões sobre a lição do filme, o que você propõe levar para sua experiência de vida ? O que você aproveita das reflexões do filme no sentido de enriquecer sua formação dentro do contexto em que se dá o seu processo de interação com a evolução das formas de conhecimentos e suas aplicações?
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O filme conduz o telespectador à possibilidade de escolher, do ponto de vista filosófico do termo “escolha”, uma visão de mundo orientada pela concepção mecanicista oferecida com os fundamentos construídos por René Descartes e Isaac Newton, e aplicada no contexto da sociedade moderna ocidental, ou uma visão de mundo integrada, fundamentada na idéia de que lidamos com uma teia de relações dentro de uma Vida pessoal e da Vida universal, onde a parte e o todo estão reciprocamente interligados a tal modo que a sustentabilidade das coisas singulares e das coisas universais está em condição de interdependência contínua, dinâmica e processual. Predomina, no filme, o novo paradigma como melhor escolha.
FICHA TÉCNICA DO FILME ANALISADO
Título Original:.................... The Turning Point
Título em Português:......... O Ponto de Mutação
Gênero:................................ Drama
Direção de Roteiro:............ Bernt Capra
Ano de Lançamento:......... 1992
Obra inspiradora:........ Roteiro cinematográfico baseado no livro The Turning Point, lançado em 1982, de autoria do austríaco Fritjof Capra, PhD em Física Quântica, Pesquisador em Teorias de Sistemas Complexos e Ambientalista, notabilizado com as obras “O Tao da Física” – (1975), “Teia da Vida” , “Conexões Ocultas” – 2002 (lançado no Brasil).
Área temática de abordagem: Filosofia, Política, Economia, Ciência-Tecnologia.
Enfoque da abordagem: Crise de sentidos da vida e da sociedade; crise dos paradigmas (dos valores) reinantes do saber científico-tecnológico, da filosofia, da ética, da política, da economia, no contexto da sociedade capitalista ocidental, situados no período histórico a partir da teoria mecanicista defendida por René Descartes e seguida por Isaac Newton e outros personagens de renomes científicos, políticos, religiosos, bem como por pessoas da vida cotidiana. E criação de novos paradigmas a partir de outras perspectivas holísticas.
Elenco principal: Liv Ullmann, no papel de Sônia Hoffmann; o ator John Heard, no papel de Thomas Harrimann e o ator Sam Waterson, no papel de Jack Edwards.
REFERÊNCIAS
Em síntese, o episódio versa sobre uma crise de sentidos porque passa o momento histórico do mundo moderno, das civilizações da era da modernidade, no contexto ocidental, onde se confrontam paradigmas da ordem estabelecida, dos modelos mentais cristalizados, dos seus resultados no mundo, com as perspectivas de construção de novos paradigmas alicerçados numa lógica oposta à ordem vigente.
Muitas teorias sociais, filosóficas, econômicas, políticas são mencionadas na composição do episódio, porém o centro do confronto se dá sob a análise e o debate em torno do Ethos da cultura do pensamento mecanicista, embasado na teoria do pai da ciência moderna - René Descartes, reforçado por leis de física sistematizadas por Isaac Newton – e o Ethos da cultura do pensamento holístico.
Em perspectiva, concepção de processos de construção e sistematização de conhecimentos válidos ou possíveis de validação para superar os limites impostos pela visão de mundo predominante nos tempos modernos, especialmente sintetizados naquilo que representa o modelo de civilização cultural, científica capitalista, sob liderança mundial dos Estados Unidos, comandada pelo governo daquela grande potência de interesses culturais, econômicos e bélicos.
A trama conta com a visão de um político, representando o poder para tomar decisões sobre os destinos da sociedade; uma cientista, representando a comunidade científica, que cria mas não tem domínio político e econômico da sua criação; e um poeta, representando o mundo cultural encantado, que tem a capacidade e a liberdade de penetrar em dimensões sutis da vida singular e universal.
Uma comunidade de atores da vida real na sociedade, com ritmos, convenções, convicções, crenças, verdades e sentimentos diferentes e, às vezes, contraditórios ou antagônicos, sobre os rumos da vida no mundo. Essas diferenças, algumas objetivas e outras puramente subjetivas, ou apenas sob o efeito do status ou preconceito.
A trama cinematográfica oferece, na contra-mão da história do pensamento cartesiano – onde a vida é fragmentada, isolada - a possibilidade e a necessidade imperativa, segundo a teoria holística, da vida ser percebida e interpretada no seu “todo” complexo, onde reconhece cada fragmento dentro da totalidade, as relações de cada fragmento no seio dessa totalidade e a influência recíproca deste todo em cada fragmento. Por este novo paradigma, norteado por uma visão de mundo integrada – as soluções para as crises do modelo da sociedade moderna passam pelos desafios às pessoas singulares e aos atores políticos, econômicos, científicos etc, transcenderem de um estágio de PENSAR - SENTIR – e AGIR NO MUNDO individualista para um estágio de percepção e intervenção coletivista da vida no mundo, num teia de relações e interdependência.
3.Quem são os personagens principais do episódio?
Para fins de registro de uma leitura textual simplista, os personagens principais do filme se limitam a:
1.Sônia Hoffmann, interpretada pela atriz Liv Ullmann, atuando como uma Cientista Física, desiludida com os rumos tomados pela ciência e pelo uso da ciência, por parte de outros atores, a serviço de interesses escusos;
2.Thomas Harrimann, interpretado pelo ator John Heard, atuando como um poeta, dramaturgo e escritor, que abandonou o grande centro urbano por não tolerar um modo de vida mercantilizado, além de suas decepções profissionais nesse meio, inclusive em estágio de uma crise existencial de sua meia idade e, ainda, frustrações em seu modelo de casamento e família, de cujas inquietações busca tranqüilidade;
3.Jack Edwards, interpretado pelo ator Sam Waterson, atuando no papel de um político norte-americano bem sucedido que, ao perder ao eleições para a Presidência dos Estados Unidos, vê-se saturado e confuso com relação aos rumos de sua carreira política.
Para efeito desta crítica contextualizada, leitura do texto no contexto e leitura do contexto no texto, os personagens principais, em lugar de terem seus nomes arrolados, podemos generalizá-los em agrupamentos de interesses e influências, a saber, todos com um estágio comum naquele contexto: uma crise existencial que lhes atormentam e lhes forçam a oportunidade de fazer uma reflexão sobre as causas da crise de sentidos que lhe afetam no mundo:
1.Um político liberal, democrata, capitalista norte-americano, dos EUA;
2.Um escritor/poeta, dramaturgo;
3.Uma cientista.
4.Uma filha da cientista (representando a idéia de um modelo de Família, possivelmente o modelo de família cristã, capitalista);
5.Os Outros (...ausentes, mas presentes. Outros atores que influenciam o episódio)
4.Os *papéis dos personagens principais da história : (*papel social)
Os personagens não são pessoas “comuns” quaisquer. Exercem papéis e poderes de formação de opiniões, inclusive poderes de tomadas de decisões que interferem na formação do pensamento na sociedade, posto que atuam operando nos mais altos níveis das classes políticas, científicas e intelectuais do contexto;
O político carrega uma significação de um segmento de nossa sociedade, sob cuja espécie se concentram os mais fortes poderes institucionalizados para decidir sobre os destinos coletivos, na atual civilização, inclusive contrariando verdades sociais, intelectuais e científicas;
A cientista e o poeta representam papéis de segmentos de muito poder de formação na sociedade. No entanto, seus conhecimentos podem ser manipulados pelo poder institucionalizado do segmento político, a serviço de interesses escusos. A comunidade científica, no seu papel formal de validação de conhecimentos científicos, exerce um papel importante no sentido de não generalizar a validação de um conhecimento, enquanto não submetê-lo a experimentos e estatísticas com resultados quantitativos e qualitativos confiáveis para tal ampliação e aplicação. É o papel da racionalidade científica.
5.Quais são as relações de influências subjetivas e objetivas ou forças políticas (e/ou de poder de decisão, poder de influência, poder de convencimento) entre os personagens;
O centro dos acontecimentos, no contexto da história, faz-se em torno dos personagens descritos acima, a partir dos pontos de vistas e ângulos específicos seus de observação e intervenção no mundo, cada um carregado dos elementos antropológicos, epistemológicos, filosóficos e ideológicos de suas respectivas histórias no mundo e das influências recebidas até então. Exercem uma equilibrada relação de forças e influências entre si e na relação com os demais. Isto condiciona a capacidade de colocar em pauta das discussões, as suas convicções, as suas verdades, as suas crenças e seus feitos, objetivos e subjetivos. O tratamento sobre as formas de conhecimento, sua evolução e uso no mundo, neste contexto analisado, submete-se a essas regras de relações sociais convencionadas, em crise admitida por todos os personagens.
6.Qual é a mensagem do autor do filme ? (A idéia do autor)
Provavelmente, a idéia do autor da obra corresponda à intencionalidade de colocar em exame, a partir de um drama cinematográfico, uma tensão dialética em torno da questão da validação de conhecimentos teóricos, aplicação desses conhecimentos na vida em sociedade, dos ethos que dão sustentação a esses conhecimentos e suas aplicações, bem como sobre a interrogativa: a serviço de quê e de quem esses conhecimentos são utilizados, no contexto da sociedade moderna ocidental?.
Em evidência, o equívoco do pensamento cartesiano materializado nos indicadores de resultados socioculturais, políticos, econômicos e científicos, ambientais e etc no mundo.
O autor ainda provoca uma reflexão sobre a questão do controle, do ponto de vista ético, da ação dos atores da comunidade científica, da política e da economia, expresso nos dilemas seguintes:
1) “A ciência está a serviço da vida ou a vida está a serviço da ciência” ou “A serviço de quem a ciência deve ser desenvolvida?”;
2) “A serviço de quem a política ocidental se desenvolve, de modo predominante”?
3) “O modelo capitalista é sustentável?”
7.Que aspectos do filme podem ser relacionados com a questão das diferentes formas de conhecimentos, sua evolução e aplicação, no contexto histórico tratado no filme?
A inquietação dos personagens – representantes de áreas diferentes de conhecimentos e experiências - expressa em todas as suas atitudes e crises existenciais, emocionais, sociais e técnicas no processo de busca e de construção de novas verdades, novas convicções ou, pelo menos, novas hipóteses que lhes transportassem do limite da Ordem em vigor (o individualismo, o mecanicismo, os resultados atuais do capitalismo) para uma probabilidade racional de construção de novas bases teóricas de conhecimentos e suas aplicações sustentáveis no mundo.
A possibilidade de construir alternativas sustentáveis, do ponto de vista científico, político, ambiental, econômica e cultural, a partir da crítica sobre a crise instalada na gênesis do modelo vigente.
8. Qual é a lição de vida que o filme tenta passar (...qual é a “moral” do filme), em se tratando da construção de conhecimentos e concepção de mundo ?
Hipótese 1: Não há verdade absoluta. A visão de mundo sob a concepção cartesiana não tem valor absoluto e já expõe seus equívocos. O ethos do modelo da sociedade moderna ocidental capitalista não tem sustentabilidade;
Hipótese 2: Novos paradigmas existem. A sociedade atual pode ser conduzida sob orientação de outro ethos, diferente dos valores predominantes. A visão holística, a interdependência, a integração dos setores diversos da vida dão melhor sentido à Vida no mundo. Para valorizar, defender e continuar a existência de um mundo melhor, o limite da persistência de busca é infinito e não está subordinado às convenções e convicções em vigor. Novas convicções podem ser construídas.
Hipótese 3: Quase que imperceptível no filme, uma lição importante sobre o modelo de família ocidental cristã capitalista, refletida em questionamentos possível, a saber:
1.Com que direito nós – pais e mães – investimos dedicação prioritária em nossos projetos de vida profissional e social, em prejuízo das relações afetivas com os(as) filhos(as) e companheiros(as)?
2.Com base em que Ethos se fundamenta a posição dos(as) filhos(as) para reivindicar para si a figura do “MEU PAI / MINHA MÃE”, como elemento sob conduta de posse ?
3.Quais significações culturais estão por trás dessas questões?
9.A partir das reflexões sobre a lição do filme, o que você propõe levar para sua experiência de vida ? O que você aproveita das reflexões do filme no sentido de enriquecer sua formação dentro do contexto em que se dá o seu processo de interação com a evolução das formas de conhecimentos e suas aplicações?
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O filme conduz o telespectador à possibilidade de escolher, do ponto de vista filosófico do termo “escolha”, uma visão de mundo orientada pela concepção mecanicista oferecida com os fundamentos construídos por René Descartes e Isaac Newton, e aplicada no contexto da sociedade moderna ocidental, ou uma visão de mundo integrada, fundamentada na idéia de que lidamos com uma teia de relações dentro de uma Vida pessoal e da Vida universal, onde a parte e o todo estão reciprocamente interligados a tal modo que a sustentabilidade das coisas singulares e das coisas universais está em condição de interdependência contínua, dinâmica e processual. Predomina, no filme, o novo paradigma como melhor escolha.
FICHA TÉCNICA DO FILME ANALISADO
Título Original:.................... The Turning Point
Título em Português:......... O Ponto de Mutação
Gênero:................................ Drama
Direção de Roteiro:............ Bernt Capra
Ano de Lançamento:......... 1992
Obra inspiradora:........ Roteiro cinematográfico baseado no livro The Turning Point, lançado em 1982, de autoria do austríaco Fritjof Capra, PhD em Física Quântica, Pesquisador em Teorias de Sistemas Complexos e Ambientalista, notabilizado com as obras “O Tao da Física” – (1975), “Teia da Vida” , “Conexões Ocultas” – 2002 (lançado no Brasil).
Área temática de abordagem: Filosofia, Política, Economia, Ciência-Tecnologia.
Enfoque da abordagem: Crise de sentidos da vida e da sociedade; crise dos paradigmas (dos valores) reinantes do saber científico-tecnológico, da filosofia, da ética, da política, da economia, no contexto da sociedade capitalista ocidental, situados no período histórico a partir da teoria mecanicista defendida por René Descartes e seguida por Isaac Newton e outros personagens de renomes científicos, políticos, religiosos, bem como por pessoas da vida cotidiana. E criação de novos paradigmas a partir de outras perspectivas holísticas.
Elenco principal: Liv Ullmann, no papel de Sônia Hoffmann; o ator John Heard, no papel de Thomas Harrimann e o ator Sam Waterson, no papel de Jack Edwards.
REFERÊNCIAS
THE TURNING POINT (O Ponto de Mutação). Direção de Roteiro: Bernt Capra; Produção de roteiro: Frijof Capra (baseado no livro de mesmo título – Frijof Capra, 1982); Intérpretes: Liv Ullmann; John Heard, Sam Waterson e outros. EUA, 1992. 1 filme (110 min), audio, som, colorido.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
A CIÊNCIA NA ARTE: o fator circularidade
A CIÊNCIA NA ARTE
Teresa Cristina Coelho Matos*
*Assistente Social, Especialista em Gestão de Organizações Públicas e Sociais pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI, Mestra em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Piauí – UFPI. E-mail: teresacmatos@uol.com.br.
Desde o advento do capitalismo, como principal sistema de organização da sociedade, e de sua consolidação, a partir da segunda metade do século XX, o mundo vem passando por profundas mudanças em todas as dimensões da vida humana: social, econômica, política, ambiental, cultural, espiritual, dentre outras. Tais mudanças geraram, e continuam gerando, um estado de crise mundial que, pelas análises de estudiosos como Capra (1982), Santos (1989) e Morin (2001), são complexas, multidimensionais e interdependentes.
Frente a essa realidade, a ciência, até então exercida como instrumento de poder, dentro de um universo privilegiado de acesso à verdade e ao conhecimento para poucos, foi forçada a uma ruptura com seu método de investigação, racionalista e reducionista da realidade, em favor de uma concepção sistêmica do mundo, visando a transformação da sociedade, baseada na consciência do estado de inter-relações e interdependência entre todos os fenômenos (CAPRA, 1982).
Olhando o mundo pela concepção sistêmica, percebe-se haver uma circularidade criativa entre ciência, cultura e arte, como se ver no livro “O Alienista”, de Machado de Assis, que mostra o comportamento da ciência como instrumento de poder. A mesma circularidade está ilustrada no filme “o Ponto de Mutação”, de Frijofre Capra, e no álbum de musica “Quanta”, de Gilberto Gil, que apresenta, nas canções, o conhecimento científico e popular como instrumentos de transformação da sociedade.
Na obra “O Alienista”, publicada no século XIX, tendo como centro temático o problema da loucura, ambientado na pequena cidade de Itaguaí, em Minas Gerais, Machado de Assis mostra, com boa dose de ironia, a visão popular construída sobre a ciência pela qual se confundem respeito e medo, bem como a assimilação de seus pressupostos como verdades absolutas. Essa percepção é demonstrada na conduta do médico Simão Bacamarte, personagem principal do conto, que transforma a cidade de Itaguaí num laboratório de estudo sobre a loucura, cometendo o exagero de construir uma clinica “Casa de Orates” e nela internar grande parte da população que ele diagnostica como louca, a partir dos seus estudos e experimentos ditos “científicos”.
O autor mostra que, no universo popular, os feitos de Simão Bacamarte recebem críticas e elogios simultâneos, através de discursos formados por frases feitas e rebuscadas, mas de pouco conteúdo, e que o uso da retórica se dá sem qualquer compreensão do que ela traduz, mas apenas pelo efeito que ela produz, refletindo a superficialidade de conhecimento daqueles que as utilizam. Desse universo, surge um grupo de resistência aos experimentos de Simão Bacamarte, mas que não consegue reter o avanço de tais experimentos, por não ter profundidade e nem maturidade necessária para se contrapor de forma eficiente ao poder e dogmas da ciência.
O universo do conhecimento científico é ali representado por Simão Bacamarte, que se converte na própria Ciência, ao estudar os problemas da loucura assumindo uma conduta de total impassividade, frieza e grande mistério sobre seus experimentos, colocando-se acima do bem e do mal.
Imbuído dessa representação, Simão Bacamarte usa de linguagem fechada, evitando expressões sentimentais e excluindo as influências emocionais da sua vida. Guia-se exclusivamente pelos pressupostos da Ciência, cometendo a arbitrariedade de recolher ao asilo que construiu na cidade todas as pessoas que, por meio de seus estudos científicos e teorias desenvolvidas, foram classificadas como loucas, o que resultou, num primeiro momento, no recolhimento ao asilo de quase toda a população e, posteriormente, ao desenvolver novas teorias, na liberação de quase todas as pessoas anteriormente recolhidos como loucas. Tal conduta dá evidência pública à loucura do próprio cientista, mas que demora a ser denunciada pelo respeito cego das pessoas ao poder “inquestionável” da ciência.
No filme “O Ponto de Mutação”, produzido em 1992, adaptado do livro escrito pelo físico austríaco Fritjof Capra, em 1982, o cenário é um castelo da França, uma construção medieval, propício para a discussão trazida na trama, por conter objetos que remontam à história da sociedade moderna e evocam as linhas de pensamento inerentes a ela. A discussão é estabelecida entre uma física, desiludida com os rumos tomados pela ciência; um poeta, crítico do modo de vida mercantilizado e um político bem sucedido, porém com muitos questionamentos sobre os rumos da sua carreira.
Através do diálogo entre esses três personagens, o filme evidencia o confronto entre a linha de pensamento mecanicista e a linda de pensamento sistêmico da realidade. A primeira linha, derivada dos estudos de René Descartes, trouxe a visão de que o mundo poderia ser entendido como um relógio e os fenômenos naturais como uma máquina, bastando desmontar as peças e entendê-las para compreender o todo. A segunda adota pensamento contrário, defende uma visão de mundo integrada, dando ênfase nas interações existentes entre as parte e o todo. Visto por esse prisma, o mundo funciona como um jogo de quebra-cabeças onde cada peça tem uma função importante e sem uma delas o jogo fica incompleto.
A personagem da cientista faz uma crítica aberta ao modo de vida moderna, e especificamente à sociedade ocidental, atualmente em crise por ser mercantilista, individualista e cartesiana, indicando que esta crise pode ser resolvida se as pessoas começarem a pensar que tudo está interligado e interdependente. Seria sair de uma percepção individualista para uma percepção coletivista da vida, apontando como exemplo a visão de mundo dos índios americanos quando expressa que “os índios americanos pensavam nas conseqüências de suas ações até a sétima geração.”
Os três personagens também trazem a tona seus conflitos pessoais, fruto desta crise de percepção da humanidade. O poeta, a cientista e o político notam que, embora tenham noção de como o mundo deveria ser, eles não conseguiram implantar suas teorias em suas próprias vidas. O político não sabe como integrar política com a visão de mundo proposta pela cientista. Enquanto que a cientista explica de modo brilhante como os sistemas se integram, mas não consegue manter uma relação normal e saudável com sua única filha. Já o poeta é um fugitivo da vida em sociedade e vive, assim como a cientistas, isolado em uma ilha, sem pretensões de voltar a desempenhar seus papéis sociais.
A cientista e o poeta são criticados pelo personagem do político. Este diz que eles são como “vozes que gritam no meio do deserto”, ao invés de se voltarem para o mundo real e conviverem com as adversidades presentes nele e tentar transformá-lo.
No Álbum de musicas “Quanta”, de Gilberto Gil, gravado em 1997, premiado em 1998 com o Grammy na categoria World Music, a ciência na arte é mostrada em várias composições, que trazem para o universo popular temas e personagens do universo científico, como:
A física moderna, que aparece no samba “Ciência e Arte”, de Cartola e Carlos Cachaça, que homenageia o físico brasileiro, Cesar Lattes, pela contribuição que deu para o avanço da física, através da descoberta e comprovação da existência da partícula méson PI (Nota 1). Por ocasião do lançamento do Álbum, César lattes manifestou sua opinião sobre a convivência entre a ciência e a arte dizendo que a ciência é a irmã caçula da arte, talvez bastarda, uma vez que todo resultado da ciência é provisório, sendo a arte milenar e eterna.
O paradigma quântico, abordado em linguagem poética através da letra da música “Quanta”. Muito interessante por permitir que através da arte (música e poesia) sejam divulgadas as descobertas cientificas da física quântica e por evidenciar que arte e ciência, mesmo tendo linguagem própria, estão construindo formas novas de percepção do mundo, nos levando a refletir que esses dois universos de compreensão da realidade partem de elementos comuns, simbolizado pelo “quanta”, presente e atuante em todos os elementos da natureza, tanto usados pela ciência quanto pela arte.
As tecnologias de informação, presentes na música “Internet”, que apresenta conceitos relacionados com o mundo da informática e da rede mundial de comunicação virtual, com o mundo da poesia e do cotidiano das pessoas, evidenciando o comportamento ao quais as pessoas são conduzidas para fazer parte desse mundo de relacionamento virtual. Vele ressaltar que o álbum “Quanta” também trás manifestações do conhecimento popular em músicas como “água benta” e “pílula de alho”.
Em síntese, a alegoria expressa no ensaio “O Alienista”, de Machado de Assis, contribui para se refletir que, em nome das verdades e dos pressupostos “inquestionáveis” da ciência, com a determinação de uma conduta geral para o comportamento humano, comunidades humanas podem ser submetidas a situações de risco, sofrimentos e tragédias, pela incapacidade das pessoas comuns de questionarem e se contraporem às arbitrariedades a que são submetidas em razão de não terem acesso ao mundo misterioso da ciência.
Já o filme “O Ponto de Mutação” e as composições do álbum “Quanta” contribuem para se perceber que ciência e arte, apesar de normalmente serem compreendidas como esferas distintas do conhecimento, a primeira como campo da razão, do rigor e da precisão; a segunda como campo da criatividade, da intuição e da liberdade de criação, a conjugação entre ambas, evidenciada no filme e na música, cria um instrumental de percepção da complexidade do mundo e das inter-relações que nele são estabelecidas, que possibilita sua maior compreensão pelo universo popular e de que os feitos da ciência e de todas as esferas do conhecimento se constituam em ferramentas de transformação evolutiva da humanidade.
NOTA 1 - Existe relato que César Lattes ficou muito emocionado ao escutar seu nome na letra cantarolada por um vendedor de peixes, que sequer sabia o que eram prótons e nêutrons
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ASSIS, M. de. O Alienista. São Paulo: Ática, Série Bom Livro, 1998.
CAPRA, F. O Ponto de Mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. São Paulo: círculo do livro, 1982.
CAPRA,B (dir). Ponto de mutação. 1992, 126m, [s/l] Cannes home video
GIL, Gilberto. CD Quanta. 1997. World Music Brasil.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Introdução a uma ciência pós-moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1989.
Teresa Cristina Coelho Matos*
*Assistente Social, Especialista em Gestão de Organizações Públicas e Sociais pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI, Mestra em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Piauí – UFPI. E-mail: teresacmatos@uol.com.br.
Desde o advento do capitalismo, como principal sistema de organização da sociedade, e de sua consolidação, a partir da segunda metade do século XX, o mundo vem passando por profundas mudanças em todas as dimensões da vida humana: social, econômica, política, ambiental, cultural, espiritual, dentre outras. Tais mudanças geraram, e continuam gerando, um estado de crise mundial que, pelas análises de estudiosos como Capra (1982), Santos (1989) e Morin (2001), são complexas, multidimensionais e interdependentes.
Frente a essa realidade, a ciência, até então exercida como instrumento de poder, dentro de um universo privilegiado de acesso à verdade e ao conhecimento para poucos, foi forçada a uma ruptura com seu método de investigação, racionalista e reducionista da realidade, em favor de uma concepção sistêmica do mundo, visando a transformação da sociedade, baseada na consciência do estado de inter-relações e interdependência entre todos os fenômenos (CAPRA, 1982).
Olhando o mundo pela concepção sistêmica, percebe-se haver uma circularidade criativa entre ciência, cultura e arte, como se ver no livro “O Alienista”, de Machado de Assis, que mostra o comportamento da ciência como instrumento de poder. A mesma circularidade está ilustrada no filme “o Ponto de Mutação”, de Frijofre Capra, e no álbum de musica “Quanta”, de Gilberto Gil, que apresenta, nas canções, o conhecimento científico e popular como instrumentos de transformação da sociedade.
Na obra “O Alienista”, publicada no século XIX, tendo como centro temático o problema da loucura, ambientado na pequena cidade de Itaguaí, em Minas Gerais, Machado de Assis mostra, com boa dose de ironia, a visão popular construída sobre a ciência pela qual se confundem respeito e medo, bem como a assimilação de seus pressupostos como verdades absolutas. Essa percepção é demonstrada na conduta do médico Simão Bacamarte, personagem principal do conto, que transforma a cidade de Itaguaí num laboratório de estudo sobre a loucura, cometendo o exagero de construir uma clinica “Casa de Orates” e nela internar grande parte da população que ele diagnostica como louca, a partir dos seus estudos e experimentos ditos “científicos”.
O autor mostra que, no universo popular, os feitos de Simão Bacamarte recebem críticas e elogios simultâneos, através de discursos formados por frases feitas e rebuscadas, mas de pouco conteúdo, e que o uso da retórica se dá sem qualquer compreensão do que ela traduz, mas apenas pelo efeito que ela produz, refletindo a superficialidade de conhecimento daqueles que as utilizam. Desse universo, surge um grupo de resistência aos experimentos de Simão Bacamarte, mas que não consegue reter o avanço de tais experimentos, por não ter profundidade e nem maturidade necessária para se contrapor de forma eficiente ao poder e dogmas da ciência.
O universo do conhecimento científico é ali representado por Simão Bacamarte, que se converte na própria Ciência, ao estudar os problemas da loucura assumindo uma conduta de total impassividade, frieza e grande mistério sobre seus experimentos, colocando-se acima do bem e do mal.
Imbuído dessa representação, Simão Bacamarte usa de linguagem fechada, evitando expressões sentimentais e excluindo as influências emocionais da sua vida. Guia-se exclusivamente pelos pressupostos da Ciência, cometendo a arbitrariedade de recolher ao asilo que construiu na cidade todas as pessoas que, por meio de seus estudos científicos e teorias desenvolvidas, foram classificadas como loucas, o que resultou, num primeiro momento, no recolhimento ao asilo de quase toda a população e, posteriormente, ao desenvolver novas teorias, na liberação de quase todas as pessoas anteriormente recolhidos como loucas. Tal conduta dá evidência pública à loucura do próprio cientista, mas que demora a ser denunciada pelo respeito cego das pessoas ao poder “inquestionável” da ciência.
No filme “O Ponto de Mutação”, produzido em 1992, adaptado do livro escrito pelo físico austríaco Fritjof Capra, em 1982, o cenário é um castelo da França, uma construção medieval, propício para a discussão trazida na trama, por conter objetos que remontam à história da sociedade moderna e evocam as linhas de pensamento inerentes a ela. A discussão é estabelecida entre uma física, desiludida com os rumos tomados pela ciência; um poeta, crítico do modo de vida mercantilizado e um político bem sucedido, porém com muitos questionamentos sobre os rumos da sua carreira.
Através do diálogo entre esses três personagens, o filme evidencia o confronto entre a linha de pensamento mecanicista e a linda de pensamento sistêmico da realidade. A primeira linha, derivada dos estudos de René Descartes, trouxe a visão de que o mundo poderia ser entendido como um relógio e os fenômenos naturais como uma máquina, bastando desmontar as peças e entendê-las para compreender o todo. A segunda adota pensamento contrário, defende uma visão de mundo integrada, dando ênfase nas interações existentes entre as parte e o todo. Visto por esse prisma, o mundo funciona como um jogo de quebra-cabeças onde cada peça tem uma função importante e sem uma delas o jogo fica incompleto.
A personagem da cientista faz uma crítica aberta ao modo de vida moderna, e especificamente à sociedade ocidental, atualmente em crise por ser mercantilista, individualista e cartesiana, indicando que esta crise pode ser resolvida se as pessoas começarem a pensar que tudo está interligado e interdependente. Seria sair de uma percepção individualista para uma percepção coletivista da vida, apontando como exemplo a visão de mundo dos índios americanos quando expressa que “os índios americanos pensavam nas conseqüências de suas ações até a sétima geração.”
Os três personagens também trazem a tona seus conflitos pessoais, fruto desta crise de percepção da humanidade. O poeta, a cientista e o político notam que, embora tenham noção de como o mundo deveria ser, eles não conseguiram implantar suas teorias em suas próprias vidas. O político não sabe como integrar política com a visão de mundo proposta pela cientista. Enquanto que a cientista explica de modo brilhante como os sistemas se integram, mas não consegue manter uma relação normal e saudável com sua única filha. Já o poeta é um fugitivo da vida em sociedade e vive, assim como a cientistas, isolado em uma ilha, sem pretensões de voltar a desempenhar seus papéis sociais.
A cientista e o poeta são criticados pelo personagem do político. Este diz que eles são como “vozes que gritam no meio do deserto”, ao invés de se voltarem para o mundo real e conviverem com as adversidades presentes nele e tentar transformá-lo.
No Álbum de musicas “Quanta”, de Gilberto Gil, gravado em 1997, premiado em 1998 com o Grammy na categoria World Music, a ciência na arte é mostrada em várias composições, que trazem para o universo popular temas e personagens do universo científico, como:
A física moderna, que aparece no samba “Ciência e Arte”, de Cartola e Carlos Cachaça, que homenageia o físico brasileiro, Cesar Lattes, pela contribuição que deu para o avanço da física, através da descoberta e comprovação da existência da partícula méson PI (Nota 1). Por ocasião do lançamento do Álbum, César lattes manifestou sua opinião sobre a convivência entre a ciência e a arte dizendo que a ciência é a irmã caçula da arte, talvez bastarda, uma vez que todo resultado da ciência é provisório, sendo a arte milenar e eterna.
O paradigma quântico, abordado em linguagem poética através da letra da música “Quanta”. Muito interessante por permitir que através da arte (música e poesia) sejam divulgadas as descobertas cientificas da física quântica e por evidenciar que arte e ciência, mesmo tendo linguagem própria, estão construindo formas novas de percepção do mundo, nos levando a refletir que esses dois universos de compreensão da realidade partem de elementos comuns, simbolizado pelo “quanta”, presente e atuante em todos os elementos da natureza, tanto usados pela ciência quanto pela arte.
As tecnologias de informação, presentes na música “Internet”, que apresenta conceitos relacionados com o mundo da informática e da rede mundial de comunicação virtual, com o mundo da poesia e do cotidiano das pessoas, evidenciando o comportamento ao quais as pessoas são conduzidas para fazer parte desse mundo de relacionamento virtual. Vele ressaltar que o álbum “Quanta” também trás manifestações do conhecimento popular em músicas como “água benta” e “pílula de alho”.
Em síntese, a alegoria expressa no ensaio “O Alienista”, de Machado de Assis, contribui para se refletir que, em nome das verdades e dos pressupostos “inquestionáveis” da ciência, com a determinação de uma conduta geral para o comportamento humano, comunidades humanas podem ser submetidas a situações de risco, sofrimentos e tragédias, pela incapacidade das pessoas comuns de questionarem e se contraporem às arbitrariedades a que são submetidas em razão de não terem acesso ao mundo misterioso da ciência.
Já o filme “O Ponto de Mutação” e as composições do álbum “Quanta” contribuem para se perceber que ciência e arte, apesar de normalmente serem compreendidas como esferas distintas do conhecimento, a primeira como campo da razão, do rigor e da precisão; a segunda como campo da criatividade, da intuição e da liberdade de criação, a conjugação entre ambas, evidenciada no filme e na música, cria um instrumental de percepção da complexidade do mundo e das inter-relações que nele são estabelecidas, que possibilita sua maior compreensão pelo universo popular e de que os feitos da ciência e de todas as esferas do conhecimento se constituam em ferramentas de transformação evolutiva da humanidade.
NOTA 1 - Existe relato que César Lattes ficou muito emocionado ao escutar seu nome na letra cantarolada por um vendedor de peixes, que sequer sabia o que eram prótons e nêutrons
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ASSIS, M. de. O Alienista. São Paulo: Ática, Série Bom Livro, 1998.
CAPRA, F. O Ponto de Mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. São Paulo: círculo do livro, 1982.
CAPRA,B (dir). Ponto de mutação. 1992, 126m, [s/l] Cannes home video
GIL, Gilberto. CD Quanta. 1997. World Music Brasil.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Introdução a uma ciência pós-moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1989.
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